O Manchester City de plantel renovado com uma nova luz na filosofia de jogo chamada Tijjani Reijnders até prometia mas a derrota caseira com o Tottenham acabou por arrefecer um pouco as hostes (pelo menos por ora, sendo que uma possível chegada de Gigi Donnarumma poderá voltar a despertar a força dos antigos campeões), o Manchester United tem sobretudo de resolver-se a si próprio antes de resolver tudo o resto, o Chelsea começou com um nulo mas dá sinais de que continua a crescer depois da conquista do Mundial de Clubes, o Tottenham mostra-se capaz de ir ganhar ao Etihad Stadium e a seguir perder em casa frente ao Bournemouth. A Premier League, cada vez de forma mais isolada a melhor liga do mundo, pode ter vários pretendentes mas encontra agora dois grandes favoritos ao título – os mesmos que iam jogar agora.

Não há nada como Anfield, o palco onde a verdadeira estrela continua a brilhar: Liverpool vence Bournemouth no arranque da Premier League

Depois de um ano de sonho com a conquista do Campeonato na estreia do neerlandês Arne Slot como técnico na era pós-Jürgen Klopp, o Liverpool foi abalado pela fatalidade de Diogo Jota que irá acompanhar a equipa e o clube ao longo de toda a temporada. As homenagens são constantes, as memórias continuam vivas, o papel de lenda será eterno. Nada nem ninguém farão esquecer o jogador português em Anfield mas a vida teve de continuar, com a construção de uma versão 2.0 para a reconquista do título: vendeu peças como Luis Díaz, Darwin Núñez, Quansah, Ben Doak ou Kelleher além de perder Alexander-Arnold para o Real, com 220 milhões de receita, contratou figuras como Florian Wirtz, Hugo Ekitiké, Milos Kerkez, Jeremie Frimpong ou Giovanni Leoni para renovar o plantel sem perder competitividade num investimento de quase 340 milhões que ainda pode ter folga para aquela que seria a grande “bomba” do mercado, Alexander Isak. Ou seja, mesmo a ganhar, a opção recaiu em preparar o futuro para tentar ganhar… mais vezes seguidas.

Também o Arsenal, que continua a gastar muito ganhando pouco ou nada, enveredou pela mesma ideia. A parte das saídas não trouxe propriamente receita, tendo em conta que Thomas Partey, Jorginho ou o lateral Tomiyasu saíram a custo zero e Marquinhos custou apenas três milhões ao Cruzeiro, mas o investimento voltou a ser forte no Emirates com as chegadas de Viktor Gyökeres, Eze, Zubimendi, Madueke, Norgäard ou Mosquera por um montante de quase 300 milhões de euros que não ficará por aqui, tendo em conta que Jakub Kiwior já está na Invicta para assinar pelo FC Porto perante a chegada de Piero Hincapié do Bayer Leverkusen. Mikel Arteta fica ainda mais exposto aos resultados, tendo em conta as condições que sempre teve desde que chegou ao clube deixando o cargo de número 2 do City, mas ganhou o plantel que pretendia.

Ele usa máscara, mas nunca se mascarou do que não é: Gyökeres estreia-se a marcar na Premier League com um bis

Se a Premier League teve um verão onde esmagou por completo toda a concorrência a nível de investimento, Liverpool e Arsenal eram exemplos paradigmáticos de como, a ganhar ou andando perto disso, há sempre a perspetiva de médio/longo prazo nas apostas que se fazem sem deixar de lutar pelo presente. No entanto, e acima de tudo o resto, eram os resultados a ditar o sucesso ou não dessas opções e o clássico chegava com essa possibilidade em aberto de haver liderança isolada antes da paragem para as seleções.

Apesar de ser uma autêntica máquina de golos (marcados mas também sofridos, com 7-4 nos dois primeiros jogos da Premier League), o Liverpool sentiu grandes dificuldades perante uma organização defensiva dos gunners que até perdendo Saliba nos minutos iniciais manteve o perigo longe da baliza de David Raya com a única exceção de um remate forte de Gapko que falhou o alvo (13′). O minuto 20 voltou a ser assinalado com muitos aplausos em Anfield em memória de Diogo Jota mas o jogo continuava a ser controlado pelo Arsenal, que teve uma oportunidade flagrante por Madueke travada por Alisson (22′) entre aproximações de perigo. Ainda assim, o intervalo acabou por chegar sem golos e com Timber ainda a protestar um possível lance de grande penalidade com Mac Allister que nem o árbitro nem o VAR consideraram falta (42′).

O intervalo fez bem ao Liverpool e fez mal ao Arsenal. Por um lado, os visitados foram ganhando argumentos para controlarem o jogo com bola, projetaram de outra forma a equipa na frente (Ekikité teve mesmo um golo anulado na sequência de uma recarga a remate de Wirtz por fora de jogo aos 60′) e conseguiram um melhor bloqueio da construção dos gunners. Por outro, os visitantes, ainda com Gyökeres à procura das melhores rotinas sobretudo na procura da profundidade, foram mexendo na equipa mas apenas criavam um relativo perigo nos lances de bola parada. Ironia do destino, seria por aí que o encontro acabaria por ser desbloqueado: num livre ainda longe da baliza em posição central, com Raya a pedir apenas três unidades na barreira, Szoboszlai, que voltou a ser aposta como lateral direito, encheu-se de fé e marcou um golo fabuloso ao ângulo, decidindo o encontro e dando a liderança isolada ao Liverpool… em memória de Jota.