Depois do balde de água fria em Alvalade, Dublin. Um mês depois de deixar fugir o apuramento com um empate contra a Hungria, a Seleção Nacional tinha mais uma oportunidade para fechar a presença no Campeonato do Mundo do próximo ano e disputar a última jornada da qualificação sem quaisquer sombras ou nuvens cinzentas. Para isso, porém, era necessário ganhar — já que nem o empate chegava depois os húngaros terem derrotado os arménios horas antes.

Na antecâmara da visita à Irlanda, local onde Portugal nunca tinha vencido em jogos oficiais, Roberto Martínez soube desde logo que não contava com Nuno Mendes, lesionado, e não demorou a saber que também não contava com Pedro Gonçalves e Pedro Neto, ambos lesionados. Com uma convocatória muito habitual e apenas a novidade Carlos Forbs, o selecionador nacional dava a ideia de que a qualificação para o nono Campeonato do Mundo da história do país não estava garantida — por muito que não mascarasse o otimismo.

Ficha de jogo

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Irlanda-Portugal, 2-0

Qualificação para o Mundial 2026

Aviva Stadium, em Dublin (Irlanda)

Árbitro: Glenn Nyberg (Suécia)

Irlanda: Caoimhín Kelleher, Séamus Coleman, Jake O’Brien, Dara O’Shea, Nathan Collins, Liam Scales (Jimmy Dunne, 86′), Finn Azaz (Festy Ebosele, 79′), Jack Taylor (Adam Idah, 68′), Josh Cullen, Chiedozie Ogbene (Mikey Johnston, 86′), Troy Parrott (Conor Coventry, 68′)

Suplentes não utilizados: Gavin Bazunu, Mark Travers, Johnny Kenny, Kevin O’Toole, Andrew Moran, John Egan, Jamie McGrath

Treinador: Heimir Hallgrímsson

Portugal: Diogo Costa, João Cancelo (Nélson Semedo, 45′), Rúben Dias, Gonçalo Inácio (Renato Veiga, 45′), Diogo Dalot, Rúben Neves, João Neves (Gonçalo Ramos, 78′), Vitinha, Bernardo Silva (Trincão, 63′), Cristiano Ronaldo, João Félix (Rafael Leão, 63′)

Suplentes não utilizados: Rui Silva, João Carvalho, António Silva, João Palhinha, Carlos Forbs, Matheus Nunes, Francisco Conceição

Treinador: Roberto Martínez

Golos: Troy Parrott (17′ e 45′)

Ação disciplinar: cartão amarelo a João Cancelo (19′), a Finn Azaz (38′), a Rúben Dias (45+3′), a Jack Taylor (45+3′), a Liam Scales (87′); cartão vermelho direto a Cristiano Ronaldo (61′)

“Queremos estar muito focados. Se jogarmos bem teremos mais hipóteses de ganhar o jogo e queremos fazer seis pontos nesta paragem. O adversário tem jogadores muito experientes e será um desafio e um teste interessante, até entusiasmante, para nós. É importante jogarmos bem amanhã, até porque poderá ser determinante para o futuro da Seleção. Jogo de Lisboa? Não creio que frustração seja a palavra. Rematámos ao poste, tivemos 26 remates, o guarda-redes fez uma grande exibição, falhámos um penálti… Portugal merecia mais desse jogo, mas não acredito que a equipa tenha mostrado frustração em algum momento”, disse o treinador espanhol na antevisão, lembrando a partida de há um mês em que Portugal só derrotou os irlandeses com um golo de Rúben Neves já nos descontos.

Assim e também sem Bruno Fernandes, que estava castigado, Roberto Martínez apostava em João Cancelo na direita e Diogo Dalot na esquerda, com João Félix a ser titular no apoio a Cristiano Ronaldo em detrimento de Rafael Leão. Do outro lado, numa Irlanda que tinha quatro pontos conquistados e ainda sonhava com um eventual segundo lugar do Grupo F que permitisse chegar ao playoff, Heimir Hallgrímsson tinha Troy Parrott e Chiedozie Ogbene no setor mais adiantado.

O jogo começou de forma expectável, com Portugal a ter mais bola e a atuar completamente inserido no meio-campo contrário. Ainda assim, tal como também era expectável, a Irlanda defendia com muitos jogadores e dificultava as incursões ofensivas portuguesas, com a equipa de Roberto Martínez a recorrer a cruzamentos inconsequentes demasiadas vezes. Cristiano Ronaldo teve a melhor ocasião dos minutos iniciais, com um remate na área que passou por cima da trave (10′), e o balde de água fria já não demorou.

Pouco depois de estar cumprido um quarto de hora e na sequência de um erro de Diogo Costa que originou um pontapé de canto na esquerda, Liam Scales fugiu a João Félix ao segundo poste e assistiu Troy Parrott, que só precisou de encostar de cabeça para abrir o marcador (17′). Portugal perdeu o norte com o golo sofrido e até poderia ter concedido outro logo a seguir, com Finn Azaz a atirar para Diogo Costa defender (20′), mas acabou por recuperar algum controlo à chegada à meia-hora.

Rúben Neves atirou de fora de área para Caoimhín Kelleher encaixar (26′), João Neves rematou ao lado também de longe (31′) e a Seleção Nacional foi novamente encurtando o espaço da Irlanda, mas recorrendo sempre a cruzamentos ou a tentativas de meia-distância. O ataque português à baliza contrária tornou-se mais intenso com o avançar dos minutos e as oportunidades foram consecutivas nos últimos minutos da primeira parte: João Félix cabeceou por cima (37′), Vitinha atirou já na área para Kelleher defender (39′), Diogo Dalot falhou o alvo em duas ocasiões (40′ e 44′) e o mesmo Félix rematou por cima (44′).

Antes do intervalo, porém, tudo ficou ainda pior para as ambições nacionais. Chiedozie Ogbene já tinha avisado, ao acertar no poste na sequência de uma transição rápida (38′), e Troy Parrott confirmou: contra-ataque para as costas da defesa e o avançado irlandês puxou da esquerda para dentro para rematar rasteiro e bisar (45′). Ao intervalo, Portugal estava a perder com a Irlanda em Dublin e teria de alcançar uma reviravolta épica para chegar ao Campeonato do Mundo ainda esta quinta-feira.

Roberto Martínez mexeu logo ao intervalo e trocou João Cancelo e Gonçalo Inácio por Nélson Semedo e Renato Veiga, sendo que o central do Sporting já tinha terminado a primeira parte com algumas limitações físicas. A lógica manteve-se e Portugal tinha a bola, atuava de frente para o jogo e dentro do meio-campo contrário, mas sem capacidade para ferir a organização defensiva da Irlanda — a circulação era inofensiva, os cruzamentos acumulavam-se e as oportunidades não apareciam.

À hora de jogo, porém, tudo ficou ainda pior. Cristiano Ronaldo desentendeu-se com Dara O’Shea na área, o árbitro da partida começou por mostrar cartão amarelo ao jogador português mas, depois de chamado ao ecrã pelo VAR, considerou que este agrediu o irlandês com uma cotovelada e expulsou-o com vermelho direto, deixando Portugal em inferioridade numérica. Logo a seguir, Roberto Martínez fez mais uma dupla alteração e lançou Trincão e Rafael Leão — quase ao mesmo tempo que Chiedozie Ogbene ameaçava o terceiro golo da Irlanda com um pontapé cruzado que passou ao lado (64′).

Os minutos iam passando e Portugal continuava absolutamente infrutífero, sem ter sequer a capacidade de se aproximar da baliza de Caoimhín Kelleher e permitindo algumas aventuras à Irlanda, que aproveitava a superioridade numérica para arriscar ainda mais buscas pela profundidade. Roberto Martínez esgotou as substituições já no último quarto de hora, abdicando de João Neves para colocar Gonçalo Ramos, mas já nada mudou — ou ameaçou sequer mudar, com o avançado PSG a protagonizar a única verdadeira oportunidade em toda a segunda parte com um remate que Caoimhín Kelleher defendeu (88′).

Portugal perdeu com a Irlanda em Dublin, continua sem ganhar em território irlandês e voltou a adiar o apuramento para o Mundial 2026, estando agora obrigado a vencer a Arménia no próximo domingo para assegurar a qualificação direta. Em resumo e sem sombra para dúvidas, a Seleção Nacional viveu um dia indesculpável — principalmente para os que têm sempre desculpas para tudo.