Parecia que tudo estava a voltar à “normalidade”, tudo acabou depois por sofrer novos contratempos. Miguel Oliveira não teve uma sexta-feira fácil em Misano, sofrendo duas quedas que o próprio teve dificuldades em explicar na sessão matinal e não passando de um modesto 22.º lugar a quase dois segundos dos mais rápidos da parte da tarde. No entanto, a qualificação trouxe uma realidade completamente oposta, com o português a ficar apenas a 90 milésimos da passagem à Q2 rodando dentro do 1.30 quando não fora além do 1.32 nos treinos da véspera. A 13.ª posição na grelha de partida, que se tornou 12.ª pela ausência de Joan Mir, abria boas expetativas para a corrida sprint mas os problemas voltaram a condicionar os voos altos do Falcão.

A melhor qualificação do ano, uma das corridas mais difíceis do ano: Miguel Oliveira termina sprint em São Marino no 16.º lugar

Depois de ter sido “engolido” logo na primeira curva, acabando por ficar preso atrás da moto do campeão Jorge Martín sem outra trajetória disponível, Miguel Oliveira perdeu alguns lugares nessa fase inicial e teve depois um toque com Ai Ogura que deixou o português atrás do seu companheiro de equipa, Jack Miller. Ao todo foram quatro postos perdidos só na volta inicial, o que acabou por condicionar todo o ritmo de corrida e levou ao 16.º lugar no final da corrida sprint, longe daquilo que pensava conseguir fazer perante as melhorias que conseguira colocar na moto na manhã de sábado e que valeram a melhor qualificação do ano.

Depois das quedas de manhã, uma “queda” maior à tarde: Miguel Oliveira termina treinos livres em São Marino no 22.º lugar

“O começo foi traiçoeiro. Na primeira curva perdi a posição para o Martín, que tinha escolhido a mesma trajetória que eu escolhi, e perdi muito tempo na entrada da curva 2. Depois fiz um pequeno erro na curva 14 e dois pilotos passaram por mim, e na volta seguinte na curva 10 tive um contacto com o Ai Ogura, que me danificou a aerodinâmica frontal. A partir desse momento, tudo se tornou mais difícil. O meu ritmo não estava muito longe dos do top 10 mas aquelas primeiras voltas custaram-me muito. Amanhã [Domingo] vou tentar aproveitar melhor a minha posição na grelha de partida”, comentara o piloto português.

Havia quase uma lição a retirar do que se passara na sprint: escolher a melhor trajetória e evitar os pequenos toques nessa fase inicial seriam pontos fulcrais para poder dar prolongamento ao atual momento na Pramac, equipa que vai deixar no final do ano (sem que exista ainda uma decisão sobre o futuro, apesar das propostas que tem recebido para ficar no MotoGP como piloto de testes ou rumar ao Mundial de Superbikes), depois da 12.ª posição na Hungria e do recente nono lugar na Catalunha – os dois melhores resultados de 2025. E era nesse arranque que estariam centradas todas as atenções, acreditando que isso faria toda a diferença.

Era neste contexto que chegava o Grande Prémio de São Marino, que teria também o líder do Mundial, Marc Márquez, a tentar “vingar” a queda sofrida na corrida sprint depois de chegar à primeira posição por troca com o dono da pole position, Marco Bezzecchi. Em paralelo, Fabio Quartararo, piloto de fábrica da Yamaha, chegava com contas por “ajustar” após uma saída de pista que inviabilizou a possibilidade de lutar pelo pódio na sprint. No entanto, repetiu-se o que se passara na véspera: Marc Márquez aproveitou a trajetória que tinha sido desenhada por Marco Bezzecchi e subiu ao segundo lugar à frente de Álex Márquez, Quartararo e Franco Morbidelli, Joan Mir teve um toque com Johann Zarco e Miguel Oliveira saltou para 12.º.

A primeira conquista do português estava alcançada: apesar de ter sido ultrapassado por Enea Bastianini na segunda volta, não tinha perdido lugares em relação à posição na grelha de partida, sabia que Jorge Martín teria de cumprir dupla volta longa e podia marcar o ritmo que conseguira mais uma vez no warm up desta manhã, quando fez o quinto melhor registo de uma sessão ganha por Marc Márquez. O português voltou a 12.º na passagem para a quarta volta, ao passo que o top 10 continuava sem alterações a não ser a subida de Pedro Acosta a quinto por troca com Morbidelli e Ai Ogura desistira também devido a uma queda. Jack Miller, companheiro do Falcão, rodava no 16.º posto, tendo atrás de si Álex Rins e Augusto Fernández.

O Falcão voou mesmo para o 11.º lugar quando o ainda campão mundial Jorge Martín cumpriu a primeira de duas voltas longas, estando ainda assim a 0,8 de Luca Marini para lutar pela entrada no top 10 mas com essa vantagem de ter meio segundo de diferença para Bastianini. O português fez mesmo o tempo mais rápido em corrida na sétima volta, ganhando outro alento para desafiar o piloto italiano da Honda. Mais à frente, Pedro Acosta, que estava na luta pela quarta posição, teve um problema na moto (a correia partiu) e acabou por desistir, permitindo que o português subisse ao top 10 a 19 voltas do final. As desilusões não iriam ficar por aí: num prolongamento de uma época para esquecer e a correr em “casa”, Pecco Bagnaia perdeu a frente da moto e acabou por sofrer uma queda quando andava também entre os dez primeiros da corrida. Em dez voltas já tinham desistido seis pilotos por razões diversas: Mir, Viñales, Ogura, Acosta, Bagnaia e Rins.

Na frente, Marc Márquez começava a montar o cerco com travagens mais cedo e bastou um erro de Bezzecchi para subir à liderança da corrida a meio da prova. Mais atrás, Oliveira deixava de ter a pressão de Bastianini, que também caiu, e gozava de três segundos de avanço sobre Binder para poder preparar o ataque a Marini pela oitava posição apesar da diferença de 0,4 segundos que perdeu na 15.ª volta. Marc Márquez recebeu aí um primeiro aviso de limites de pista (tal como Fermín Aldeguer e Jorge Martín), abrindo ainda esse cenário de resposta de Bezzecchi com as bancadas a puxarem pelo transalpino da Aprilia que ia ganhando tempo. Já Fabio Quartararo começava a sentir algumas dificuldades, perdendo o quarto lugar para Morbidelli.

O pódio estava desenhado, faltando apenas saber a ordem entre Marc Márquez, Bezzecchi e Álex Márquez. O top 5 continuava em aberto, com Fabio Di Giannantonio a passar também Quartararo, com o francês a ficar pressionado de seguida por Fermín Aldeguer e Luca Marini até cair para oitavo. Miguel Oliveira, que estava em nono a dois segundos do italiano, passava a estar a 1,8 do companheiro da Yamaha mas com um ritmo melhor tendo em conta que o antigo campeão mundial parecia estar a “andar para trás”. A possibilidade de o português chegar ao melhor resultado do ano estava dependente dessa luta com o piloto gaulês, mas a moto parecia começar a não andar como tinha feito até aí, o que permitiu uma recuperação de Brad Binder. O pódio acabou mesmo por fechar com Bezzecchi em segundo entre os irmãos Márquez, Marc (que voltou aos triunfos) e Álex, com Miguel Oliveira a repetir mesmo o nono lugar que conseguira na Catalunha, à frente do companheiro Jack Miller (12.º) e da V4 que estava em estreia com Augusto Fernández (14.º).

Contas feitas, com mais uma vitória que acabou por vingar a queda que sofreu na véspera na sprint, Marc Márquez pode fechar o título já no Japão, daqui a duas semanas – sendo que entretanto já bateu o recorde de pontos num só ano, com um total de 512. Álex Márquez ocupa a segunda posição com 330 pontos, seguindo-se Pecco Bagnaia com 237, apenas mais oito do que Bezzecchi. Apesar da desistência, Pedro Acosta continua em quinto com 188 pontos, tendo Morbidelli (180) e Di Giannantonio (179) por perto. Já Miguel Oliveira fez mais sete pontos na Catalunha, mantendo o 21.º lugar da classificação com 24, a dez de Martín.