Yahia al-Najjar tinha apenas quatro meses quando morreu esta terça-feira no Hospital Americano de Khan Younis, no sul da Faixa de Gaza. A causa de morte foi identificada pelos médicos como “desnutrição severa“, relatou a tia numa entrevista citada pelo New York Times. A mãe de Yahia consome apenas uma refeição por dia e não consegue amamentar o filho.

A família não tem dinheiro para comprar a pouca fórmula que entra no enclave palestiniano. A família de Mohammed Zakariya Ayyoub al-Matouq, de um ano e meio, enfrenta o mesmo problema. A viver numa tenda na Cidade de Gaza, o menino passou de nove para seis quilos e também ele está profundamente desnutrido.

Segundo o seu médico, Mohammed nasceu —  já depois de 7 de outubro de 2023 e do escalar da crise humanitária em Gaza — com problemas clínicos que lhe afetam o cérebro e o desenvolvimento muscular. O seu estado de saúde acabou por se deteriorar rapidamente nos últimos meses devido à falta de acesso a comida e cuidados médicos e entrou, assim, em estado de subnutrição severa.

Já Yahia é uma de 113 pessoas que, segundo números do Ministério da Saúde de Gaza, morreram à fome na Faixa de Gaza nas últimas semanas da ofensiva militar israelita na região. O bloqueio imposto por Israel continua a limitar gravemente a entrada de ajuda humanitária em Gaza a “conta gotas”, como definiram os governos de 31 países ocidentais esta semana. A pouca ajuda que entra é distribuída exclusivamente pela Fundação Humanitária de Gaza, uma organização norte-americana que coordena as operações com o exército israelita e tem estado debaixo de críticas.

“A crise da fome em Gaza alcançou novos níveis de desespero. As pessoas estão a morrer por falta de assistência humanitária“, alertou o Programa Alimentar Mundial (WFP) num comunicado publicado esta semana. Segundo os dados da agência da ONU, 90 mil mulheres e crianças precisam de tratamento urgente para a desnutrição e uma em cada três pessoas no enclave palestiniano passa vários dias sem comer.

Ross Smith, diretor da preparação e resposta a emergências da agência, afirmou que um quarto da população em Gaza sofre de “condições parecidas com a fome”. No entanto, o maior órgão internacional de resposta a crises alimentares — composto por equipas da ONU, agências e governos internacionais — não declarou esta situação no enclave palestiniano de forma oficial, algo que fez apenas algumas vezes desde que foi fundado em 2004.

“Ninguém se lembra de ver um colaborador a morrer de fome”: agências noticiosas internacionais denunciam crise inédita

A fome imposta por Israel na Faixa de Gaza não afeta apenas o povo palestiniano. As Nações Unidas já tinham alertado para o facto de “médicos, enfermeiros, jornalistas e equipas humanitárias” também estarem a “desmaiar de fome e exaustão” o que os impossibilita de desempenhar as suas funções.

Funcionários da UNWRA — agência da ONU impedida de operar em Gaza por Israel — declararam que a região entrou na “fase da morte“. “Tudo à volta das pessoas é morte, desde as bombas aos ataques, crianças a definhar à frente dos nossos olhos por desnutrição, desidratação e a morrer”, relatou um funcionário.

Esta semana, várias agências noticiosas internacionais denunciaram o que dizem ser uma situação inédita. “Desde que a AFP foi fundada em agosto de 1944, perdemos jornalistas em conflitos, tivemos feridos e prisioneiros nas nossas fileiras, mas ninguém se lembra de ver um colaborador a morrer de fome. Recusamo-nos a vê-los morrer”, pode ler-se no comunicado da agência francesa.

Esta quinta-feira, a Associated Press, a BBC News e a Reuters juntaram-se à AFP para publicar um comunicado conjunto que deixa transparecer o mesmo sentimento. “[Os nossos jornalistas em Gaza] estão a enfrentar as mesmas circunstâncias terríveis daqueles que estão a cobrir”, escreveram. “Os jornalistas enfrentam muitas privações em zonas de guerra. Estamos profundamente alarmados que a ameaça da fome seja agora uma delas“, continuam, alertando que não só os profissionais, como as suas famílias estão a ser vítimas da fome.

“As bombas, é uma questão de sorte. Morrer à fome? É para todos”: o relato que motivou o comunicado da AFP

Alguns tomates, um pepino e um pedaço de pão custam o equivalente a 85 euros e compõe todas as refeições de um dia inteiro para uma família de oito pessoas: crianças, pais e avós. Esta é a realidade de um dos fotojornalistas da AFP na Faixa de Gaza, relatada ao Observador por Thomas Coex, fotógrafo chefe da AFP em Espanha e Portugal, mas que durante oito anos ocupou esse posto em Israel e nos Territórios Palestinianos.

Ao todo, a equipa da agência francesa, desde meados de 2024, conta com 10 pessoas, palestinianos: três fotojornalistas, seis videógrafos e uma redatora. Tirando a redatora, que vive sozinha, os restantes nove passaram os últimos anos a deslocar-se com a família inteira por todo o enclave, a fugir às bombas israelitas, ao mesmo tempo que cobrem os efeitos da ofensiva militar no enclave. Thomas fala com os fotojornalistas, antigos colegas, no mínimo duas vezes por semana.

Nas últimas “três ou quatro semanas”, as mensagens e as chamadas tornaram-se mais frequentes. “Disseram-me: ‘Vamos morrer. Não conseguimos andar, não conseguimos sair de casa ou da tenda para ir fazer o nosso trabalho‘”, relata, acrescentando que percebeu a dureza da situação porque eram todos “jovens, entre os 30 e 40 anos, com energia”. A última vez que falou com um dos colegas foi esta quinta-feira.

Neste período de tempo, a fome ocupou o medo das bombas e dos ataques aéreos como o maior medo destes palestinianos. “As bombas, é uma questão de sorte. Morrer à fome? É para todos”, partilha Thomas, que explica que mesmo que “envie 10 mil euros” aos fotojornalistas, não há mercados onde utilizar esse dinheiro para comprar comida. A exceção são algumas pessoas que vão cozendo pão ou plantando os seus próprios vegetais, mas numa dimensão insuficiente para dois milhões de pessoas. Os fotojornalistas relataram ainda que a deslocação aos pontos da GHF é vista como “perigosa”.

Foi esta realidade que Thomas Coex e outros funcionários da AFP tentaram transmitir, através da publicação do comunicado na passada segunda-feira, numa mudança de estratégia para “avisar o mundo, os políticos sobre o que está a acontecer”. “Fazemos várias reportagens há vários meses e pergunto-me: Porque ninguém está a reagir a isto? E quando falamos sobre jornalistas e dizemos ‘vão morrer’, subitamente, o mundo compreende. Se uma imagem, uma declaração puder ajudar…”, explica.

Artigo atualizado no dia 31 de julho com a informação entretanto divulgada pelo The New York Times sobre os dados clínicos de Mohammed Zakariya Ayyoub al-Matouq