Depois do espetáculo de luzes do Norte que pintou os céus de meio mundo (e de Portugal) de tons rosados e esverdeados na noite de terça-feira, uma nova e mais intensa tempestade solar está a caminho de Terra. De acordo com as previsões do Serviço Geológico Britânico (BGS, na sigla inglesa), o fenómeno — conhecido por “tempestade canibal” porque se alimenta da tempestade anterior — poderá agora atingir o nível G5, o máximo na escala que mede a intensidade das tempestades geomagnéticas do Sol, e tornar-se a mais forte em mais de duas décadas. Ou seja, apesar de causar um espetáculo fabuloso, tem efeitos bem negativos, como apagões elétricos e interferências nas comunicações globais, mesmo nos satélites em órbitra.

O aparecimento das auroras boreais tão a sul do planeta deve-se precisamente a essa forte tempestade geomagnética provocada por várias ejeções de massa coronal (CME, na sigla inglesa) do Sol. De acordo com a BBC Weather, estas erupções solares libertam grandes quantidades de partículas carregadas — essencialmente protões e eletrões — que viajam a alta velocidade em direção à Terra. Quando as partículas colidem com os gases da atmosfera, como o azoto e oxigénio, produzem as características luzes coloridas que compõem as auroras boreais, vistas normalmente só mais perto do Polo Norte Dinamarca, Suécia e Holanda), daí chamarem-se também Luzes do Norte.

O fenómeno que vimos nos céus na noite de terça-feira resultou, segundo a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), de três ejeções solares consecutivas, provocando uma tempestade geomagnética de potência G4, o segundo nível mais elevado numa escala de cinco.

Estas três ejeções elevaram o índice Kp, que mede a intensidade destas tempestades, para o valor 8 — um nível raro — permitindo que as auroras fossem visíveis muito mais a sul do que o habitual, incluindo no centro e sul da Europa (em Portugal a tempestade Cláudia impediu a visibilidade), no sul do Reino Unido e até em estados do sul dos Estados Unidos, como o Texas e a Flórida.

O céu noturno, habitualmente dominado pela escuridão, tingiu-se de tons rosados e esverdeados na noite de terça-feira. A página Meteo Trás os Montes – Portugal divulgou uma imagem captada em Viseu, onde se registou uma das observações mais nítidas, com o céu a assumir um tom cor-de-rosa intenso. Também na Figueira da Foz foi possível avistar o fenómeno, embora de forma mais discreta, devido à presença de nuvens que limitaram a observação.

“Evento significativo” pode causar apagão elétrico generalizado

As primeiras medições indicam que as partículas de energia solar registadas são das mais intensas desde 2005, o que faz prever um evento significativo. “Com base nas observações de satélite, antecipamos que o evento vai ser significativo. As primeiras indicações, como as medidas das partículas de energia solar no solo são das maiores desde 2005”, pode ler-se no comunicado do serviço britânico.

O BGS e a NOAA alertam que a nova tempestade poderá atingir o campo magnético terrestre entre esta quarta-feira à noite e quinta-feira. Caso se confirme o cenário mais severo, e já que esta nova tempestade se alimentará da anterior, daí lhe chamarem canibal, os efeitos poderão estender-se a falhas nos sistemas elétricos, problemas nos satélites e redes de comunicação, com possibilidade de falhas de rádio e de GPS.

As tempestades G5, o nível máximo da escala, podem causar apagões elétricos generalizados, danos em transformadores e interferências graves em satélites e comunicações globais. Também as infraestruturas de energia e navegação podem sofrer impactos temporários.

Ainda assim, as autoridades sublinham que não há perigo direto para a população, uma vez que a atmosfera terrestre protege a superfície da radiação solar.

Contudo, não é expectável que esta quarta-feira estas interferências eletromagnéticas ocorram em Portugal. De acordo com as declarações de Rui Agostinho, astrónomo e investigador na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, à Rádio Observador, esta hipótese é “baixíssima” e pode, sim, acontecer nas latitudes mais a norte, especialmente junto a centrais elétricas.

Os valores elevados na escala que mede a intensidade da tempestade “estão muito concentrado no lado do norte asiático e do Canadá, não do europeu. Na latitude de Portugal não há nada considerado de alto risco”, sublinhou.

Tempestade canibal “faz perder telecomunicações”

Rui Agostinho acrescentou, ainda, que quando se perde alguma comunicação, esta é “depois restabelecida, porque se trata de um fenómeno que não dura dias a acontecer. É uma questão de uma ou duas horas e depois passa”.

A comunidade científica sublinha que a atual fase de atividade solar é uma das mais intensas dos últimos anos, prevendo-se que continue até ao máximo solar, esperado para 2025. “Tempestades a este nível não são frequentes embora nos últimos anos tenha havido algumas, especialmente agora que estamos a ultrapassar um dos pontos máximos de produção solar. Durante este ano o sol está no seu pico máximo de atividade“, explicou, também, o residente da Sociedade Portuguesa de Astronomia, José Afonso, à SIC Notícias.

As condições atmosféricas desempenham um papel crucial na observação do fenómeno consequente, as auroras. Céu limpo e com pouca poluição luminosa é essencial para uma visualização nítida. A recomendação para os curiosos é afastarem-se das zonas urbanas e procurarem locais com horizonte desimpedido voltado a norte. Em muitas regiões, as cores da aurora são mais facilmente captadas através de câmaras fotográficas do que a olho nu.

NASA cancela lançamento espacial devido à “tempestade canibal”

A NASA adiou o lançamento de uma missão espacial por causa da tempestade solar. A agência espacial norte-americana explicou na rede social X que a elevada atividade solar poderia afetar a segurança da missão ESCAPADE, levando à decisão de adiar o lançamento até que as condições no espaço melhorem.

A Blue Origin, empresa de tecnologia espacial fundada por Jeff Bezos, deveria lançar o New Glenn esta quarta-feira. A missão tinha como objetivo levar duas espaçonaves da NASA, o modelo construído para ir a Marte.