Ainda antes de o assassinato do ativista conservador Charlie Kirk a 10 de setembro agravar as clivagens políticas e sociais no país, um outro homicídio perpetrado nos Estados Unidos da América colocou temas como a criminalidade nas grandes cidades, o racismo e a saúde mental no centro de uma intensa discussão.

Trata-se do caso de Iryna Zarutska, uma mulher ucraniana de 23 anos a viver como refugiada de guerra em Charlotte, no estado da Carolina do Norte, que foi morta por Decarlos Brown Jr., um homem de 34 anos que lhe desferiu três facadas fatais num comboio onde se encontravam mais passageiros.

O ataque ocorreu na noite de 22 de agosto, com o departamento da polícia local a anunciar que tinha detido Brown Jr. pouco depois, encontrando-o com ferimentos na mão e encaminhando-o para uma unidade de saúde. No comunicado foi desde logo explicitado que, assim que recebesse alta, o suspeito seria detido por acusação de homicídio.

No entanto, o caso apenas começou a suscitar polémica, tornando-se viral nas redes sociais, após a divulgação das gravações de videovigilância do comboio a 5 de setembro. Nas imagens é possível ver Zarutska — de headphones colocados e com uma t-shirt e boné da pizzaria onde trabalhava — a entrar na carruagem e a sentar-se no lugar à frente do seu homicida.

Ao fim de quatro minutos após a vítima sentar-se à sua frente e sem que os dois tenham aparentemente interagido, vê-se Decarlos Brown Jr. a tirar uma faca do bolso e a abri-la enquanto Zarutska continuava focada no seu telemóvel. De seguida, o homicida levanta-se, agarra-se no assento à sua frente com a mão esquerda e esfaqueia a mulher com a arma na mão direita. O atacante abandona então o local, deixando Zarutska encolhida com os joelhos junto ao peito e as mãos sobre a boca e o pescoço, onde foi atingida, a olhar para o seu agressor com um olhar de terror. Alguns segundos depois, colapsa no chão, onde perdeu a vida, não obstante a chegada de uma equipa de emergência para acudi-la.

Por ser suspeito de perpetrar um homicídio com estas características, Decarlos Brown Jr. já enfrentava a possibilidade de enfrentar a pena de morte a nível estadual. No entanto, o caso passou também a ser investigado a nível federal — contando assim com o envolvimento do FBI — e o homem de 34 anos encontra-se perante uma acusação ainda mais grave de cometer um homicídio num sistema de transporte público, o que implica uma potencial condenação semelhante, escreve a agência Reuters. Sabe-se também que o agressor foi colocado sob observação psiquiátrica por ordem judicial durante um prazo de 60 dias.

A fugir da guerra e dos próprios demónios, Zarutska e Brown Jr. cruzaram-se

Após a morte de Iryna Zarutska, um obituário publicado online e uma página de angariação de fundos deram a conhecer ao público quem era a jovem mulher de 23 anos que perdeu a vida de forma tão violenta.

Segundo a família, Zarutska era uma “artista talentosa e apaixonada” que “compartilhava generosamente a sua criatividade, presenteando familiares e amigos com as suas obras de arte”. Para tal, licenciou-se em Arte e Restauro na sua Kiev natal, antes de fugir com a mãe, a irmã e o irmão da capital ucraniana em agosto de 2022 após a invasão russa em fevereiro desse ano.

Uma amiga revelou a um canal local, citado pela CNN internacional, que Zarutska e a família sobreviveram à invasão num bunker, refugiando-se então nos EUA, onde a jovem “rapidamente abraçou a sua nova vida”. De acordo com o seu obituário, a vítima tinha conseguido adaptar-se, “tornando-se fluente em inglês em muito pouco tempo” e estudando para tornar-se numa assistente veterinária. Ao mesmo tempo, trabalhava na Zepeddie’s Pizzeria de Charlotte, restaurante que deixou uma mensagem de pesar na sua conta oficial de Instagram. “Perdemos não só uma funcionária incrível, mas uma verdadeira amiga”, lê-se.

Go Fund Me de Iryna Zarutska

Zarutska, mulher “com um coração de ouro”, de “sorriso radiante” e “muito prestável e solidária”, não tinha como saber que tinha fugido dos horrores da guerra para encontrar o seu fim ao cruzar-se com Decarlos Brown Jr., um homem que também se encontrava em fuga, mas dos seus próprios demónios.

De acordo com os registos judiciais consultados pela CNN, Brown Jr. tem um longo cadastro criminal, tendo estado envolvido em 14 casos, o mais antigo dos quais remontando a 2011. Desde então, o homem já tinha sido encarcerado por infrações como ser apanhado em excesso de velocidade e crimes como furto qualificado e invasão de propriedade. Um dos últimos, contudo, foi dos mais graves, tendo ficado preso durante cinco anos por assalto com uma arma, tendo sido libertado em 2020.

Ao mesmo tempo, Brown Jr. — que se encontrava em situação de sem abrigo por altura do homicídio de Zarutska — já tinha sido diagnosticado com esquizofrenia, sofrendo de alucinações e estados de paranóia. Em declarações à estação norte-americana, Tracey Brown, irmã do suspeito, afirmou que este “não parecia ele mesmo” depois da libertação em 2020, tendo dificuldade em manter conversas simples e mostrando-se incapaz de assegurar um emprego.

Brown Jr. ter-se-á, inclusive, queixado de que o governo tinha instalado um chip no seu cérebro.“Uma pessoa que ouve vozes na cabeça e acredita que o mundo está contra si vai entrar em colapso. E acho que naquela noite isso aconteceu. Acho que ele teve um colapso mental, que ele simplesmente enlouqueceu”, contou à CNN. Como prova, diz que, ao confrontar o irmão com o homicídio e questionando os seus motivos, este respondeu “ela estava a ler a minha mente”.

A propensão de Brown Jr. para a violência já era conhecida, sendo que a irmã expulsou-o de casa em 2022 depois de a morder e arrancar uma porta das dobradiças. Após apresentar queixa, Tracey Brown, contudo, desistiu por medo de agravar o estado mental do irmão. “Eu sabia que ele estava a lutar contra algo, mas queria saber o que era”, assume.

Essa instabilidade mental tinha ficado patente no mais recente encontro com a justiça que protagonizou no início deste ano, quando foi acusado de uso indevido do número de emergência  911, um crime de delito comum, após supostamente ter pedido aos agentes que investigassem um material “artificial” que dizia ter-lhe sido instalado e que o controlava quando comia, caminhava e falava. Brown Jr. foi libertado sob a condição de que teria de comparecer a uma próxima audiência. Segundo a Associated Press, o seu defensor público, inclusive, pediu para que fosse submetido a um exame psicológico em julho, para determinar se seria capaz de contribuir para a sua própria defesa, mas tal nunca chegou a acontecer.

Fracasso do combate ao crime ou falência do sistema de saúde? As reações ao caso

Nos dias subsequentes à divulgação das imagens de videovigilância onde se vê claramente Brown Jr. a esfaquear Zarutska, começou a surgir uma reação por parte da direita conservadora do país, considerando o homicídio como o mais recente exemplo de crime violento a grassar em cidades lideradas por democratas e da tolerância por parte dos sistema judicial quanto a pessoas com reincidência criminal.

Donald Trump, o presidente dos EUA, foi uma das figuras a abordar diretamente o caso, primeiramente através de uma publicação na sua rede social Truth Social, onde classifica Brown Jr. como um “lunático mentalmente perturbado” e um “criminoso profissional bem conhecido”. “O que diabos estava ele a fazer a bordo do comboio e andando pelas ruas? Criminosos como esse precisam de estar presos. O sangue desta mulher inocente pode ser visto literalmente a escorrer da faca do assassino, e agora o sangue dela está nas mãos dos democratas que se recusam a colocar pessoas más na prisão, incluindo o ex-governador desacreditado e ‘aspirante a senador’ Roy Cooper”, acusou.

Num vídeo subsequente, Trump acusou “juízes, políticos e ativistas da esquerda radical” de adotarem uma política que classificou como “captura e libertação de bandidos e assassinos”, acusando os democratas de semear o caos nas cidades que governam. “Não podemos permitir que a criminalidade depravada e reincidente continue a espalhar a destruição e a morte pelo nosso país. Devemos responder com força e determinação. Devemos ser tão implacáveis como eles. É tudo o que eles entendem”, defendeu.

Tal reação, note-se, surgiu em concomitância com o desejo de Trump expandir a militarização do policiamento em cidades como fez a 11 de agosto quando invocou uma lei para mobilizar a Guarda Nacional para Washington DC. O Presidente dos EUA já ameaçou estender a militarização a outras cidades governadas por democratas, como Chicago, Nova Orleães ou Baltimore.

Os aliados políticos de Trump alinharam pela mesma bitola, com a procuradora-geral dos EUA Pamela Bondi a declarar em comunicado que irá lutar para que Brown Jr. sofra “a pena máxima para esse ato de violência imperdoável”. “Ele nunca mais verá a luz do dia como um homem livre”, prometeu, descrevendo ainda o “terrível assassinato” de Zarutska como o “resultado direto de políticas fracas contra o crime, que colocam os criminosos à frente das pessoas inocentes”. Já Stephen Miller, vice-chefe de gabinete de Trump, aproveitou o caso para acusar o Partido Democrata de estar “organizado em torno da defesa e proteção dos criminosos, dos monstruosos e dos depravados”.

No que toca à sociedade civil, os principais promotores do movimento MAGA (Make American Great Again), de extrema-direita, também encararam o caso como a falência das políticas de esquerda no país. Elon Musk, por exemplo, publicou no X que este homicídio devia servir para “mudar a lei” e “denunciar e expor os promotores e juízes que permitem assassinatos, violações e roubos”.

A última publicação de Charlie Kirk nessa mesma rede social — antes do seu assassinato acabar por ofuscar este caso e motivar reações semelhantes — foi sobre esta temática: “Se queremos que as coisas mudem, é absolutamente necessário politizar o assassinato sem sentido de Iryna Zarutska, porque foi a política que permitiu que um monstro selvagem com 14 antecedentes criminais estivesse livre nas ruas para matá-la”, reagiu.

Outros influencers do movimento MAGA, de resto, sugeriram que o crime teve motivação racial e afirmaram que Brown Jr. fez um comentário sobre Zarutska ser branca, apesar de as autoridades não terem sugerido isso nem o homicida ter sido acusado do crime de ódio.

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Este ataque, contudo, motivou também uma discussão diferente, no que toca à forma como problemas de saúde mental são abordados no país. Depois de ser alvo de duras críticas face à forma como lidou com o caso, a presidente democrata da Câmara de Charlotte, Vi Lyles, publicou um comunicado onde lamentava o que considerou ser “uma falha trágica dos tribunais e magistrados”. “Precisamos de uma solução bipartidária para lidar com os reincidentes que não enfrentam consequências por suas ações e aqueles que não conseguem tratamento para sua doença mental e são autorizados a permanecer nas ruas”, alertou.

Em declarações ao The Guardian, Sheryl Kubiak, reitora da faculdade de serviço social da Wayne State University, frisou que o caso do assassinato de Zarutska não é “apenas um problema de justiça criminal ou falta de ‘dureza no combate ao crime’” e que considerá-lo assim ofusca a “crise de saúde mental no país”, agravada pelos casos em que doentes são colocados em prisões sem condições para tratá-los.

Jeffrey Swanson, outro dos especialistas contactados pelo jornal britânico, refere que no cerne do problema está o facto de país não ter substituído o sistema de institucionalizações e asilos vigente nos séculos XIX e XX — e que entrou em desuso por ser considerado anacrónico e desumano — por uma alternativa viável. “Agora, provavelmente temos mais pessoas com doenças mentais graves em qualquer dia numa das nossas enormes prisões das grandes cidades, como a prisão do condado de Cook, em Chicago, ou a prisão do condado de Los Angeles, ou Rikers Island [em Nova Iorque], do que alguma vez tivemos nestes manicómios. E isso é realmente um escândalo”, critica.

É por este tipo de situações que a mãe de Brown Jr., Michelle Dewitt, lamenta que o “sistema lhe tenha falhado”, visto que já tinha tentado que o filho fosse alvo de uma ordem de internamento involuntário e já tinha tentado colocá-lo numa instituição a longo prazo, sem sucesso em qualquer um dos casos.

Numa entrevista ao canal ABC, Dewitt explicou como, tal como noutros casos de pessoas com doenças mentais aparentemente graves, Brown Jr. teve a oportunidade de receber tratamentos, mas recusou-os, tal como se negou a tomar medicação para a esquizofrenia. Dewitt — que, não sendo a guardiã legal do filho, não podia tomar estas decisões por ele — tentou que Brown Jr. fosse internado, mas o hospital respondeu-lhe que não podia “obrigar” uma pessoa a aceitar tratamentos.