As gigantes aeroespaciais europeias Airbus, Leonardo e Thales anunciaram esta quinta-feira um acordo preliminar para fundir as suas atividades no setor espacial, com o objetivo de criar um verdadeiro “gigante europeu” — uma ambição antiga da presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen.
De acordo com o comunicado conjunto, citado pelo Politico, o projeto prevê a formação de uma nova empresa avaliada em cerca de 6,5 mil milhões de euros e irá ter um total de 25 mil trabalhadores distribuídos por vários países europeus. As três empresas afirmaram que o grupo será “um líder europeu no domínio espacial”.
A iniciativa, que tem como nome provisório “Projeto Bromo” (em referência a um vulcão na Indonésia) e tem como propósito competir com a norte-americana SpaceX, de Elon Musk, cuja constelação de satélites em órbita baixa, conhecida como Starlink, domina atualmente o mercado.
O “Projeto Bromo” reunirá, construirá e desenvolverá “um portfólio abrangente de tecnologias complementares e soluções completas, desde infraestrutura espacial até serviços”, refere, também, o comunicado. Estima-se que cinco anos após a conclusão da operação, prevista para 2027, o grupo possa gerar sinergias anuais no valor de “várias centenas de milhões de euros“.
A nova empresa ficará sediada em Toulouse e conta com a participação de França, Itália, Alemanha, Espanha e Reino Unido. Para preservar os interesses de soberania de cada país, a estrutura será repartida em cinco entidades jurídicas distintas, à semelhança do modelo de governação da fabricante de mísseis MBDA.
Quanto ao capital, este será dividido entre as três empresas: a Airbus deterá 35% das ações, enquanto a Leonardo e a Thales possuirão 32,5% cada. Segundo um porta-voz da Airbus, haverá um único diretor executivo — ainda por designar — e um diretor-geral responsável por cada país participante.
O ministro da Economia francês, Roland Lescure, saudou a iniciativa. “A criação de um campeão europeu em satélites aumentará o investimento em investigação e inovação neste setor estratégico e, assim, reforçará a nossa soberania num contexto de intensa concorrência global”, afirmou o governante numa publicação na Bluesky.
Cet accord de rapprochement est une excellente nouvelle. La création d’un champion européen des satellites permet d’augmenter les investissements de la recherche et de l’innovation dans ce secteur stratégique et ainsi renforcer notre souveraineté ???????? dans un contexte de compétition mondiale intense.
— Roland Lescure (@rolandlescure.bsky.social) 2025-10-23T06:29:38.419Z
Por seu turno um porta-voz do Ministério da Economia alemão limitou-se a dizer que Berlim acompanha “com grande interesse” o processo de consolidação da indústria aeroespacial europeia.
Curiosamente, França e Alemanha têm sido das vozes mais insistentes na defesa da criação de “campeões continentais”, capazes de competir com gigantes norte-americanos e chineses. Nas últimas semanas, vários líderes empresariais dos dois países apelaram a Bruxelas para flexibilizar as regras de concorrência e facilitar fusões estratégicas.
Acordo a três ameaça criar um “monopólio prejudicial” para a indústria europeia
O acordo das três empresas dependerá, no entanto, da aprovação da Direção-Geral da Concorrência da Comissão Europeia (DG Comp), que terá de equilibrar as suas normas atuais sobre fusões com o desejo político de promover gigantes industriais europeus.
A nova empresa deverá competir com empresas estrangeiras no setor dos satélites de telecomunicações comerciais, mas enfrentará pouca concorrência em concursos públicos e militares da União Europeia, como os da Agência Espacial Europeia (ESA).
Rolf Densing, diretor de operações da ESA, expressou preocupação, uma vez que este negócio pode limitar as opções da agência na atribuição de contratos para satélites. Também Marco Fuchs, presidente executivo da alemã OHB, alertou para o facto de que a fusão ameaça criar um monopólio que prejudicaria os clientes e a indústria europeia.
Se o projeto receber luz verde, poderá marcar o início de uma nova era na corrida espacial europeia e ser uma resposta direta e ambiciosa ao domínio de Elon Musk.