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Multidões, caos na distribuição e tiros. Como funciona o polémico modelo de ajuda humanitária em Gaza que já levou a dezenas de mortes

Novo sistema de Israel quer impedir o "envolvimento" do Hamas, mas não tem conseguido evitar o caos nos centros de distribuição. Especialistas criticam: "Não se dá ajuda com armas apontadas."

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“Infelizmente, quando chegou a minha vez, começou o caos.” Khadir Abu Dayyah foi um dos habitantes de Gaza que se dirigiram a um dos centros de distribuição da Gaza Humanitarian Foundation (GHF) no seu primeiro dia de funcionamento, na esperança de obter ajuda humanitária depois de mais de dois meses sem entrar um único camião no enclave.

Ao Wall Street Journal, o palestiniano contou que, quando entrou no armazém, algumas pessoas começaram a pilhar o local e Khadir conseguiu apenas pegar numa caixa — tinha açúcar, farinha, duas latas de favas e uma de molho de tomate. “O ser humano torna-se num animal quando não come”, lamentou o homem de 43 anos, que tem oito filhos a seu cargo.

O cenário de caos que ocorreu no primeiro dia de distribuição, a 27 de maio, repetiu-se ao longo da semana. Na sexta-feira, dia 30, os militares da IDF intervieram com gás lacrimogéneo e granadas de fumo num dos pontos de distribuição para dispersar a multidão, segundo testemunhas no local. A partir de domingo, a situação agravou-se: nos dias que se seguiram, os motins resultaram na morte de vários palestinianos.

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▲ Crianças reúnem-se junto de um ponto de distribuição da GHF em Nuseirat

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O ministério da Saúde controlado pelo Hamas afirma que só no domingo foram mortas 31 pessoas, que na segunda-feira morreram outras três e que na terça-feira foram mortas mais 27 pessoas. As IDF declaram que os números estão inflacionados e negam ter responsabilidade nessas mortes, afirmando inicialmente que os soldados não dispararam contra civis e, mais tarde, confirmando apenas que dispararam na terça-feira contra “indivíduos suspeitos que avançaram contra as forças [de defesa de Israel]”.

Os Médicos Sem Fronteiras e a Cruz Vermelha asseguram que trataram várias vítimas que dizem ter sido alvo de disparos quando tentavam ir buscar os alimentos. O hospital da Cruz Vermelha em Rafah confirma que, num só dia, recebeu 179 pessoas (entre elas mulheres e crianças) com ferimentos de balas e estilhaços, 21 das quais foram “declaradas mortas no local”.

[A polícia é chamada a uma casa após uma queixa por ruído. Quando chegam, os agentes encontram uma festa de aniversário de arromba. Mas o aniversariante, José Valbom, desapareceu. “O Zé faz 25” é o primeiro podcast de ficção do Observador, co-produzido pela Coyote Vadio e com as vozes de Tiago Teotónio Pereira, Sara Matos, Madalena Almeida, Cristovão Campos, Vicente Wallenstein, Beatriz Godinho, José Raposo e Carla Maciel. Pode ouvir o 3.º episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E o primeiro episódio aqui e o segundo aqui.]

A GHF, empresa privada que é responsável neste momento pela distribuição de toda a ajuda que chega à Faixa de Gaza, acusou inicialmente o Hamas de estar a espalhar relatos falsos, garantindo que não houve “ferimentos ou mortes” durante a sua primeira semana de funcionamento. Esta quarta-feira, contudo, anunciou a suspensão da sua operação, a fim de coordenar melhor com as IDF a segurança no local, “guiando o trânsito pedonal de forma a minimizar a confusão ou os riscos de escalada” e melhorando o treino de segurança dos seus funcionários — a maioria das duas empresas militares privadas, dos Estados Unidos da América (EUA), responsáveis pela GHF.

Não é fácil saber o que se passou ao certo nos quatro pontos de distribuição estabelecidos no sul de Gaza já que, neste momento, nenhum órgão de comunicação internacional tem autorização para entrar no enclave. A informação limita-se ao que é transmitido pelos poucos correspondentes palestinianos que vivem em Gaza, às declarações oficiais das IDF e do Hamas, aos relatos das ONG que ainda estão no terreno e às imagens que chegam à internet, como as fotografias aéreas que mostram centenas de pessoas entaladas entre grades de metal para acederem a um dos centros de distribuição.

O risco de distribuir comida com empresas militares e perto de postos de controlo. “É a militarização da ajuda”

Os especialistas em ajuda humanitária ouvidos pelo Observador não têm dúvidas em afirmar que o caos e o número elevado de mortes se explicam pela estrutura de ajuda humanitária montada pela GHF, em desalinho com as práticas de agências da ONU e outras ONG que operam em Gaza há décadas. Um dos pontos mais criticados é o facto de a organização ser gerida por empresas privadas militares — com funcionários armados — e a instalação destes centros estar perto de postos militares controlados pelas IDF.

“As perspetivas sobre o que aconteceu ali diferem, mas não há dúvida que está ligado àquilo que a ONU e as organizações humanitárias têm criticado na GHF: a militarização da ajuda”, afirma ao Observador Sarah Schiffling, professora de gestão de cadeias de abastecimento e responsabilidade social na Escola de Economia Hanken, uma Universidade finlandesa. “Colocar pessoas desesperadas, com fome, a tentar alimentar as suas famílias, a irem em direção a uma força militar hostil é uma receita para o desastre”, acrescenta. “Ver aquela quantidade de pessoas faz aqueles que têm armas na mão ficarem nervosos sobre como responder.”

“Não se dá ajuda com armas apontadas, que neste caso incluem as das empresas de segurança americanas e as da IDF ali perto (...). A violência não é um erro, é uma característica deste sistema.”
Chris Newton, especialista em respostas à fome em situações de conflito do Crisis Group

Uma fonte de segurança israelita explicou ao Haaretz que a falha de segurança se deveu à falta de preparação das tropas no local, que não esperavam tanta gente “e planeavam gerir a população com recurso às armas de fogo”. A mesma fonte explicou que a estratégia foi a de responder ao caos na zona como se fosse “uma situação de rotina que envolve suspeitos a entrarem numa zona de combate”.

Chris Newton, especialista em respostas à fome em situações de conflito do Crisis Group, partilha da mesma opinião de Schiffling: ao colocar os centros de distribuição perto de postos de controlo militar das IDF, era previsível que o resultado final fosse de “caos e violência”. “Não se dá ajuda com armas apontadas, que neste caso incluem as das empresas de segurança americanas e as da IDF ali perto”, declara ao Observador. “A violência não é um erro, é uma característica deste sistema”, que “não consegue lidar com as multidões desesperadas que criou intencionalmente”, acrescenta.

Esta é apenas uma das críticas feitas pelos especialistas em ajuda humanitária a toda a ação da GHF, uma empresa recém-criada opaca, cujos donos e financiadores não são totalmente conhecidos. Envolta em polémica desde início, a organização não tem conseguido colmatar o problema da fome em Gaza, que atinge níveis nunca vistos depois de Israel ter bloqueado a entrada dos camiões de ajuda humanitária no início de março.

O governo de Benjamin Netanyahu afirma que este sistema permitirá contornar o desvio de bens pelo Hamas e a sua instrumentalização. ONG, vários governos europeus e a ONU contestam este argumento e apelam a Israel para que repense o modelo. Não é certo quando é que a GHF vai voltar a operar e quantos dias passarão até que volte a ser distribuída comida em Gaza.

Um sistema que promove a concentração de multidões e onde a comida não chega

Os problemas com a GHF começaram a ser apontados de imediato por organizações de ajuda humanitária, que recusaram colaborar com a empresa. A primeira discordância começava imediatamente pela forma como a ajuda era distribuída: em vez dos 400 pontos de distribuição que existiam até agora, a GHF decidiu concentrar tudo em apenas quatro, todos no sul do enclave.

Thea Hilhorst, investigadora em ajuda humanitária da Universidade Erasmus de Roterdão, explica ao Observador o modelo tradicional. As ONG têm listas com os nomes das famílias inscritas para receber ajuda humanitária e estas recebem vouchers. São depois chamadas a um dos centros para recolher a ajuda desse dia a uma hora específica, é verificada a sua identidade e é-lhes permitida a entrada. “A que se junta outra coisa importante: a entrada e a saída são em locais diferentes. As pessoas entram, recolhem a ajuda e saem por outro lado, para não terem de se cruzar com as que estão a chegar.”

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▲ Imagem perto do centro de distribuição de Rafah, um dos apenas quatro que estão a funcionar, todos no sul da Faixa de Gaza

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No caso da GHF, os relatos que chegam dão conta de uma total anarquia no sistema. Ninguém está previamente registado, as pessoas amontoam-se à porta horas antes de os centros abrirem e saem dos armazéns com os alimentos pelo mesmo ponto por onde entraram, cruzando-se com as centenas que estão do lado de fora ainda à espera. As situações de roubo e espezinhamento tornaram-se comuns.

A isso soma-se a inexperiência da própria organização, que tem tido dificuldade em encontrar redes locais — algo essencial no terreno, explica Schiffling, já que “é muito raro ver apenas uma organização a responder a tudo sozinha”. Não basta comprar os alimentos — é preciso embalar, transportar, distribuir.

No início desta semana, a GHF garantia ter distribuído uma média de 840 mil refeições por dia (quase seis milhões no total). Contudo, como nota a Sky News, isso significa que distribuiu apenas o suficiente para alimentar 13% da população de Gaza, assumindo que cada pessoa faz três refeições por dia. Para além disso, a empresa garante que cada refeição tem 1.750 calorias, um valor inferior ao padrão de 2.100 calorias por refeição recomendado em situações de emergência pela Organização Mundial de Saúde, a Unicef e o Programa Alimentar Mundial. As caixas distribuídas incluem apenas comida — neste momento, não há distribuição de outro tipo de ajuda humanitária como combustível e produtos de higiene.

Outra das principais críticas apontadas é a concentração dos pontos de distribuição no sul de Gaza. Isso significa que muitos palestinianos têm de percorrer grandes distâncias para ir buscar a comida. “Carregar uma caixa pesada ou um saco de arroz não é possível para muitas pessoas, que são precisamente aquelas que mais precisam: os mais velhos, os que têm problemas de mobilidade, etc.”, aponta Schiffling. Chris Newton, do Crisis Group, reforça: “Qualquer pessoa saudável já teria dificuldades em levar comida suficiente para uma semana para uma família de cinco ou seis. Quanto mais os que estão esfomeados, feridos, cronicamente doentes ou vulneráveis no geral…”

A própria GHF reconheceu este problema, garantindo que está a analisar “mecanismos de distribuição” alternativos para chegar a “enfermos, imobilizados e incapazes de viajar até a um dos centros de distribuição”. Mas essas declarações foram feitas antes de o sistema colapsar e a operação ser interrompida.

A opaca empresa americana que tem ligações a Israel

Para além dos problemas que se verificam no terreno, a GHF já nasceu com dificuldades pelo facto de ser gerida por empresas privadas, ao contrário do que é habitual na distribuição de ajuda humanitária, geralmente assegurada por organizações do setor social com conhecidas credenciais na área. E tem sido notória a falta de transparência sobre a sua estrutura e os seus financiadores.

Ao longo das primeiras semanas de funcionamento, a organização não conta com nenhum website oficial e apenas são conhecidos alguns documentos com os seus princípios e estrutura que chegaram de forma informal aos media. A informação que consta num desses documentos não é totalmente verdadeira. Nate Mook, antigo CEO da conhecida ONG World Central Kitchen, é apontado como diretor do board. Contudo, o próprio desmentiu à CNN, ao Financial Times e ao El País estar envolvido no projeto.

O documento também aponta como possível conselheiro David Beasley, antigo diretor do Programa Alimentar Mundial premiado com o Nobel da Paz em 2020, como a nomeação a ser “finalizada”. Segundo o Washington Post, Beasley terá sido contactado, mas não tomou de imediato uma decisão; entretanto, confirmou à CNN que recusou fazer parte do projeto.

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▲ Nate Mook, antigo CEO da conhecida ONG World Central Kitchen, foi apontado como diretor do board da GHF, mas desmentiu publicamente estar envolvido

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As empresas responsáveis pela GHF são duas empresas militares norte-americanas, a Safe Reach Solutions (SRS) e a UG Solutions. Foram ambas criadas recentemente: a SRS, fundada em janeiro de 2025, e é gerida por Phil Reilly, antigo operativo da CIA, que já tinha sido contratada para garantir a segurança no corredor de Netzarim, em Gaza, durante o cessar-fogo, num processo definido por EUA, Egito e Qatar, que contou com o aval de Israel e do Hamas. A UG Solutions é liderada por Jameson Govani, veterano das Forças Especiais norte-americanas, mas é praticamente uma desconhecida no meio, segundo várias fontes da indústria militar privada garantiram à Reuters.

Uma investigação do jornal israelita Haaretz divulgou que ambas as empresas foram registadas nos EUA pelo mesmo advogado, James Cundiff, e que têm o mesmo porta-voz. O Haaretz, o New York Times e o Washington Post publicaram vários artigos onde se apresentam muitos indícios de que as empresas foram idealizadas pelo governo israelita ainda em 2023, que posteriormente contactou Reilly.

As fontes ouvidas pelo Times asseguram que, ao longo de 2024, os responsáveis israelitas conceberam a ideia de estas empresas serem utilizadas para assegurar a distribuição de ajuda alimentar, contornando assim a ONU — que Israel considera não ser independente no conflito, tendo acusado funcionários da Agência para os Refugiados de terem participado no massacre de 7 de outubro (nove foram suspensos pela agência por essas suspeitas) — e o Hamas, que considera ser responsável pelo desvio de ajuda humanitária. O objetivo seria também o de garantir que a distribuição seria feita em zonas controladas militarmente pelas IDF.

Ao Haaretz, uma fonte garantiu que todo o processo foi gerido “pelo gabinete do primeiro-ministro” israelita e que o Shin Bet (serviços secretos internos) foram frequentemente alienados de todo o processo, não fazendo sequer as habituais verificações de segurança à SRS. “É completamente irregular”, declarou ao jornal um oficial do Comando Sul das IDF. “Não é possível uma empresa operar em Gaza sem ter tido o OK total do Shin Bet.”

O Post dá conta de que o plano de criação daquilo que viria a ser a GHF contou de imediato com a resistência de alguns dos militares de maior patente das IDF: “Alguns oficiais questionaram se as longas filas nos centros da GHF não levariam a esmagamentos, como é que as forças de segurança privada atuariam a par com as IDF e se o plano tinha o objetivo político mais lato de ocupar Gaza.”

“Há uma grande questão de transparência. De onde é que isto vem? Quem é que detém o controlo? Há muita coisa que não sabemos.”
Thea Hilhorst, investigadora em ajuda humanitária da Universidade Erasmus de Roterdão

A tudo isto soma-se o facto de não serem conhecidos os financiadores da GHF. À Reuters, uma fonte garantiu que o grupo recebeu mais de 100 milhões de dólares, mas não divulgou a sua origem. Vários media, como o Axios, deram entretanto conta de que os Emirados Árabes Unidos foram abordados para ajudar a financiar o programa, mas o país recusou devido ao modelo escolhido. Segundo o Financial Times, o governo norte-americano tem feito pressão sobre várias organizações para que colaborem com a GHF, ameaçando inclusivamente cortar o seu financiamento a organismos como o Programa Alimentar Mundial se este não participasse.

“Há uma grande questão de transparência. De onde é que isto vem? Quem é que detém o controlo? Há muita coisa que não sabemos”, nota Thea Hilhorst, que considera que os factos conhecidos apontam para um envolvimento de Israel, o que violaria os princípios de neutralidade, imparcialidade e independência previstos na Convenção de Genebra para a ajuda humanitária. “Ser independente numa guerra significa ser independente de quem te financia. Não é claro quem financia esta agência.” Toda a estrutura, diz, “é uma cortina de fumo”.

As suspeitas de que pode ser o próprio Estado israelita a financiar a GHF foram trazidas a público pelo líder da oposição de Israel, Yair Lapid, que questionou o governo de Netanyahu sobre se está a recorrer a “empresas-fantasma” para aplicar este modelo de ajuda humanitária. “Se o dinheiro é israelita, se vem dos cofres públicos, o Estado de Israel não deve e não pode escondê-lo”, afirmou. O antigo ministro da Defesa Avigdor Lieberman, que saiu do anterior governo de Netanyahu em rotura com o primeiro-ministro, foi ainda mais longe: “O dinheiro para a ajuda humanitária está a vir da Mossad e do Ministério da Defesa”, escreveu no X. “Mesmo que as empresas estejam registadas nos EUA, a entidade que iniciou e promoveu esta operação é Israel ou alguém a agir no seu lugar.”

A concentração no sul, que pode estar ligada a um crime de guerra

A confirmarem-se estas origens da GHF estaríamos perante a violação do previsto na Convenção de Genebra para a ajuda humanitária. Mas há quem considere que a situação é ainda mais grave e que a GHF pode estar a servir para um propósito militar israelita que, a confirmar-se, poderia constituir um crime de guerra: a deslocação forçada de palestinianos. Em causa está a concentração dos centros de distribuição apenas no sul do enclave, o que obriga à deslocação dos civis que estão no norte de Gaza — possivelmente de forma permanente se só houver comida no sul.

As declarações dos líderes políticos israelitas têm apontado para um desejo de ocupar todo o norte do enclave, onde as IDF pensam estar escondida a maioria dos combatentes do Hamas. Netanyahu afirmou que o objetivo futuro seria a criação de uma “zona estéril” no sul de Gaza, onde se poderia concentrar a população civil. O ministro das Finanças e líder de um dos partidos de extrema-direita que sustentam o governo, Bezalel Smotrich, foi ainda mais longe ao declarar que Gaza ser deve “totalmente destruída” e levar assim os habitantes a saírem do enclave: “Eles vão estar completamente em desespero e vão perceber que não há esperança e nada por que esperar em Gaza. Vão tentar mudar de local para começar uma nova vida noutros países.”

Uma análise desta semana do Financial Times às ordens de evacuação emitidas pelo Exército israelita em Gaza mostra um padrão em que os civis palestinianos têm sido reduzidos a uma fatia cada vez mais pequena do território. Mais de “quatro-quintos de Gaza”, de acordo com o jornal, estão neste momento sob ordens de evacuação ou efetivamente ocupadas por militares.

Se a atuação da GHF for concertada com o objetivo de forçar os palestinianos a saírem de Gaza, podemos estar perante um crime de guerra. “Parece que querem ter uma Faixa de Gaza sem pessoas. Isto é deslocação forçada, é uma forma de limpeza étnica”, acusa taxativamente Thea Hilhorst. Já Sarah Schiffling não vai tão longe, mas não tem dúvidas em afirmar que a deslocação para sul “ajuda os interesses militares de Israel” e que, a ser concertada, “é totalmente contra os princípios humanitários”.

O Direito Humanitário Internacional prevê situações em que os civis podem ser forçados a serem deslocados por razões de segurança e razões militares “imperativas”, mas determina que os civis devem poder regressar assim que possível. Caso contrário, segundo o texto da Convenção de Genebra, a deslocação forçada constitui um “crime de guerra”.

Uma análise desta semana do Financial Times às ordens de evacuação emitidas pelo Exército israelita em Gaza mostra um padrão em que os civis palestinianos têm sido reduzidos a uma fatia cada vez mais pequena do território. Mais de “quatro-quintos de Gaza”, de acordo com o jornal, estão neste momento sob ordens de evacuação ou efetivamente ocupadas por militares.

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▲ Benjamin Netanyahu com Bezalel Smotrich, aliado de extrema-direita no governo que tem defendido a ocupação total de Gaza

POOL/AFP via Getty Images

Assaf Orion, antigo diretor de estratégia das IDF, chamou a atenção num artigo publicado na Foreign Affairs para as declarações de Smotrich, que considera demonstrarem que a atual operação militar em Gaza tem apenas como objetivo aplicar o plano ideológico dos partidos de extrema-direita que compõem a coligação, que não escondem o desejo de anexar Gaza e deportar os palestinianos que lá vivem. “À medida que a guerra entra noutra fase, a influência relativa da política interna — a sobrevivência da coligação de governo e do próprio Netanyahu — nas decisões parece particularmente elevada”, escreveu o antigo militar. “A situação levanta questões sobre se o governo está a tentar fazer o que é bom para Israel e para o seu povo ou simplesmente a priorizar a sobrevivência do governo e do seu líder.”

Israel procura contornar o Hamas, mas no sistema atual não há verificação de identidades

O governo israelita tem justificado a decisão de restringir a distribuição de ajuda humanitária em Gaza à GHF com um argumento: a necessidade de garantir que o Hamas não desvia essa ajuda para se abastecer e, ao mesmo tempo, cavar o fosso entre o grupo terrorista e a população. O Hamas tem apelado aos palestinianos de Gaza para que não recorram à GHF, que considera ser uma “armadilha” lançada por Israel. Apesar disso, centenas de pessoas dirigiram-se aos centros de distribuição ao longo dos últimos dias.

Israel baseia esta decisão naquilo que considera serem provas claras de que o Hamas desvia ativamente a ajuda humanitária e se financia vendendo esses mesmos produtos. Sustenta essa acusação em informações das secretas, mas não só. A embaixadora do país no Reino Unido, Tzipi Hotovely, escreveu recentemente um artigo no Telegraph onde aponta para a “miríade de vídeos nas redes sociais de terroristas armados do Hamas a direcionarem camiões de ajuda e a dispararem sobre palestinianos comuns” e para “o testemunho dado no Conselho de Segurança da ONU pelo antigo refém Eli Sharabi, que diz ter visto terroristas a roubarem ajuda da ONU e a ‘comerem como reis’.”

A realidade, porém, é mais complexa. Há alguns relatos confirmados de camiões com ajuda humanitária desviados pelo Hamas, como o que aconteceu em maio de 2024. Isso foi confirmado à altura pelo Departamento de Estado norte-americano, que declarou que a ONU estava “no processo de recuperar toda a ajuda”, mas que era “inaceitável” o desvio dos bens. Já em fevereiro deste ano, o Canal 12 israelita divulgou comunicações de membros do Hamas intercetadas por Israel onde se ouvem alguns militantes do grupo a acusarem as chefias de “levarem tudo, roubarem tudo”.

Mas várias organizações e fontes de governos ocidentais dizem não haver provas de que esta é uma prática sistemática. “Não temos qualquer prova de que a ajuda coordenada através dos canais humanitárias está a ser desviada”, declarou há poucos dias Jonathan Whittall, diretor do Gabinete para a Coordenação de Assuntos Humanitários da ONU (OCHA). Fontes de vários governos ocidentais disseram ao Washington Post que “Israel nunca apresentou provas em público ou em privado” que sustentem a acusação de que “o Hamas roubou sistematicamente ajuda que entrou em Gaza através do sistema das Nações Unidas”.

A ONU reconhece que tem havido cada vez mais ataques a camiões com ajuda humanitária e roubo de alimentos, mas que na maioria dos casos esses ataques são perpetrados por grupos criminosos independentes. “Às vezes é o Hamas, às vezes são só pessoas desesperadas. Às vezes são gangues locais que não estão de todo ligados ao Hamas”, reconheceu um responsável israelita ao Jerusalem Post. O mesmo terá sido concluído num levantamento feito pelas IDF desde que o bloqueio à ajuda humanitária foi levantada: na primeira semana, terão sido registados 110 incidentes de pilhagem, segundo o relatório divulgado ao Canal 12. Nenhum foi levado a cabo pelo Hamas, mas sim por “civis de Gaza, gangues armados e clãs organizados”.

A mesma avaliação é feita pela ONU e pelas ONG com presença em Gaza. Numa entrevista à CBS, Cindy McCain — a viúva de John McCain e atual responsável pelo Programa Alimentar Mundial — confirmou que não há “de todo” provas de que “neste momento” os roubos estejam a ser levados a cabo de forma concertada pelo Hamas.

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▲ Os camiões com ajuda humanitária têm sido alvo de roubos ao longo dos últimos meses, a maioria por parte de gangues

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Os especialistas ouvidos pelo Observador concordam. “Os preços estão muito elevados em Gaza, portanto é claro que há atores que acham que este é um bom momento para fazer lucro vendendo bens roubados”, nota Sarah Schiffling. Thea Hilhorst fala em mais uma “cortina de fumo”. “É claro que há alguma ajuda que é desviada do sistema e é óbvio alguma vai para o Hamas. Mas há sempre fugas no sistema”, começa por apontar. “Mas não há provas de que esteja a ocorrer em larga escala e Israel não apresenta provas para sustentar isso, não há pesquisa, não há números, não há estatísticas.”

A isso soma-se o facto de que, no atual sistema gerido pela GHF, o caos é tal que a falta de controlo sobre quem recebe a ajuda humanitária pode até facilitar o acesso do Hamas aos bens de ajuda humanitária. Se inicialmente a organização previa aplicar um controlo biométrico para identificar quem se deslocasse aos seus centros, as informações que surgem do local é que ao longo das últimas semanas não foi feito qualquer controlo. “Não há comida suficiente em Gaza”, justificou o porta-voz da GHF à CNN. “O nosso foco é alimentar pessoas com fome, não é verificar cartões de identificação.”

As críticas internacionais e o dilema de colaborar ou não com a GHF

A catástrofe humanitária em Gaza neste momento é uma das mais graves em todo o mundo, não apenas pelo número de mortos, mutilados e deslocados motivados pelos ataques militares, mas também pela escassez alimentar. “Jens Laerke, porta-voz do OCHA, declarou que Gaza é “o único território” em todo o mundo onde “100% da população está em risco de fome”. “Gaza é o sítio onde há mais fome em todo o mundo”, declarou.

O sistema de Classificação Integrada de Fases de Segurança Alimentar, feito por um grupo de especialistas e que costuma servir de base à ONU e a governos, coloca neste momento a maioria da população de Gaza no nível mais crítico: “Catástrofe/Fome”. De acordo com o The Guardian, houve uma “enorme deterioração” desde a última avaliação, em outubro do ano passado.

Thea Hilhorst reforça a afirmação e ajuda a comparar a situação com a de outros lugares do mundo. “Há mais sítios onde há fome, como o Sudão e o Iémen, por exemplo. Mas este é o único sítio onde toda a população é afetada”, explica. “Não são só as pessoas vulneráveis, como as crianças, os velhos, os doentes. É toda a população adulta saudável também. É toda a população ao mesmo tempo.”

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▲ A ONU considera que Gaza é o sítio "com mais fome" em todo o mundo, com 100% da população em risco

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Esta avaliação também tem sido feita pelas próprias autoridades israelitas. Segundo o New York Times, na semana que antecedeu a entrada em funcionamento da GHF, responsáveis do COGAT (o organismo estatal israelita que monitoriza a situação dos civis em Gaza) têm transmitido aos seus superiores que os bens existentes no território se esgotarão em poucas semanas. O mesmo artigo cita três responsáveis de Defesa do país que garantiam que a liderança militar estava “consciente da gravidade da situação e a explorar formas de recomeçar as entregas de ajuda contornando o Hamas”. A solução parece ter sido o início da operação da GHF.

O primeiro-ministro israelita reconheceu publicamente que a fome em Gaza tem de ser combatida “por razões práticas e diplomáticas”. Em concreto, explicava que “eles simplesmente não nos vão apoiar e não seremos capazes de levar a missão à vitória”. “Eles” são os aliados internacionais, que à altura criticaram o bloqueio à entrada de ajuda humanitária e que, atualmente, continuam a mostrar o seu descontentamento com a solução encontrada.

“Continuamos a ver estas imagens horríveis, horríveis de Gaza”, declarou um diplomata europeu ao Washington Post. “Estamos a chegar ao limite.” Duas fontes da Casa Branca garantiram ao site Axios que o Presidente Donald Trump ficou afetado com as imagens que chegam de Gaza e que isso levou a que pressionasse Benjamin Netanyahu. “Sem dúvida que há aqui um elemento de noção de como isto transparece para os aliados e de tentar encontrar uma forma melhor”, declara Sarah Schiffling. “Só que a forma que encontraram não é a correta.”

“Francamente, já não percebo qual é o objetivo do Exército israelita na Faixa de Gaza. Magoar a população civil a este nível, como tem sido crescente nos últimos dias, já não pode ser justificado como uma luta contra o terrorismo do Hamas.”
Friedrich Merz, chanceler da Alemanha

Publicamente, as críticas têm subido de tom por parte dos governos europeus. A responsável da diplomacia da UE, Kaja Kallas, declarou que “a ajuda humanitária não pode ser instrumentalizada” e que Bruxelas não apoia “qualquer tipo de privatização da distribuição”. A 19 de maio, ministros dos Negócios Estrangeiros de 22 países da UE (entre os quais Portugal) e da Austrália e Nova Zelândia assinaram uma carta onde condenam “o novo modelo” da GHF. “A ajuda humanitária nunca deve ser politizada e o território palestiniano não pode ser reduzido ou sujeito a qualquer mudança demográfica”, apontavam.

Os líderes francês e alemão foram ainda mais longe. Emmanuel Macron declarou ser necessário a Europa “endurecer” a sua posição comum, equacionando um possível reconhecimento do Estado da Palestina. “Se abandonarmos Gaza, matamos a nossa própria credibilidade”, decretou. Já o chanceler Friedrich Merz abandonou o “maior controlo” que diz ser exigido à Alemanha nas críticas a Israel e declarou que a situação atual o obriga a falar: “Francamente, já não percebo qual é o objetivo do Exército israelita na Faixa de Gaza. Magoar a população civil a este nível, como tem sido crescente nos últimos dias, já não pode ser justificado como uma luta contra o terrorismo do Hamas.”

Do outro lado do Atlântico, porém, os EUA têm-se publicamente mantido firmes no apoio político a Israel e a este modelo de distribuição de ajuda humanitária, que o próprio Presidente Trump tem patrocinado. O secretário de Estado Marco Rubio classificou a GHF como “um esforço fora da caixa” e uma estratégia “ousada” que pode ter resultados.

Embora sublinhando que o governo norte-americano não está envolvido no sistema, a porta-voz do Departamento de Estado apontou o dedo à ONU e às restantes ONG que têm feito críticas ao modelo: “É o cúmulo da hipocrisia”, afirmou Tammy Bruce, que desvalorizou as situações de caos registadas nos primeiros dias, em declarações antes desta quarta-feira. “A história verdadeira é que a comida está a chegar a Gaza em grande quantidade. Perante oito mil caixas de comida acham que isto é como ir ao centro comercial?” O embaixador norte-americano em Israel, Mike Huckabee, alinhou pelo mesmo tom: “Sinceramente, quando se está esfomeado, quer-se saber de onde vem o pão? Só os críticos de longe é que discutem sobre quem são os financiadores”, declarou ao Haaretz.

“Claro que entendo o argumento de que alimentar pelo menos algumas pessoas é melhor do que não alimentar nenhuma. Mas isto é também sobre a mensagem que se envia (...). Isto torna-se uma questão sobre se é possível ‘comprar’ a ajuda humanitária e colocá-la ao serviços de um objetivo militar.”
Sarah Schiffling, professora de gestão de cadeias de abastecimento e responsabilidade social na Escola de Economia Hanken

Perante o dilema de colaborar com um sistema que consideram perverter o Direito Humanitário ou não poder atuar de todo em Gaza, os funcionários da ONU e outras ONG sentem-se divididos. “Israel e os EUA ganham sempre. Ou a ONU cede e entra no jogo, comprometendo os seus princípios humanitários e de neutralidade, ou a ONU sai e Israel fica a fazer isto”, comentou com o Financial Times um responsável das Nações Unidas. Outro foi sensível aos argumentos de Bruce e Huckabee: “Preferimos manter-nos religiosamente puros”, criticou. “Há uma ordem vinda de cima, preferem morrer como heróis a mostrar que cedemos sob pressão.”

A professora Sarah Schiffling reconhece que a situação é “muito difícil” para as organizações de ajuda humanitária. “Claro que entendo o argumento de que alimentar pelo menos algumas pessoas é melhor do que não alimentar nenhuma. Mas isto é também sobre a mensagem que se envia”, afirma. “Isto torna-se uma questão sobre se é possível ‘comprar’ a ajuda humanitária e colocá-la ao serviços de um objetivo militar.”

Ainda não é certo qual o futuro da GHF e como se irá operar a distribuição de ajuda em Gaza ao longo dos próximos dias, depois de a organização ter suspendido a entrega esta quarta-feira. Mas, à medida que as imagens de confusão e violência nos centros de distribuição foram sendo divulgadas, o grupo foi perdendo apoios — na passada sexta-feira, a principal consultora que trabalhava com a GHF, o Boston Consulting Group, anunciou que se afastou do projeto (onde estaria a receber até um milhão de dólares por mês, segundo o Washington Post).

A 24 de maio, dias antes de a operação da GHF começar a funcionar, o seu diretor executivo reconhecia publicamente o sistema montado era “imperfeito”, mas que “qualquer comida que entre em Gaza hoje é mais comida do que tinha entrado ontem”. Um dia depois, Jake Wood — antigo fuzileiro norte-americano que nos últimos anos participou em vários projetos de ajuda humanitária — anunciava a sua demissão.

No comunicado divulgado pela BBC, Wood justificou a sua decisão dizendo que se tornou “claro” que “não é possível aplicar este plano ao mesmo tempo que se respeita rigorosamente os princípios humanitários de humanidade, neutralidade, imparcialidade e independência”. “Não vou abandoná-los”, garantiu.

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