Não foi propriamente uma surpresa para ninguém, mas os bastidores da decisão revelaram um dimensão estratégica, mediática e até propositada que não era expectável. Esta segunda-feira, a Real Federação Espanhola de Futebol (RFEF) confirmou a saída de Montse Tomé do cargo de selecionadora da equipa feminina — vincando o facto de não ser um despedimento, mas sim uma não renovação.

“Tomámos a decisão de não renovar com a atual selecionadora, Montse Tomé, que não irá continuar depois de terminar contrato com a RFEF a 31 de agosto de 2025. A Junta Diretiva da RFEF quer agradecer o trabalho, o profissionalismo e a dedicação de Montse Tomé em todas as responsabilidades que assumiu nas seleções nacionais e, em especial, durante o tempo em que ocupou o cargo de selecionadora nacional”, pode ler-se no comunicado oficial, que tinha como título o nome da nova selecionadora, Sonia Bermúdez, até aqui no comando das Sub-23 espanholas.

Montse Tomé, que assumiu o cargo na sequência da saída de Jorge Vilda, de quem era adjunta, depois do escândalo do beijo de Luis Rubiales a Jenni Hermoso na final do Mundial 2023, deixa assim a seleção feminina de Espanha depois de conquistar uma Liga das Nações e de ter chegado à final do Campeonato da Europa — que perdeu para Inglaterra, nas grandes penalidades, há menos de um mês. De acordo com o El Mundo, porém, a decisão da RFEF seria exatamente a mesma mesmo se as espanholas se tivessem sagrado campeãs europeias.

Segundo o jornal espanhol, o futuro de Montse Tomé estava decidido e definido ainda antes de o Campeonato da Europa começar e faz parte de uma “mudança de capítulo” a que se juntam as saídas de Kenio Gonzalo e Laura del Río, até aqui nos Sub-14 e Sub-16. A ideia da RFEF de manter Montse Tomé durante o Europeu da Suíça terá passado por permitir que fosse a treinadora, já na reta final do projeto, a assumir a responsabilidade de não convocar Jenni Hermoso — protagonista involuntária do caso com Luis Rubiales e figura crucial do futebol feminino espanhol, mas sem o rendimento ou até a utilização necessárias no Tigres do México.

Apesar de só ter sabido oficialmente que não iria ver o seu contrato renovado nos últimos dias, Montse Tomé já teria conhecimento de que não iria continuar desde o momento em que viajou para a Suíça. O El Mundo adianta ainda que, em pleno Campeonato da Europa, a diretora da RFEF para o futebol feminino convocou as cinco capitãs da seleção para as sondar sobre uma eventual mudança de selecionadora — mas Irene Paredes, Alexia Putellas, Olga Carmona, Mariona Caldentey e Aitana Bonmatí terão recusado opinar, indicando que preferiam manter-se à margem da decisão e que não a iriam questionar ou apoiar publicamente.

A saída de Montse Tomé está assim a ser interpretada como a queda da última sobrevivente da era de Luis Rubiales — a última treinadora, depois das tais saídas dos selecionadores dos Sub-14 e dos Sub-16, que ainda restava do período em que o antigo presidente da RFEF ditou os destinos do futebol espanhol. Ainda assim, e apesar de não ter a bagagem de ter sido braço direito de Jorge Vilda durante vários anos, o nome de Sonia Bermúdez também não parece estar totalmente limpo: a antiga jogadora do Atl. Madrid, que conquistou dois Europeus ao comando das Sub-19 espanholas, aplaudiu Rubiales durante o fatídico discurso em que este recusou demitir-se e demorou a condenar o dirigente.

O nome da antiga internacional espanhola não foi consensual, apesar de aprovado por maioria, e a experiência e competência terão mesmo sido colocadas em causa. Algo que também fica notório a partir do momento em que, ao mesmo tempo que apresentou Sonia Bermúdez, a RFEF também anunciou que Iraia Iturregi vai integrar a equipa técnica e ser o braço direito da selecionadora: uma treinadora que orientou o Athl. Bilbao nas últimas três temporadas e que foi adjunta da equipa B masculina dos bascos.

Certo é que, com uns nomes ou com outros, o futebol feminino de Espanha vai sofrer uma revolução: a RFEF anunciou um corte de 500 mil euros no orçamento, acabou com as Sub-23 e mudou os treinadores de praticamente todas as seleções, das Sub-14 à equipa principal, passando por Sub-16, Sub-17, Sub-19 e Sub-20.

“Estamos tristes e envergonhados, pedimos as mais sinceras desculpas.” RFEF despede Jorge Vilda e condena Rubiales pela primeira vez

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