O centro de dados de Sines vai receber no próximo ano 12.600 unidades de processamento gráfico (GPU) da gigante Nvidia, que chegarão através da britânica Nscale. Será a primeira vez que os Blackwell Ultra GB300 da Nvidia, os chips de última geração para o desenvolvimento de inteligência artificial (IA), serão instalados na União Europeia, revelam a Start Campus e a Nscale em comunicado.

Este anúncio resulta de uma parceria firmada entre a Nscale e a tecnológica Microsoft — que irá tirar partido da infraestrutura de inteligência artificial (IA) que está associada à instalação destes recursos mais avançados. A Microsoft tem várias soluções de IA no seu portefólio — o Copilot é um dos exemplos.

A Nscale, que se afirma como uma “plataforma global de IA nativa com sede na Europa”, explica que escolheu Portugal e o centro de dados da Start Campus pela “localização estratégica, capacidade de entrega e possibilidade de expansão”. Esta instalação entrará em operação no primeiro trimestre de 2026, revelam as empresas.

Vai ser implementada em Sines a plataforma GB300 NVL72 da Nvidia, anunciada em março deste ano. No site da Nvidia é explicado que esta plataforma, que “integra 72 GPU Blackwell Ultra e 36 CPU Grace [unidades central de processamento, o ‘cérebro’]”, está especialmente concebida para fábricas de IA e tarefas ligadas ao desenvolvimento desta tecnologia.

Nenhuma das entidades envolvidas revela o valor de investimento. No entanto, segundo uma estimativa dos analistas do HSBC, uma plataforma GB300 NVL72 da Nvidia poderá custar até três milhões de dólares (2,58 milhões de euros). 

E, por outro lado, o Financial Times recorda um contrato entre as duas entidades para a implementação de 52 mil GPU da Nvidia na Noruega, indicando que teve um valor aproximado de 6,2 mil milhões de dólares (5,3 mil milhões de euros). Usando este montante, que consta de um comunicado de setembro, os 12.600 GPU em Portugal poderiam representar valores na ordem de 1,5 mil milhões de dólares (1,3 mil milhões de euros).

Não é, para já, claro quanto deste valor de investimento é que passará por Portugal, além da instalação dos chips no país. A Nscale é uma empresa sediada no Reino Unido; já a Microsoft é uma entidade norte-americana. O Observador questionou a Nscale sobre se foi constituída alguma entidade em Portugal para este tema. A Microsoft também foi contactada para perceber se o anúncio se limita à Microsoft internacional ou se há algum envolvimento da subsidiária portuguesa, a Microsoft Portugal. Aguarda respostas de ambas.

Qual é o papel de cada uma das entidades neste anúncio?

Start Campus

A Start Campus, responsável pelo centro de dados de Sines, é a entidade que vai disponibilizar o espaço físico para a instalação das plataformas com chips.

Esta implementação da Nscale ficará no edifício SIN01, o primeiro de um complexo de edifícios que, no total pretende atingir 1,2 gigawatts de capacidade até 2030. A Start Campus revela que, com a operação agora anunciada, o SIN01 ficará completo. “Com esta parceria, o nosso primeiro edifício SIN01 atinge a sua capacidade máxima, já se encontrando em expansão devido à elevada procura, e comprovando que o Sines Data Campus é um exemplo de sucesso a nível mundial, preparado para receber volumes de trabalho de IA de última geração”, diz em comunicado Robert Dunn, CEO da Start Campus.

“Temos muito orgulho nesta colaboração notável em parceria com a Nscale e a Nvidia”, continua. Com o SIN01 totalmente ocupado, a Start Campus revela que pretende lançar “em breve” o próximo edifício do campus de dados, o SIN02, com capacidade de 180 MW. Contactada pelo Observador, a empresa afirma que “se está a preparar para o início das obras”. “Antecipamos que o edifício esteja preparado para clientes em 2027. Será substancialmente maior que o SIN01, com 180 MW e 65 mil metros quadrados.” Em comparação, o primeiro edifício tem capacidade para 30 MW e 16 mil metros quadrados.

O projeto do centro de dados de Sines foi apresentado em 2021, primeiro como um investimento de 3,5 mil milhões de euros. À época, Eurico Brilhante Dias, então secretário de Estado da Internacionalização, classificou o projeto como “o maior investimento estrangeiro captado pelo país desde a Autoeuropa”.

Já no ano passado, a Start Campus revelou novos números de investimento, elevando o valor para 8,5 mil milhões de euros. Quando todos os edifícios estiverem concluídos, o campus deverá ter seis unidades. O centro de dados recorre a energia renovável e a um sistema de arrefecimento para ser mais sustentável.

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A Start Campus foi fundada em 2020, anunciando no ano seguinte o projeto do megacentro de dados de Sines. Em 2023, a empresa foi constituída arguida na operação Influencer, que levou à demissão de António Costa do cargo de primeiro-ministro e à queda do Governo socialista.

Em novembro de 2023, o Departamento Central de Investigação e Ação Penal (DCIAP) revelou que estava a investigar vários negócios, direta ou indiretamente, ligados às energias renováveis: as concessões de exploração de lítio nas minas em Montalegre e em Boticas, um projeto de central de produção de energia a partir de hidrogénio em Sines e ainda a construção pela Start Campus do centro de dados em Sines.

Na altura da investigação, foram detidos dois responsáveis da empresa: Afonso Salema, então CEO da Start Campus, e Rui Oliveira Neves, advogado e administrador da Start Campus, responsável pelas área jurídica e pela área da sustentabilidade.

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Afonso Salema renunciou ao cargo em novembro de 2023, com Robert Dunn a assumir o cargo de CEO. Na altura, Dunn já estava ligado à área de engenharia e conceção do projeto; a Start Campus declarou que estava empenhada em continuar com o projeto em Portugal. Em novembro de 2024, um ano após a investigação Influencer, o centro de dados iniciou as operações com uma unidade com capacidade de 14 megawatts.

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Nscale

A britânica Nscale é a empresa que tem uma parceria com a Microsoft para instalar estes chips adquiridos à Nvidia. A empresa já tinha um acordo com a Microsoft, que agora se expandiu para incluir o centro de dados de Sines.

Em setembro, as duas anunciaram um contrato para desenvolver um supercomputador de IA no Reino Unido, no campus de Loughton. Neste caso, vão ser instalados aproximadamente 23 mil GPU GB300 da Nvidia, mas só no primeiro trimestre de 2027. Há ainda outro projeto para instalar aproximadamente 52 mil GPU do mesmo modelo num campus em Narvik, na Noruega, resultante de uma joint-venture entre a Aker e a Nscale.

Mas a expansão não abrange apenas a Europa. Ao todo, a Nscale vai implementar quase 200 mil chips da Nvidia: além dos 12.600 em Portugal, está ainda previsto instalar mais 104 mil GPU da Nvidia num campus de IA no Texas, a partir do terceiro trimestre de 2026. Nesse caso, o espaço é disponibilizado pela Ionic Digital, uma empresa de infraestrutura digital e mineração de criptomoedas.

A Nscale está sediada em Londres e é uma hyperscaler (operador de larga escala na cloud) focada em infraestrutura de IA. Mas, na origem, em 2018, tinha outro propósito: estava ligada à área da mineração de bitcoin, nota o Financial Times. À boleia da sede por infraestrutura para desenvolver IA, mudou a área de negócio e tem conquistado o apoio de algumas das maiores tecnológicas do mundo.

Segundo o site da empresa, a Nscale tem na lista de investidores nomes como a Nvidia, a Nokia, a Dell, a Aker, a Sandton Capital Partners, a Point72, a G Squared ou a Fidelity Investments.

Pelas contas do Financial Times, só no último mês a Nscale angariou um financiamento de 1,5 mil milhões de dólares, o equivalente a 1,29 mil milhões de euros, estando avaliada em cerca de 3 mil milhões de dólares (2,6 mil milhões de euros). Em setembro, o CEO da Nvidia, Jensen Huang, anunciou um investimento de 500 milhões de libras (575 milhões de euros) na startup britânica. O anúncio foi feito durante a visita presidencial de Donald Trump ao Reino Unido.

Na sequência deste anúncio da parceria com a Microsoft, o CEO da Nscale afirmou ao Financial Times que a empresa “tem ambições de entrar em bolsa”. O CEO, Josh Payne, afirma “ter um enorme foco na execução” de todos os projetos anunciados até agora, esperando que isso se reflita numa entrada em bolsa “no fim do próximo ano”.

Microsoft

A Microsoft vai ser a empresa que irá tirar partido da capacidade destes novos chips para a infraestrutura de IA. Em resposta ao Observador, a Nscale concretiza que esta capacidade de computação anunciada “será exclusivamente usada pela Microsoft”.

Jon Tiner, presidente de desenvolvimento de negócio da Microsoft, afirma em comunicado que o acordo feito com a Nscale “demonstra o compromisso de garantir que os produtos estão disponíveis globalmente e com a escalabilidade em mente”.

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Governo português e AICEP satisfeitos com projeto

O comunicado da Start Campus atribui também declarações a dois governantes portugueses: Manuel Castro Almeida, ministro da Economia e Coesão Territorial, e Miguel Pinto Luz, ministro das Infraestruturas e Habitação.

Castro Almeida afirma que “este investimento em Sines confirma a confiança internacional em Portugal como destino de inovação e tecnologia, reforçando a nossa posição na economia digital global e criando condições para atrair talento e investimento de elevado valor acrescentado”. No comunicado da Start Campus, o ministro fala num “exemplo claro de como o país pode liderar na transição para uma economia mais verde e inteligente”.

Já Miguel Pinto Luz afirma que esta instalação de chips em Portugal “exemplifica dois aspetos fundamentais na estratégia de desenvolvimento de políticas públicas em torno de infraestruturas críticas”. “Em primeiro lugar, é importante salientar que a governação deve ser feita considerando as gerações futuras e garantindo a sustentabilidade a longo prazo das políticas públicas. Em segundo lugar, Sines demonstra a convergência da transição digital com a posição geográfica única de Portugal, particularmente nesta localização, que desempenha um papel geoestratégico relevante ao tornar-se um centro digital líder para a futura colocação de novos cabos submarinos.”

Também a AICEP reagiu a este contrato, afirmando que o investimento, classificado como “Projeto de Potencial de Interesse Nacional”, “reforça o papel de Portugal como hub digital europeu, integrando o país na vanguarda das infraestruturas tecnológicas que suportam o desenvolvimento da IA contribuindo para a atração de investimento estrangeiro de elevado valor acrescentado, em linha com a estratégia nacional de transição digital e energética”.

“A parceria entre a Start Campus e a Nscale para instalar em Portugal a primeira e maior colocação europeia de processadores Nvidia é o reconhecimento da capacidade do país em oferecer condições únicas de competitividade, sustentabilidade e conectividade”, diz Madalena Oliveira e Silva, presidente da AICEP. “É também um exemplo de como o trabalho conjunto entre o Estado, as empresas e a AICEP pode transformar oportunidades em resultados concretos para a economia portuguesa.”