“O Presidente tem-se focado em assuntos críticos, como pavimentar o jardim das rosas para que as pessoas não tenham lama nos sapatos e cobrir a sala de oval de ouro e construir um salão de baile de 300 milhões de dólares”. O sarcasmo, utilizado como arma contra as prioridades orçamentais de Donald Trump, tem a assinatura de Barack Obama, que este sábado discursou em comícios de dois candidatos democratas ao cargo de governador. O regresso do antigo Presidente à estrada faz parte de um plano mais alargado para fazer frente à presidência Trump, noticia a CNN.

Este sábado, Obama foi o nome principal do comício da candidata democrata Abigail Spanberger, que lidera as sondagens para ser a próxima governadora da Virgínia. Em Norfolk, Obama admitiu perante o público efusivo que “o país está num momento negro” e que pode “ser difícil perceber por onde começar”. O ex-Presidente não se coibiu de apontar o dedo ao que diz ser o culpado pela situação atual. “Todos os dias a Casa Branca oferece às pessoas uma dose de ilegalidade, imprudência, maldade e pura loucura”, criticou.

Obama atacou as políticas económicas de Trump, as suas tarifas “estrambólicas” e o facto de o Presidente se dedicar a fazer obras de renovação da Casa Branca quando o governo do país se encontra paralisado há quase um mês e os programas sociais estão prestes a ser suspensos, deixando milhares de pessoas sem acesso a benefícios que lhes permitem comprar comida ou ir ao médico. “Mas Virgínia, aqui estão as boas notícias. Se não podem ir ao médico, não se preocupem, [Trump] guarda-vos uma dança“, ironizou.

Obama ataca políticas de Trump e apela aos cidadãos “a fazer algo” pelos Estados Unidos

Da Virgínia, Obama seguiu para Nova Jérsia, onde o candidato democrata, Mikie Sherrill, também lidera as sondagens, mas por uma margem significativamente menor que Spanberger, nota a Reuters. Em Newark, o democrata criticou as políticas de Trump para cumprir as suas promessas na área da imigração. “Temos agentes do ICE [o serviço de fronteiras e imigração] de cara tapada em carrinhas não identificadas a puxar pessoas do meio da rua, incluindo cidadãos dos EUA, sob a suspeita de que não se parecem com americanos verdadeiros”, retratou.

“É como se todos os dias fossem Halloween, mas só há partidas e nenhum doce”, declarou, numa brincadeira de palavras com a frase “trick or treat” (partida ou doce, e tradução livre), que as crianças norte-americanas utilizam para pedir doces porta a porta na noite de 31 de outubro. Por comparação, Obama elogiou a postura dos dois candidatos moderados, que considerou as pessoas ideais para fazer frente à administração Trump.

Durante os últimos anos, Barack Obama, que mesmo nove anos depois de ter abandonado a Casa Branca continua a ser um dos nomes mais populares do Partido Democrata, diminuiu bastante a sua presença pública para dar espaço a uma nova geração de democratas. Contudo, nos últimos meses a sua equipa reformulou a sua estratégia de comunicação — Obama não procura liderar novamente os democratas, mas utilizar a sua popularidade para fazer frente ao que considera ser a má administração de Trump e a permissividade de muitos dentro do Partido Democrata à mesma, relataram várias pessoas da sua equipa à CNN.

Mas Obama continua de olho na nova geração, mesmo quando esta não reúne consenso no seio do Partido. Exemplo disso é o facto de ter telefonado a Zohran Mamdani, o popular candidato à liderança da câmara de Nova Iorque, cujas posições mais à esquerda o tornam controverso entre republicanos e democratas moderados. Obama — com quem Mamdani é comparado devido à sua capacidade comunicacional — terá dito que a sua campanha focada no custo de vida “tem sido impressionante de acompanhar” e ter-se-á oferecido como “conselheiro” no caso, bastante provável, de o jovem candidato ganhar, relata o New York Times.