O centenário Elevador da Glória percorre cerca de 300 metros da Avenida da Liberdade ao Miradouro de São Pedro de Alcântara, separado por um dos mais estreitos passeios de Lisboa do Largo Trindade Coelho. Aqui se ergue a sede da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML), o que torna o funicular “um meio de transporte frequentemente utilizado por muitos dos que trabalham nesta Instituição”, relata a SCML em comunicado. E foi este hábito que ligou a Santa Casa lisboeta a um dos mais aparatosos acidentes registados na cidade: o descarrilamento em que morreram 16 pessoas. Entre elas, cinco portugueses perderam a vida. Quatro trabalhavam na Santa Casa.
O descarrilamento deu-se ao fim da tarde, pelas 18h00, hora de regresso a casa de muitos funcionários. Alda Matias, Pedro Trindade, Ana Paula Lopes e Sandra Coelho entraram no Elevador no mesmo momento rumo à Avenida, bem como outros dois colegas que ainda estão hospitalizados. A Santa Casa da Misericórdia de Lisboa confirmou o número de vítimas mortais, mas também de feridos sem adiantar detalhes sobre o seu estado de saúde ou onde se encontram a receber tratamento.
“A família Santa Casa está de luto e as palavras não chegam para expressar a enorme tristeza que nos une neste momento de dor e consternação”, lê-se num comunicado emitido pela SCML, que dá nota do “choque” sentido pelo Provedor Paulo Sousa. “Perdemos colegas, amigos, pessoas com quem partilhávamos o nosso dia a dia e a nossa missão”, lamentou o responsável numa nota interna enviada aos funcionários.
Para apoiar os trabalhadores e respetivas famílias neste momento difícil, a Santa Casa anunciou que foi disponibilizado um gabinete de apoio psicológico e clínico, e que irá celebrar uma missa esta sexta-feira, pelas 12h30, na Igreja de São Roque, em homenagem aos trabalhadores que foram vítimas nesta tragédia.
Elevador da Glória foi alvo de inspeção na manhã do acidente
Alda Matias era a diretora da Unidade de Avaliação Financeira e exercia também funções de jurista na Santa Casa da capital. Formou-se em Direito, na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, entre 1983 e 1988, tendo continuado o seu percurso académico na mesma instituição com uma pós-graduação em Estudos Europeus. Este período da sua vida continuou ativo mesmo após ter concluído os estudos. Ao longo dos anos, o espírito académico manteve-se acesso num grupo de Facebook dedicado àqueles que estiveram matriculados durante metade da década de 80. A última publicação remete para as notícias trágicas de quarta-feira.
“Queridos colegas e amigos, não vos trago boas notícias. A nossa colega Alda Matias, que como muitos saberão era jurista na Santa Casa da Misericórdia, é uma das vítimas mortais do acidente do Elevador da Glória”, escreve um dos administradores do grupo. Nos comentários, colegas de longa data expressam os seus sentimentos perante esta triste notícia, expressando que “custa a acreditar” e que, “quando as vítimas têm rosto conhecido, o sentimento é ainda mais brutal”. Ao que o Observador conseguiu apurar, Alda é mãe de três filhos.
Já Ana Paula Lopes saíra de Vergão “há muitos anos”, como recorda ao Observador o presidente da Câmara Municipal de Proença-a-Nova, João Lobo. Na Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, Paula focava-se em operações relacionadas com os serviços de adoção da instituição. Quando se deslocou para a capital, deixou os pais na sua terra natal, enquanto a sua irmã mais velha foi viver para a Sertã. Há cerca de dois anos, João Lobo conta que a família sofreu a perda do irmão mais novo de Paula. Agora, com a morte do segundo filho num par de anos, o autarca garante que a Câmara vai prestar apoio à família.
Prestes a fazer 140 anos, o Elevador da Glória é uma relíquia em andamento no coração de Lisboa
Apesar de exercer funções como Gestor Funcional de Projeto de Transformação Digital na Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, Pedro Trindade era conhecido pelo seu envolvimento em diferentes áreas. O Observador sabe que enquanto professor de Marketing de Eventos e de Organização Empresarial na Escola Superior de Hotelaria e Turismo do Estoril, era visto pelos seus alunos como “um dos melhores”. Num comunicado publicado pela respetiva Associação de Estudantes, Pedro Trindade é recordado pela sua “disponibilidade e relação única para com os inúmeros estudantes e pela paixão com que transmitia o conhecimento”.
Numa outra vertente profissional, a notícia da morte de Pedro Trindade foi recebida com “profundo pesar” pela Federação Portuguesa de Voleibol. No decorrer da sua vida, Pedro Trindade esteve sempre ligado à modalidade, tendo sido árbitro da Associação de Voleibol de Lisboa (AVL) e também dirigente da mesma entidade.
Segundo a Santa Casa, mais uma funcionária morreu no acidente. Foi identificada pelo Correio da Manhã e pela CNN Portugal como Sandra Coelho.
Uma das vítimas mortais do acidente, além de funcionária da Misericórdia, era também mãe de um agente “bastante jovem” da PSP da divisão de Loures, confirmou ao Observador fonte oficial. O agente encontra-se a receber apoio do Departamento de Psicologia desta força policial. Adicionalmente, uma das pessoas que ficou gravemente ferida na sequência do descarrilamento é a filha de um polícia da 3.ª divisão de Benfica.
Além dos quatro funcionários da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, entre as cinco vítimas mortais portuguesas do descarrilamento encontra-se o guarda-freio André Marques.