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Agentes florestais em fim de turno e combate às chamas sem líder. Relatos mostram descoordenação na resposta aos incêndios em Espanha

Este artigo tem mais de 1 ano

Na Galiza, um agente florestal abandonou o combate às chamas por ter ultrapassado as horas de trabalho. Relatos de descoordenação multiplicam-se enquanto Espanha enfrenta onda de incêndios.

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Anadolu via Getty Images

Anadolu via Getty Images

Quando as chamas ameaçavam os habitantes de uma aldeia, que olhavam inquietos para a imponência do fogo, Guardia Civil, Proteção Civil e bombeiros estavam mobilizados e atentos, mas sujeitos às ordens de um agente florestal (figura responsável pela liderança técnica do combate aos incêndios). No entanto, de madrugada, pelas 2h, o homem ao leme das operações deixou os operacionais sem voz de comando: teve que ir embora porque tinha ultrapassado o limite das horas de trabalho. Ninguém o substituiu.

Sem o responsável por liderar o combate, por protocolo, a brigada acionada não podia fazer nada e mesmo as máquinas que estavam a abrir valas tiveram que ser retiradas. “Ficámos a noite toda a olhar como o fogo diminuía”, relata um operacional ao El País; na manhã seguinte, as chamas ganharam ímpeto e cercaram as casas de uma povoação. A história aconteceu na região espanhola da Galiza, que por estes dias vive uma fase complicada de combate aos incêndios. Mas também podia ter ocorrido na comunidade de Castela e Leão, como descreve o jornal espanhol noutras situações.

Em 15 dias, 358 mil hectares arderam nos incêndios em Espanha

As histórias de bombeiros e populares põe a nu a descoordenação sentida nas operações dos operacionais, numa dificuldade que é repetida em Portugal, com os dois países da Península Ibérica a enfrentarem em simultâneo uma fase crítica do verão. Em Espanha, há mais um nível de operação que é da competências das regiões autónomas.

Antes de os incêndios surgirem em força em território espanhol, os líderes políticos de duas regiões (Alfonso Rueda na Galiza e Alfonso Mañueco de Castela e Leão), ambos do Partido Popular (PP), vangloriaram-se de ter um dispositivo de combate aos incêndios do mais alto nível. O melhor “de todo o mundo”, chegou a dizer o responsável do PP em Ourense, quando a província já estava em alerta máximo de incêndio.

epa12307292 A forest guard works to extinguish a forest fire in Carballeda de Avia, Ourense, Galicia, north-western Spain, 17 August 2025. Multiple blazes continue to affect several provinces in Spain, after burning thousands of hectares across the country. In Galicia, 50,000 hectares have already burned, and in Castile and Leon (central Spain), 3,500 people remain outside their homes.  EPA/BRAIS LORENZO

BRAIS LORENZO/EPA

Pouco tempo depois, com as chamas a ameaçarem várias localidades espanholas, exigiram ao Governo central um reforço urgente de meios. Nessa altura, já os operacionais enfrentavam imprevistos e sentiam a descoordenação no terreno, com ineficácia, falta de pessoal e meios, que resultaram em episódios como o que se verificou na Galiza, quando um agente florestal não foi substituído a meio do combate.

Em Castela e Leão, os momentos complicados repetem-se. Num local reincidente em incêndios — onde morreram quatro pessoas há três anos —, só há populares a combater as chamas. Os vizinhos bem protestam e exigem apoio, mas os bombeiros não chegam. O El País diz que só a mudança de ventos e um grupo de pessoas conseguiu salvar a localidade afetada, mas o incêndio acabou por afetar a aldeia de Abejera, com várias pessoas a serem levadas para o hospital, onde ainda permanecem, com ferimentos.

A 13 de agosto, dois dias antes de Portugal, Espanha ativou o Mecanismo de Proteção Civil da União Europeia. Apesar de não ser a primeira vez que o faz, é a primeira vez que o ativou devido a incêndios — em 2020 recorreu a esta medida durante a pandemia da Covid-19 e em 2020 também, mas motivado pela tempestade DANA em Valência.

Desde que ativou o mecanismo, Espanha recebeu meios de sete países: Alemanha, Eslováquia, Finlândia, França, Itália, Países Baixos e República Checa. Num total de oito meios aéreos (dois aviões e dois helicópteros) e quatro equipas de bombeiros (190 operacionais).

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Sindicatos combatem chamas e deficiências há muito denunciadas

Os sindicatos que representam os operacionais no terreno explicam que além das chamas é preciso combater deficiências há muito denunciadas. Uma delas será o congelamento, desde 1985, da carreira dos agentes florestais (como se viu pelo episódio na Galiza, uma peça fulcral destas operações). “Não há forma que [os governos] assuma que falta gente”, lamentou ao El País o agente florestal Alejandro Rodríguez.

Já com o colete da Proteção Civil, Alfonso Rueda começou a aparecer, mas as críticas continuaram. Os sindicatos reiteram que o responsável político pela comunidade autónoma da Galiza não aceitou mais apoios: as autoridades chegaram a recusar a ajuda de Bombeiros vindos de Pontevedra e enviaram para casa operacionais de Corunha e Lugo porque “já não eram necessários”, quando a região enfrentava um dos incêndios mais graves dos últimos anos.

Quem esteve no terreno descreveu “brigadas descoordenadas e paradas à espera de instruções durante horas”. Apesar dos bombeiros florestais conhecerem bem o território e serem experientes nas táticas contra o fogo, dizem ao jornal espanhol, “a falta de coordenação dos comandantes superiores e intermédios resultou em ineficiência”.

Já com os fogos a lavrar, as duas regiões mais afetadas lançaram apelos para preencher vagas e equipamentos. Mas mesmo esta incorporação precipitada causou problemas: os agentes florestais vêem-se obrigados a tentar evitar que os recém-integrados assumam a responsabilidade de dirigir o combate aos incêndios — os sindicatos reclamam que estes operacionais deveriam ser integrados sempre em março.

“Os fogos apagam-se no inverno”, repete um bombeiro em Castela e Leão.

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