No rescaldo da morte de Francisco Pinto Balsemão esta terça-feira aos 88 anos, têm-se somado várias reações e manifestações públicas de pesar por parte de figuras ligadas ao império mediático que ajudou a construir.

Uma das mais destacadas trata-se de Ricardo Costa, membro da administração do grupo Impresa e que aí fez carreira, primeiro como jornalista no Expresso e depois assumindo cargos de direção nesse semanário e na SIC e SIC Notícias.

Em declarações à Rádio Observador, Costa destacou o seu legado de exigência, já que Balsemão era capaz de ser “muito duro” na revisão do Expresso à segunda-feira, mas principalmente de “liberdade total”, algo que “já era um ponto assente” quando integrou a redação em 1989.

A maior expressão dessa liberdade editorial Balsemão que ajudou a semear, frisa Ricardo Costa, foi quando abandonou o Expresso para fazer parte do governo de Francisco Sá Carneiro, em 1979, e depois sucedeu-o enquanto primeiro-ministro do país, sendo que este jornal acabou por ser o “mais duro do ponto de vista sistemático” para com a sua governação.

“Essa liberdade estava lá e foi sempre cultivada por ele, como jornalista e como diretor, e depois isso perdurou. Portanto, era uma questão que era um dado adquirido, eram as regras da casa”, sublinha, destacando ainda que essa postura fez escola em Portugal noutros órgãos de comunicação social que entretanto surgiram. “A SIC e o Expresso não são donas de nada. Ou seja, a liberdade editorial pode existir em qualquer lado. O que eu acho é que não teria existido em Portugal da mesma forma e tão espalhada se não tivesse sido Francisco Balsemão”, completou.

“A liberdade estava lá e foi sempre cultivada por Balsemão”

Já Henrique Monteiro, diretor do Expresso entre 2005 e 2011, considerou a sua morte “o fim de uma época” para a classe jornalística. “Crescemos, vivemos, somos relevantes como jornalistas graças à liberdade que Francisco Balsemão conseguiu para nós”, disse, destacando ainda o seu percurso político e o que as suas conquistas significaram para o país. “Foi um homem que sempre acreditou na sociedade civil, mais do que no Estado. Era um verdadeiro social democrata”, afirmou.

Outra figura a ter ocupado cargos diretivos no Expresso, Joaquim Vieira, recorda “marca enorme” deixada por Balsemão, sendo que “acaba de morrer um grande”. Vieira, que foi jornalista no semanário e foi diretor-adjunto entre 1989 e 1993, descreve Balsemão como “personagem que ultrapassou, e muito, a sua circunstância”. “Podia ser apenas alguém que viveria dos seus confortáveis rendimentos, mas, ao invés, interveio profundamente na sociedade, construindo e deixando uma marca enorme nas áreas da comunicação social e da política”, escreveu numa publicação no Facebook, acompanhada da imagem da capa da biografia não autorizada que escreveu sobre Balsemão e que, inclusive, levou este a processá-lo. A propósito desse livro, recorda que “foi meu patrão durante década e meia, não tivemos uma relação fácil e ele detestou esta biografia (que também não escrevi para lhe agradar, e que o levou a pôr-me em tribunal), mas isso são contas de outro rosário”.

Outra jornalista ligada à SIC, Alberta Marques Fernandes, recorreu ao X para afirmá-lo como “um homem com visão”. Atualmente ligada à RTP, a jornalista comandou a primeira emissão da SIC em 1992 e foi uma das caras do canal até 2001. “Morreu Pinto Balsemão. Um homem com visão que fundou o Expresso e a SIC. Educadíssimo, sempre me tratou com respeito. A escolha de Emídio Rangel fez o enorme sucesso na SIC”, destacou.

Também presente na génese da SIC, mas mantendo-se no canal como jornalista e pivô da SIC desde então, Rodrigo Guedes de Carvalho disse sentir-se “mais do que nunca afortunado”. “Vivi uma era de ouro do jornalismo português e tive a fortuna rara de trabalhar para Francisco Pinto Balsemão. Foi muito mais do que o meu patrão, fomos amigos”, afirmou em direto à estação televisiva, assinalando ainda que “há uma certa idade do jornalismo que morreu hoje.”

Outra das caras noticiosas da SIC, Clara de Sousa, pivô do canal desde 2000, optou por partilhar uma fotografia no Instagram, onde surge ao lado do fundador do Grupo Impresa no palco dos Globos de Ouro, gala que apresenta há cinco anos. “Tantos momentos partilhados. Tanta liberdade para pensar e para questionar. Hoje não vou usar de muitas palavras. Fica apenas a gratidão. Pelo exemplo. Pela coragem. Por ter feito da liberdade um princípio e por ter fundado esta casa onde nunca deixámos de ser livres. Foi muito mais do que o nosso ‘patrão’. Foi um homem que mudou o país e as nossas vidas. Obrigada”.

As qualidade de chefia de Francisco Pinto Balsemão foram também destacadas por Miguel Sousa Tavares, ex-jornalista com mais do que uma passagem na SIC e que mantém um colunista do Expresso, sendo perentório nas suas declarações à estação: “Foi o melhor patrão que tive até hoje. Não apenas no jornalismo, mas em tudo o resto”. Além de mencionar o seu papel como “um dos fundadores do regime democrático”, Sousa Tavares defendeu ainda que Balsemão não mantinha o grupo Impresa por sede de poder, “para ser Presidente da República” ou “para controlar o que quer que fosse”. “Não, o que o movia era a paixão pelo jornalismo”, declarou.

Já Maria João Avillez — colunista do Observador que foi jornalista  do Expresso e da SIC durante várias décadas, atualmente fazendo comentário para a estação televisiva — destacou como Balsemão tinha “um grande amor pelo jornalismo”, tendo-lhe dedicado também um perfil com o título “Balsemão, um príncipe do jornalismo e da política”.

Balsemão, um príncipe do jornalismo e da política

Por seu lado, a jornalista e escritora Clara Ferreira Alves, membro do programa de comentário Eixo do Mal, classificou Balsemão como “uma personagem única” que “traçou um caminho único no jornalismo português”. Os seus colegas de painel Daniel Oliveira e Pedro Marques Lopes também tomaram posições públicas, com o primeiro a afirmar que Balsemão “não caiu na imprensa. Era da imprensa”. “A liberdade que respiro há 20 anos na SIC e no Expresso (total, apesar da distância política) teve um cultor: Francisco Pinto Balsemão”, escreveu no X. Já o segundo considerou Balsemão ““um grande”, sendo que “os media que fundou foram e são um espaço de liberdade e ele o principal promotor dessa liberdade”. “O país deve-lhe muito”, termina.

“Tanta vida, tanto mundo, tanta obra.” Passado e presente do entretenimento na SIC reage também

Daniel Oliveira, diretor de programas da SIC, referiu que o legado de Balsemão “será continuado”. Recorrendo às redes sociais, disse que o exemplo, a visão, o charme e humor de Balsemão serão sempre lembrados. “Portugal perdeu o Homem, mas o legado de Francisco Pinto Balsemão perdura e será continuado. A família perde o pai, mas não as memórias e o amor. A SIC perdeu o fundador, mas o seu exemplo, a sua visão, o seu charme e humor serão lembrados. Eu perdi um amigo”, escreve.

Uma das mais célebres caras da estação televisiva, Bárbara Guimarães, apresentadora da SIC que se manteve sempre ligada contratualmente à Imprensa e esteve, inclusive, à frente de 21 galas dos Globos de Ouro, destacou a importância de Francisco Pinto Balsemão para a sua carreira. “Lealdade. Parte da minha historia foi feita consigo”, destacou, juntamente com uma fotografia com o fundador da estação.

Outro dos pesos pesados da estação, Fátima Lopes, diz que Portugal “tem muito a agradecer a Francisco Pinto Balsemão. Um visionário, um pioneiro, um sonhador e um empreendedor. Um verdadeiro democrata”, escreveu numa publicação no Instagram. A apresentadora, que começou a sua carreira na televisão na SIC em 1994 e entretanto regressou a este canal em 2021, sublinha que a “história da democracia não se escreve sem o seu nome. E a história da comunicação social em Portugal tem um antes e um depois da intervenção de Francisco Pinto Balsemão”. Admitiu ainda que profissionalmente deve muito a Balsemão: “a confiança permanente no meu trabalho e no meu talento. Nunca esquecerei a forma cuidada como sempre me tratou”.

Liliana Campos, por sua vez, agradeceu no Facebook a Francisco Pinto Balsemão “por tudo e por tanto”, sublinhando que “contribuiu e muito para deixar um Mundo melhor”. “Vou guardar no meu coração as nossas gargalhadas , o seu cavalheirismo e no meio da sua vida tão ocupada ter tempo para me enviar uma mensagem de parabéns, ou responder aos meus emails”, acrescentou, deixando o seu “mais sincero abraço a toda a família”. João Baião foi mais lacónico na sua homenagem, partilhando uma fotografia de Balsemão tendo como legenda dois emoji de coração partido.

A perda de Francisco Pinto Balsemão, no entanto, foi também assinalada por figuras que já não estão ligadas à SIC, apesar de parte do seu percurso ter passado por este canal. É o caso de Catarina Furtado —  apresentadora de destaque da RTP mas que começou a carreira na SIC, onde apresentou Chuva de Estrelas —, que prestou uma homenagem a Francisco Pinto Balsemão. “Obrigada por tudo. Pessoalmente e profissionalmente”, escreveu, junto de uma fotografia da capa da biografia do antigo primeiro-ministro.

“Tanta vida, tanto mundo, tanta obra”, escreveu Herman José numa publicação no Instagram, acompanhada de uma capa da revista Caras de 1995 onde o humorista e apresentador surge ao lado de Balsemão. “Por tanto anos de humor na SIC, a minha gratidão”, realçou, por seu lado, a comediante Maria Rueff.