A passagem pelas cadeiras do “poder” foi curta, a festa também não demorou muito a ser feita. A UAE Team Emirates foi a antepenúltima equipa a sair para o contrarrelógio coletivo de Figueres, conseguiu finalmente tirar a Lidl-Trek do topo das formações mais rápidas (antes só a Lotto passara por lá) e festejou a vitória na quinta etapa a menos de um quilómetro do final do traçado da Visma Lease-a-Bike, que ainda segurou a camisola vermelha para Jonas Vingegaard mas não conseguiu contrariar a desvantagem de oito segundos para o principal rival. No centro das atenções, João Almeida. O português brincava com os companheiros, ia abraçando um de cada vez e parecia ter aquela postura de um líder natural da equipa. Mais ao lado, tímido e discreto, estava Juan Ayuso, que subia a segundo da geral. Havia ainda mais interesse no que se seguia.

Em equipa, são melhores: Emirates brilha no contrarrelógio coletivo, João Almeida sobe a 3.º da Vuelta (mais perto de Vingegaard)

A ligação entre Olot e Pal ao longo de mais de 170 quilómetros era uma passagem por uma zona conhecida por grande parte dos corredores (a começar pela Emirates, que vai fazendo vários estágios ao longo da época nesta zona) e abria as primeiras grandes decisões em termos de geral em planos diferentes. A Visma, ainda “beliscada” no orgulho por não conseguir a vitória no contrarrelógio coletivo que todos apontavam, mostrava um único foco que era proteger o seu líder, Jonas Vingegaard, sem que isso significasse de forma obrigatória manter a camisola vermelha – até por todo o protocolo que isso envolve, entre controlo anti-doping, pódio e demais entrevistas. A Emirates, com a motivação extra do triunfo que muitos não acreditavam, mantinha essa grande dúvida em relação à co-liderança de Almeida e Ayuso sem que o próprio Joxean Matxin, diretor desportivo da equipa, desfizesse o chavão “É melhor andar com dois na frente do que ter apenas um”.

“Está a ser um bom início de Vuelta mas as diferenças são curtas e ainda falta muita competição. Foi um excelente esforço da equipa, julgo que estamos todos de parabéns. Nos últimos quilómetros notou-se algum cansaço mas todos deram o máximo até à linha de meta. Liderança na Volta a Espanha? Nunca vesti a vermelha… É uma camisola muito bonita e espero vesti-la em breve”, comentou o corredor português ao Eurosport após o triunfo, visivelmente satisfeito com o rendimento da Emirates no contrarrelógio coletivo.

“Acredito que todo o pelotão conhece as ruas de Andorra. Vai ser especial para mim, afinal é como se saísse de casa. Isso dá-me ainda mais vontade. Vai ser uma etapa dura, vamos ver se o tempo se aguenta. Três a oito segundos do líder Vingegaard? Não, são apenas dois: o Juan [Ayuso] e o João [Almeida]. Eu só estou nesta quarta posição da geral por circunstâncias da corrida e acredito que isso também será bom para poder tentar aproveitar alguns movimentos”, assumia Marc Soler, nascido na Catalunha, antes do início da sexta etapa, recolocando o foco nos dois principais nomes da Emirates e “excluindo-se” dessa luta particular.

Era uma tirada especial para o catalão Soler, era uma tirada especial para vários corredores que têm também a sua residência em Andorra, casos de Juan Ayuso, Sepp Kuss ou… João Almeida. E era uma tirada que podia ter dois grandes cenários à chegada: a vitória de uma fuga, em condições normais a poder até dar margem para haver mudança de líder mas sem uma vantagem que ferisse as ambições dos principais corredores, ou a luta entre Vingegaard… e quem tivesse melhores pernas da Emirates, sem esquecer que esta sexta-feira terá mais uma etapa com grandes dificuldades a subir entre Andorra-a-Velha e Cerler (187km).

Os primeiros sinais de tentativas de fuga não demoraram, com alguns corredores a ganharem alguns metros mas a serem neutralizados pouco depois por um pelotão que ainda estava a definir o que queria para o dia até tendo em conta as condições difíceis com chuva que iriam enfrentar, mas a fuga acabaria mesmo por levar a melhor, com dez corredores com nomes de peso a irem para a frente e a chegarem em força à Collada de Toses, com Louis Vervaeke (Soudal Quickt-Step) a bater Jay Vine (UAE Team Emirates) e Lorenzo Fortunato (XDS Astana) nos pontos num grupo que tinha ainda Gianmarco Garofoli (Soudal Quick-Step), James Shaw (EF Education), Pablo Castrillo (Movistar), Archie Ryan (EF Education), Ramses Debruyne (Alpecin), Bruno Armirail (Decathlon AG2R) e Torstein Traeen (Bahrain). Tudo com o tempo de vantagem a subir.

Com a chuva a dar tréguas, o que fez com que vários corredores fossem encostando aos carros para deixar os seus coletes, vários cenários começavam a ser colocados em cima da mesa. Logo à cabeça, o lançamento de Jay Vine por parte da Emirates numa etapa onde o australiano, que estava a mais de 20 minutos na geral, poderia ser uma peça chave para a estratégia de João Almeida e Ayuso. Depois, a memória do episódio Ben O’Connor, que no ano passado conseguiu fazer uma gracinha que quase lhe valeu a Vuelta e que mais tarde levou a que algumas equipas reconhecessem ter sido um erro dar tanto tempo ao australiano. Por fim, a qualidade do próprio grupo de dez fugitivos, com duas equipas com mais do que um corredor e com a UAE Team Emirates a ter o seu representante na frente, o que colocava maior pressão em cima da Visma.

O esforço extra feito por Jay Vine para ganhar na passagem por Santigosa logo a abrir, à frente de Lorenzo Fortunato e de Louis Vervaeke, levantava também essa possibilidade de querer algo mais em relação aos pontos na montanha. Estava a chegar mais um momento importante da etapa a subir, com a vantagem da fuga na entrada em Andorra a chegar aos 6.40 minutos a 30 quilómetros do final (em Sant Julià de Lòria) e aos 5.30 minutos na primeira das últimas subidas a 25 quilómetros da meta em Comella tendo Lorenzo Fortunato a ganhar as bonificações de segundos que o colocavam como um corredor tão interessado na montanha… como na geral. A chuva reaparecia, os movimentos do pelotão multiplicavam-se com a Visma a tentar aumentar o ritmo e outros conjuntos como a Astana a trabalharem para baixar essa intensidade.

A pouco mais de 20 quilómetros, João Almeida perdeu de forma momentânea a ligação ao pelotão com um recuo de Domen Novak para ajudar o português sem que se percebesse ao certo a razão desse atraso mas as imagens da transmissão recuperaram depois a troca de bicicleta por um problema mecânico pouco depois de ter passado por mais bandeiras nacionais que continuam a marcar presença em força no traçado desta Vuelta. Na frente, a Emirates também era protagonista mas por Jay Vine, que voltou a somar o máximo de pontos de montanha destacado entre os corredores da fuga. Se a certa altura chegou a dar a ideia de que o pelotão estava com ritmo para anular a fuga, o passar dos quilómetros dava vantagem aos fugitivos com Jay Vine na frente por 20 segundos e Armirail a ter mais dificuldades na perseguição ao australiano.

A etapa estava definitivamente partida em dois. Por um lado, Jay Vine continuava a aumentar a vantagem em relação aos fugitivos que já superava os 50 segundos a menos de dez quilómetros da meta sem que os outros nove corredores encontrassem uma aparente estratégia que conseguisse fechar o espaço para o australiano, algo que só aconteceu quando Castrillo e Fortunato saltaram para a perseguição levando os dois corredores da EF Education e também Traeen, que era o melhor da fuga na geral a 58 segundos do topo. Por outro, no pelotão, que nessa fase levava cinco minutos de atraso, a Red Bull-Bora começava também a chegar-se à frente naquilo que parecia ser um trabalho para Jai Hindley e Giulio Pellizzari que estavam a 20 segundos da liderança e a Decathlon AG2R a tentar colocar Felix Gall numa posição melhor.

O carro da Emirates puxava por Jay Vine, o australiano entrava na fase mais dura da subida final com cerca de um minuto para defender aquela que seria mais uma grande vitória para a equipa, Torstein Traeen ia na luta com Bruno Armirail por uma camisola vermelha que iria sempre mudar perante a distância do pelotão que passava a ter a Lidl-Trek a trabalhar na frente. O norueguês da Bahrain conseguiu mesmo saltar a fuga para perseguir Jay Vine, sabendo que o reconhecimento para uma história de superação fantástica aos 30 anos após ter debelado um cancro nos testículos detetado num controlo anti-doping estava perto com essa camisola vermelha na Vuelta. Mais atrás, a notícia do dia: Juan Ayuso quebrou por completo numa fase ainda inicial da primeira montanha mais a sério da Vuelta… e estava encontrado o líder da Emirates.

Essa imagem do espanhol completamente isolado a “afogar” ainda numa parte menos dura da subida dava muito que pensar em relação ao futuro de João Almeida na Vuelta, até porque a equipa da Emirates deixou que o português ficasse sozinho na frente do pelotão entre toques com corredores da Visma. Antes de haver uma reconfiguração de todo o plano traçado pela equipa, com ou sem a continuidade de Ayuso na Vuelta, o português tinha uma dura batalha pela frente em aguentar-se frente a Vingegaard sem perder tempo numa fase onde o top 25 estava com menos de um minuto de diferença. Era previsível, aconteceu: Ciccone saiu no ataque, Vingegaard foi atrás sentado, Almeida foi tentando fechar espaço com o dinamarquês na frente tendo Marc Soler mais afastado do que seria ideal. Lá na frente, Jay Vine assegurava a vitória.

Vine ganhava a primeira etapa com alta montanha na chegada, Torstein Traeen conseguia conquistar mesmo a camisola vermelha ficando em segundo na etapa (com Buitrago e Tiberi bem atrás), as atenções estavam todas centradas no grupo dos primeiros com João Almeida a agarrar em Egan Bernal para fechar o espaço antes de haver um ataque do português numa afirmação fantástica que deixou Pidcock para trás. Sobraram apenas Bernal, Vingegaard, Ciccone e Felix Gall, sendo que esse movimento mostrou a coragem do líder da Emirates antes de regressar a Visma para o comando e Almeida voltar a atacar, terminando na frente de todos os principais adversários mas sem conseguir tirar segundos de diferença para o rival dinamarquês.

Contas feitas, entre tempos dos elementos da fuga e dos principais candidatos à geral, Traeen passou a liderar a camisola vermelha com o tempo de 20.25.46, tendo agora Bruno Armirail (Decathlon AG2R) em segundo a 31 segundos de distância, Lorenzo Fortunato (XDS Astana) em terceiro a 1.01 e Louis Vervaeke (Soudal Quick-Step) em quarto a 1.58. Seguem-se os grandes candidatos ao triunfo final, com Vingegaard em quinto a 2.31, João Almeida em sexto a 2.41, Ciccone em sétimo a 2.42, Matteo Jorgensen (Visma) em oitavo a 2.49 e a dupla da Red Bull-Bora, Jai Hindley e Giulio Pellizzari, a fechar o top 10 a 2.53. Marc Soler, da Emirates, caiu para 14.º a 3.09 ao não conseguir acompanhar o grupo da frente na parte final da subida, ao passo que Juan Ayuso foi para a 43.ª posição a mais de dez minutos do líder e, mais relevante do que isso, a mais de sete minutos de Vingegaard e Almeida após terminar a etapa a 11.51 (62.º).