Michael Smuss, o último sobrevivente da Revolta do Gueto de Varsóvia que lutou contra as tropas nazis durante a Segunda Guerra Mundial, morreu esta terça-feira aos 99 anos. A informação foi avançada pela Associated Press, que citou a mulher do nonagenário.

Nascido em 1926 na então Cidade Livre de Danzig, atualmente Gdańsk, na Polónia, Michael Smuss cresceu em Łódź e mais tarde mudou-se para Varsóvia. Em 1940, foi forçado, juntamente com milhares de judeus, a viver confinado no Gueto de Varsóvia, um espaço rodeado de muros onde cerca de 380 mil pessoas foram inicialmente enclausuradas e que chegou a acolher meio milhão de prisioneiros em condições desumanas.

Durante a ocupação nazi, Smuss juntou-se à resistência judaica, integrando um grupo clandestino liderado por Mordechai Anielewicz. Segundo os relatos de familiares citados pela Associated Press, enquanto trabalhava a reparar capacetes usados por soldados alemães, Michael conseguiu acesso a um solvente químico que também servia para fabricar explosivos artesanais. Roubou quantidades significativas dessa substância e entregou-as aos combatentes do gueto, que a utilizaram para preparar cocktails Molotov.

“Enchíamos garrafas e colocávamo-las nos telhados das casas próximas da entrada do gueto, prontos para as lançar quando os alemães entrassem“, recordou o próprio Smuss num testemunho gravado há três anos para o Sumter County Museum, na Carolina do Sul, Estados Unidos.

Quando as tropas nazis invadiram o gueto, a 19 de abril de 1943, com o objetivo de o destruir completamente, centenas de judeus pegaram em armas numa luta desesperada. Nessa manhã, Smuss lançou cocktails Molotov a partir dos telhados, tentando travar o avanço das forças alemãs. O combate prolongou-se durante quase um mês e ele foi um dos poucos a sobreviver.

Depois de ter sido capturado, Smuss foi deportado para o campo de extermínio Treblinka, mas acabou por ser desviado pelos próprios nazis, que necessitavam de mão de obra. Passou por vários campos de trabalho forçado e conseguiu sobreviver a uma das marchas da morte na primavera de 1945.

Terminada a guerra, emigrou para os Estados Unidos, onde constituiu família, antes de se fixar em Israel. Foi aí que iniciou um percurso artístico, utilizando a pintura como forma de enfrentar e transformar a dor do passado. Conheceu a sua segunda esposa, Ruthy, e começou a expor os seus trabalhos, viajando inclusivamente para a Alemanha, onde partilhava a sua história em escolas — perante os descendentes daqueles que o tinham perseguido no passado.

Smuss manteve até ao fim um espírito vivo e um humor contagiante, como recordou Paul Diedrich, um membro da família que mora na Alemanha e passou alguns meses com o nonagenário em Israel no início deste ano. “Apesar de tudo o que viveu, conservou um sentido de humor inconfundível. Ria-se comigo mesmo aos 99 anos”, sublinhou.

O funeral de Michael Smuss decorrerá esta sexta-feira, dia 24 de outubro, em Jerusalém, Israel.

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