Há coisas que parecem escritas, por mais que o destino seja tudo menos isso de forma aparente. Mesmo na antecâmara da Volta a Espanha, Ben Turner foi chamado de urgência pela Ineos quando fizera duas etapas do Renewi Tour, na Bélgica, e nada fazia prever que conseguisse uma posição de protagonismo na Vuelta. Fez por isso, conseguiu: na chegada a Voiron, na passagem da Vuelta por França, o britânico enfrentou a chegada com mais stress e tensão entre o pelotão pelas características dos últimos metros (e uma quase queda antes que ainda deixou tudo mais em alerta), aproveitou uma colocação desacertada de Mads Pedersen e bateu a dupla Jasper Philipsen e Edward Planckaert, da Alpecin, ao sprint, terminando a etapa em lágrimas.

Ben Turner ganhou no dia em que os favoritos até desaceleraram: Vingegaard “cede” liderança, João em 11.º antes do primeiro momento chave

“Foi uma semana de doidos. Queria vir à Vuelta, ainda tinha alguns problemas com a minha perna desde o Giro mas a equipa acreditou em mim e acabei por seguir para o Renewi Tour mas depois disseram-me que precisavam de mim… Claro que disse que sim, fazia tudo para estar nestas corridas. Ganhar uma etapa da Vuelta é um sentimento incrível. Fiquei devastado com o primeiro sprint que houve porque a minha corrente acabou por saltar mas acreditei muito em mim, senti-me bem o dia todo. Os rapazes fizeram um trabalho fantástico por mim, em especial o Kwiato [Michal Kwiatowski]”, salientou Turner após a etapa.

Em paralelo com essa chegada, a outra nota do dia acabou por ser a troca de liderança da classificação geral, com David Gaudu a entrar à frente de Jonas Vingegaard e a ficar com a malha vermelha com o mesmo tempo do dinamarquês. O líder da Visma-Lease a Bike já tinha admitido no início da etapa essa possibilidade de “abdicar” do topo para fugir ao protocolo do pódio, ainda para mais num dia que seria marcada logo de seguida por uma viagem de avião para a Catalunha, e foi isso mesmo que aconteceu, numa tática que fez com que todos os principais favoritos ao triunfo final fugissem do ritmo de loucos empregue pelos corredores da frente que lutavam pela vitória ao sprint. A Groupama FDJ chegava ao quinto dia com esse “prémio”.

“Estava a pensar nisso na possibilidade de conquistar a camisola vermelha esta manhã mas não sabia bem se iria lutar por posições no sprint de pelotão. Pode ser muito perigoso. No sprint intermédio, segui as rodas mas não consegui os segundos de bonificação. Depois disso, falei no rádio e disse ‘Conseguiremos à chegada’. A equipa fez um trabalho incrível e esta camisola é para eles. Senti uma grande emoção no pódio, foi a sensação mais incrível da minha carreira. Ainda por cima poder partilhá-la com o público francês, que é sempre maravilhoso. Depois das más recordações do Giro e de não ter podido estar no Tour, agora chegam os momentos especiais”, apontou o corredor francês que ganhou a terceira etapa com chegada a Ceres.

“Contrarrelógio por equipas? Temos uma equipa forte para o contrarrelógio. Teria sido a mesma coisa sem a camisola, queremos dar o nosso melhor e no final ver se obtivemos um bom resultado. Só que agora, se será suficiente para manter a camisola, não sabemos…”, acrescentou no lançamento do primeiro grande dia de decisões na Vuelta: um contrarrelógio por equipas com cerca de 24 quilómetros em Figueres, que teria a Visma a sair à frente da Groupama mas a poder controlar os tempos referência da principal adversária, a UAE Team Emirates, que tinha Juan Ayuso e João Almeida com os mesmos 16 segundos de diferença para Gaudu mas com o espanhol à frente do português por apenas uma posição no acumulado de etapas.

Essa era a principal nota que ia saindo de uma tirada que começou mais tarde do que as anteriores, até tendo em conta que havia corredores ainda nas macas a receber massagens quase de madrugada pelos atrasos que foram existindo nas chegadas aos respetivos hotéis. O contrarrelógio coletivo não é o tipo de etapa mais comum, longe disso, mas podia marcar diferenças na geral individual com uma maior curiosidade em torno da UAE Team Emirates do que da Visma Lease-a-Bike, entre outras potenciais surpresas. Porquê? As últimas ocasiões em que a equipa rodou este tipo de etapas não correu da melhor forma, em particular com a tirada no circuito de Magnys-Cours do último Paris-Nice a deixar a Emirates numa modesta posição a 42 segundos da Visma. Agora, com Juan Ayuso ao lado de João Almeida, havia uma aposta na redenção numa Vuelta onde os principais nomes têm passado de forma mais discreta mas sempre nos lugares da frente.

Pouco antes da saída da Lotto, que era a primeira a partir para a quinta etapa, havia ainda mais duas notas de curiosidade: o aparecimento da chuva em Figueres, que podia deixar marcas na estrada além da humidade que era notória no rosto dos corredores após o aquecimento (algo que acabou por não confirmar-se, com o céu a abrir depois sem que o vento fosse também tão prejudicial), e a confiança demonstrada pela Groupama de que era possível manter David Gaudu como líder, tendo Stefan Kung e Rémi Cavagna para puxar pelo seu companheiro de equipa, quando as potenciais surpresas estavam mais viradas para a Ineos, a Red Bull-Bora e a Lidl-Trek, que com Giulio Ciccone na terceira posição podia também intrometer-se na luta.

A Lotto, sendo a primeira a sair, conseguiu ficar algum tempo com o melhor registo, sendo que a Lidl-Trek, que estava a voar no parcial inicial, acabou por deixar de “contar” com Carlos Verona, que num descuido acabou por sofrer uma queda e deixar o “comboio” da equipa que destronou a Lotto da primeira posição com 25.35, antes da passagem da Q36.5 Pro Cycling Team a 25.48. Começavam as movimentações mais cuidadas junto ao Museu Salvador Dalí, onde era assinalada a partida, com a Ineos já na estrada e a Israel a acabar por ser prejudicada durante o seu trajeto, com uma pequena manifestação com bandeiras da Palestina a ser prontamente retirada pela polícia mas a obrigar a um pequeno abrandamento dos corredores da equipa.

A Movistar e a Decathlon AG2R aproximaram-se do tempo referência da Lidl-Trek, ficando apenas a oito segundos de diferença, seguia-se a Ineos que fizera o melhor registo no primeiro ponto parcial mas que ficara a dois segundos de repetir o feito no segundo tempo intermédio e que chegou em completa quebra à meta só com quarto corredores, fechando com o segundo tempo a sete segundos da Lidl-Trek dando ideia de que algo se passou durante o percurso como aconteceu mesmo com a Red Bull-Bora, que viu Matteo Sobrera ter uma queda feia entre setores intermédios afetando por instantes a cadência dos restantes. Mais atrás, estava na hora de saída da UAE Team Emirates, da Visma-Lease a Bike e da Groupama FDJ, as outras favoritas.

“Vai ser um percurso bastante técnico, mais do que pensávamos de forma inicial. Com as curvas, com zonas complicadas, mais técnico do que inicialmente. O vento também pode marcar presença mas tentaremos fazer o melhor. Porquê dois reconhecimentos? Porque o primeiro não correu bem e temos de fazer bem as coisas, somos profissionais. O segundo já correu bem. Co-liderança? É melhor ter dois do que um contra o Jonas Vingegaard, a ideia é tentar jogar com os dois porque são três semanas. Se fosse com o Pogacar, era diferente. O João está muito bem, o Ayuso corre em casa e está a melhorar todos os dias”, comentou ao Eurosport o diretor da Emirates, Joxean Matxin, numa entrevista passada quando já estavam na estrada.

Chegavam as alturas das decisões, com essa confirmação de que a Israel perdeu algum tempo com a paragem e com a Emirates a marcar um segundo a menos do que a Ineos no primeiro parcial com a Visma a demorar mais três segundos e a Groupama mais sete segundos. Mais tarde, no segundo ponto intermédio, a cadência mudou de forma ligeira, com mais cinco segundos da Emirates face à Lidl-Trek mas 13 segundos à frente da Visma, que fazia mais 18 do que a Lidl-Trek. Na parte final, já sem Jay Vine e Ivo Oliveira que acabaram o seu trabalho, a Emirates com Juan Ayuso, João Almeida e Marc Soler fez o melhor tempo então parcial com 25.26, dando um passo de gigante para vencer o contrarrelógio coletivo apesar da boa recuperação da Visma no último setor, suficiente para manter Jonas Vingegaard de novo com a camisola vermelha tendo em conta que a Groupama, depois de um bom arranque, não conseguiu dar continuidade a todo esse esforço.

Contas feitas, Vingegaard passa agora a ter oito segundos de avanço em relação a Juan Ayuso, João Almeida e Marc Soler antes da ligação entre Olot e Pal, em Andorra, com nova chegada a subir num terreno onde o português costuma passar várias épocas em treino. Giulio Ciccone desceu ao quinto lugar a nove segundos do dinamarquês, seguindo-se no top 10 David Gaudu (16”), Matteo Jorgensen (16”), Jai Hindley (20”), Giulio Pellizzari (20”) e Egan Bernal (22”). Thomas Pidcock (13.º, 30”), Santiago Buitrago (14.º, 39”), Mikel Landa (21.º, 56”) e Antonio Tiberi (23.º, 58”) também caíram na classificação geral.

Como ficou a classificação do contrarrelógio por equipas da quinta etapa da Vuelta

  • UAE Team Emirates (21.ª a sair): 25.26

  • Visma Lease-a-Bike (22.ª a sair): 25.34

  • Lidl-Trek (7.ª a sair): 25.35

  • Red Bull-Bora (18.ª a sair): 25.38
  • Ineos (15.ª a sair): 25.42
  • Movistar (13.ª a sair): 25.43
  • Decathlon AG2R (14.ª a sair): 25.43
  • Q36.5 Pro Cycling Team (8.ª a sair): 25.48
  • Groupama FDJ (23.ª a sair): 25.50
  • Lotto (1.ª a sair): 25.53
  • Bahrain (16.ª a sair): 25.57
  • Arkéa (11.ª a sair): 26.02
  • Intermarché-Wanty (4.ª a sair): 26.05
  • EF Education (9.ª a sair): 26.05
  • Alpecin-Deceuninck (2.ª a sair): 26.08
  • Jayco Alula (6.ª a sair): 26.10
  • Soudal Quick-Step (19.ª a sair): 26.14
  • Picnic PostNL (3.ª a sair): 26.19
  • Israel (17.ª a sair): 26.20
  • Cofidis (5.ª a sair): 26.23
  • Caja Rural (12.ª a sair): 26.44
  • XDS Astana (20.ª a sair): 27.01
  • Burgos (10.ª a sair): 27.10

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