Nunca se tinha visto nada assim, nunca mais se viu nada assim – pelo menos até agora, 15 anos depois. Nesse verão de 2010, LeBron James tomou uma das decisões mais difíceis ao longo da vida partindo da posição de free agent (ou seja, podia assinar por qualquer equipa). O base/extremo que saltara a faculdade para abraçar o sonho de chegar à NBA com um chorudo e histórico contrato assinado com a Nike tinha tudo em Cleveland: era a equipa da sua cidade, contava com uma legião de fãs que rapidamente o transformaram num autêntico ícone, continuava a bater recordes. Tudo não, quase tudo. Faltava-lhe um título, o de campeão da NBA. Sete anos depois, os Cavaliers continuavam sem assegurar essa capacidade de ir à luta. LeBron mudou-se.

Um jogador, uma estrela, um recordista: LeBron James, o primeiro bilionário que nunca perdeu a consciência social

Ainda assim, como em tudo o que faz na vida, não foi apenas uma “mudança”. O jogador que tinha então 25 anos sentou-se numa cadeira e gravou com o jornalista Jim Gray uma entrevista de 45 minutos (contando com todos os anúncios que teve pelo meio) que se tornou um “programa” da ESPN com nome e tudo: “The Decision”. Todos os valores negociados, do atleta aos patrocínios, reverteram para causas sociais mas a NBA conheceu um novo capítulo com o jogador que se tornaria o melhor marcador de todos os tempos, com o anúncio a ser transmitido em direto como um happening que mais nenhum conseguiria proporcionar.

Este outono… Isto é muito difícil para mim… Este outono, vou levar os meus talentos para South Beach e juntar-me aos Miami Heat. Sinto que me dará a melhor oportunidade de ganhar, e até ganhar durante vários anos, e não apenas vencer a época regular e alguns jogos seguidos. Quero poder ganhar campeonatos. E sinto que posso competir lá”, explicou na altura LeBron James.

Essa vontade concretizou-se, com o tridente formado com Dwayne Wade e Chris Bosh a encaixar de forma perfeita para a conquista dos títulos de 2012 e 2013. Aí, sem anúncios, sentiu que estava na altura de voltar a casa, assumindo todas as críticas que ouviu numa primeira fase, em 2014, para convencer de novo toda a sua legião de fãs e concretizar o sonho de ser campeão pelo Cavaliers. Dois anos depois, Cleveland saiu em massa à rua para festejar a conquista do tão desejado título da NBA. A partir daí, LeBron James sentiu quase que tinha pago a “dívida de gratidão” e que poderia olhar de outra forma para a carreira. Mais uma vez sem qualquer anúncio na TV, mudou-se em 2018 para Los Angeles para representar os Lakers. Foi campeão pela quarta vez na NBA em 2020, em plena pandemia da Covid-19 com uma fase final organizada em Las Vegas com todos os cuidados, bateu mais recordes, cumpriu o outro desejo de jogar com o filho, Bronny.

40 anos de LeBron James, o “freak da natureza” que ainda não parou — e continua a bater recordes

Aos 40 anos, não houve nada que ficasse por fazer. Claro que LeBron gostaria de ter ganho mais títulos, de ter feito ainda mais pontos, de ter conquistado ainda mais medalhas de ouro olímpicas do que as três que assegurou em Pequim, Londres e Paris. Basicamente, do alto dos seus 2,03 metros que pareceram sempre mais e daquela barba densa que se tornou uma imagem de marca ao longo dos anos entre os pelos grisalhos que foram aparecendo, justificou o porquê de ser King James. Foi com essa coroa que esta segunda-feira fez um remake do “The Decision”, neste caso com o nome “The Second Decision” e a explicação de que seria “a decisão de todas as decisões”. Até às 17h em Portugal desta terça-feira, tudo ficará ansioso à espera.

De forma quase natural, todos os primeiros comentários apontavam para o anúncio do fim da carreira no final da temporada (antes, até pela possibilidade de fazer a primeira época completa com Luka Doncic a seu lado, não era provável). No entanto, e de forma rápida, outras teorias foram ganhando terreno, sobretudo uma que recordava o milionário acordo que LeBron James fez com a Amazon (e com o Prime Day a ter início neste dia). Fica agora tudo à espera para saber o que está em causa depois dessa demonstração de amor ao jogo que o base/extremo deixou no dia aberto à comunicação social na pré-temporada dos LA Lakers.

“Estou animado com a oportunidade de poder jogar o desporto que amo por mais uma temporada. Seja qual for o caminho que esta jornada me reserve, estou totalmente empenhado porque não sei quando será o fim. Está mais próximo do que longe mas estou muito grato por poder estar aqui mais uma vez. O que ainda me motiva é o facto de o meu amor pelo jogo continuar forte. O gosto pelo processo é ainda maior. É simples: treinar, cuidar do meu corpo e tentar deixá-lo o mais próximo possível dos 100% todos os anos, isso é maravilhoso para mim. A época da NBA é uma verdadeira montanha-russa. Mas independentemente dos altos, baixos ou momentos difíceis, continuo a adorar esse processo”, comentou na semana passada.

[Há um novo candidato a Belém. Soares fica em choque com o anúncio do amigo que considera irmão. Freitas elege Zenha como principal adversário. A “Eleição Mais Louca de Sempre” é o novo Podcast Plus do Observador sobre as Presidenciais de 1986. Uma série narrada pelo ator Gonçalo Waddington, com banda sonora original de Samuel Úria. Pode ouvir aqui, no Observador, e também na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E pode ouvir o primeiro episódio aqui.]