Espanha prestou esta quarta-feira uma homenagem às 237 vítimas das inundações que há exatamente um ano devastaram a região de Valência. O funeral de Estado, realizado no Museu das Ciências, contou com a presença dos reis Felipe VI e Letizia e de centenas de familiares das vítimas. O ambiente foi, no entanto, perturbado por protestos e gritos dirigidos ao executivo regional da Comunidade Valenciana, Carlos Mazón, acusado de negligência na resposta à tragédia.
O desastre ocorreu a 29 de outubro de 2024, quando uma depressão isolada de altos níveis, conhecida como DANA ou “gota fria”, se formou no sul da Península Ibérica, provocando chuvas de grande intensidade. Em apenas um dia, o interior da região de Valência registou valores de precipitação entre os mais elevados alguma vez medidos na Europa. A tempestade afetou uma área de mais 550 quilómetros quadrados, 75 municípios e cerca de 306 mil habitantes. De acordo com os dados oficiais, morreram 229 pessoas na Comunidade Valenciana, sete em Castela-La Mancha e uma na Andaluzia.
Durante a cerimónia desta quarta-feira, que se realizou às 18h00 (17h00 em Lisboa), o Rei Felipe VI dirigiu-se às famílias das vítimas, afirmando que “o que aconteceu naquele dia, naquela noite, e o que se seguiu, traz à tona memórias incrivelmente difíceis“.
“Tentei colocar-me no vosso lugar, imaginar o que poderia dizer, e não há palavras perfeitas. Sei apenas que existe um sentimento de sincera tristeza que me une, que nos une a vós, e que vos acompanha com todo o meu amor na vossa dor”, sublinhou. O monarca apelou, ainda, à necessidade de continuar a “analisar as causas e circunstâncias da tragédia” para reforçar a capacidade de resposta em futuras catástrofes.
Pouco antes da chegada dos reis, Carlos Mazón foi recebido com gritos de “assassino” e “cobarde” por vários familiares das vítimas, que o acusaram de negligência na gestão das inundações, noticiou o El País. Nas semanas anteriores, várias pessoas tinham pedido ao dirigente regional que não marcasse presença no funeral. A revolta dos familiares tem como base notícias que revelaram que, nos momentos de emergência, Mazón terá permanecido quase quatro horas num restaurante em vez de coordenar a resposta às cheias.
Horas antes da cerimónia, cerca de mil pessoas marcharam entre o Palau da Generalitat e o restaurante El Ventorro, onde Mazón se encontrava durante a tragédia. “Enquanto ele comia, as pessoas afogavam-se“, gritavam os manifestantes, que tinham cartazes a exigir a sua demissão. Beatriu Cardona, porta-voz da plataforma Acord Social Valencià, responsável pela organização do protesto, afirmou ao El País: “Mazón fez este percurso quando não devia, quando tinha de estar a trabalhar, mas ninguém do Palau da Generalitat nem dos seus companheiros de partido o foi buscar”. Os manifestantes pediram também aos trabalhadores do restaurante que colaborem com as autoridades responsáveis pela investigação para esclarecer “tudo o que se passou naquele 29 de outubro”.
“Mientras él comía, la gente se ahogaba”. Unas mil personas se han concentrado a las puertas del restaurante El Ventorro, donde Carlos Mazón mantuvo una comida de casi cuatro horas durante la tarde de la dana https://t.co/AtvywmYIWI
???? Ferrán Bono pic.twitter.com/HWzNkTYaCw
— EL PAÍS (@el_pais) October 29, 2025
A polémica em torno da atuação das autoridades no dia das grandes cheias mantém-se. A Agência Estatal de Meteorologia (Aemet) tinha emitido um aviso vermelho para a região de Valência logo às 07h00, mas o alerta da proteção civil — que é dependente do governo regional — só chegou aos telemóveis da população às 20h11, quando muitas localidades já estavam submersas.
Maioria das vítimas das cheias em Espanha morreu antes de alerta da proteção civil
A maioria das vítimas morreu antes de receber qualquer alerta da proteção civil, segundo um relatório que aponta falhas graves na resposta das autoridades. A falta de comunicação e as informações contraditórias tornaram Mazón o principal alvo de críticas. Desde então, Valência registou 12 manifestações que pedem a sua demissão.