Após alguns anos de maior abertura à diversidade corporal, a indústria da moda dá agora sinais de recuo. Nas passerelles internacionais da primavera/verão de 2026, as silhuetas mais magras voltaram a dominar — e, em Portugal, o reflexo foi visível nas passerelles da ModaLisboa, onde os castings voltaram a privilegiar corpos mais convencionais.

Um novo relatório da Vogue Business revela que 97,1% dos 9.038 looks apresentados em 198 desfiles foram exibidos por modelos com tamanhos entre o 32 e o 36 europeu. Os tamanhos intermédios (38 a 42) representaram apenas 2%, e os tamanhos grandes (44 ou superior) ficaram pelos 0,9%.

Os números confirmam o que muitos já suspeitavam: a inclusão de tamanhos maiores, que chegou a ganhar espaço nas passerelles há poucos anos, está em declínio. “A indústria deu uma volta de 360 graus”, resumiu ao The Guardian a agente Anna Shillinglaw, fundadora da Milk Management, uma das maiores agências britânicas de modelos.

O relatório da Vogue Business mostra que a mudança é global, mas desigual. Londres continua a ser a capital mais inclusiva, com 6,7% de modelos mid-size e 2,8% plus-size. Milão, por outro lado, apresentou o valor mais baixo desde o início da análise há dois anos e meio: apenas quatro marcas, entre 55, incluíram modelos com tamanhos fora do padrão.

Para Elektra Kotsoni, diretora editorial adjunta da Vogue Business, o cenário é “horrível”. A jornalista explica que o estudo pretende medir não só a representatividade nas passerelles, mas também avaliar se a diversidade conquistada nos últimos anos está a consolidar-se. “Os resultados desta estação mostram o oposto”, lamenta.

As conclusões coincidem com a perceção de muitos profissionais do setor. “O movimento do lado positivo corporal estava a crescer. Havia modelos curve — ou de tamanhos grandes — nas mesmas campanhas e editoriais que as modelos magras. Agora, há um declínio em massa”, observa Shillinglaw.

O efeito nota-se nos nomes mais conhecidos. Nesta temporada, Ashley Graham desfilou apenas três vezes, Jill Kortleve em duas, Precious Lee numa e Paloma Elsesser, recentemente capa da British Vogue, em cinco. A ainda existência de convites é vista por algumas profissionais como um gesto simbólico de inclusão — a participação de uma ou duas modelos curve apenas para gerar manchetes e dar aparência de diversidade.

Um dos casos mais citados é o do designer Rick Owens. Na temporada de outono/inverno 2025, o criador apresentou 16 modelos plus-size no desfile de Paris. Já nesta temporada, nenhuma. “É revoltante ver um designer credível passar de usar mulheres com corpos reais, com estômagos e ombros largos, para não incluir uma única. Se é para ser progressivo, que se mantenha a progressão”, afirmou a modelo e escritora Felicity Hayward.

Portugal segue os padrões internacionais

Portugal não é exceção nesta tendência de recuo. Luís Pereira, Fundador e CEO da Showpress e Diretor de Casting e Coordenador de Backstage da ModaLisboa, confirma ao Observador que “tem havido claramente um recuo”.

“A nível internacional, nota-se um regresso aos corpos mais magros — basta olhar para o renascimento da Victoria’s Secret e para a forma como as principais passerelles voltaram a privilegiar silhuetas muito próximas do padrão anterior”, explica. “Em Portugal, sentimos esse reflexo: as marcas voltaram a procurar corpos mais convencionais e o entusiasmo em torno do casting plus size diminuiu. Mesmo quando essa diversidade é mostrada nos desfiles, depois é difícil encontrá-la traduzida nas lojas.”

O responsável sublinha que não existem critérios definidos para promover a diversidade corporal nas semanas de moda nacionais: “Tudo depende da visão de cada designer. Alguns valorizam a diversidade de corpos, outros focam-se mais na coerência estética do desfile.”

Apesar disso, há exceções. Luís Pereira destaca a designer Constança Entrudo, que apresenta regularmente na ModaLisboa e “continua a adaptar as peças a diferentes corpos e a defender uma visão mais inclusiva.”

Fraturas nas costelas para criar um cintura fina, a Barbie Waist

Ao mesmo tempo, regista-se um outro fenómeno que parece reforçar a estética da magreza: a popularização dos fármacos GLP-1, como o Ozempic, originalmente desenvolvidos para tratar a diabetes, mas amplamente usados como medicamentos para perda de peso. A sua utilização disparou entre celebridades e influencers, tendo levado mesmo à sua escassez para doentes. No Reino Unido, estima-se que cerca de 1,5 milhões de pessoas adquiram estes medicamentos por prescrição privada, e há até um mercado paralelo online.

A psicoterapeuta e escritora Susie Orbach descreve ao The Guardian o fenómeno como “a mais recente comercialização do corpo”. E alerta: “Estamos a fabricar corpos como se fossem produtos, em vez de vivermos neles.” Orbach aponta ainda o papel da cultura popular e da televisão na criação de padrões artificiais. “As Kardashians são um exemplo disso, mas essa lógica já se massificou”, afirma.

A tendência pela silhueta de magreza extrema regressa também à cirurgia estética. Entre os novos procedimentos procura-se a chamada “Barbie waist”, em que pequenas fraturas são provocadas nas costelas para reduzir o perímetro da cintura. A tendência reforça a pressão para uma imagem cada vez mais padronizada, tanto na moda como fora dela.

O impacto reflete-se também no retalho. Em agosto, o presidente da Advertising Standards Authority (ASA), a entidade que regula a publicidade no Reino Unido, pediu às marcas que evitassem imagens “irresponsáveis” de modelos excessivamente magras, depois de um aumento de queixas sobre campanhas da M&S e da Next.

As duas marcas britânicas tiveram campanhas recentes proibidas pela autoridade reguladora, por apresentarem modelos que, segundo a ASA, transmitiam uma imagem de magreza pouco saudável. No caso da Next, tratava-se de uma campanha de leggings em que o enquadramento e a pose realçavam a finura das pernas. Já a M&S foi obrigada a retirar um anúncio na sua aplicação após críticas semelhantes. As decisões reforçaram o apelo à responsabilidade visual das marcas e tornaram-se exemplo da crescente vigilância sobre a forma como a indústria representa o corpo feminino.

Mesmo assim, o espaço destinado às consumidoras de tamanhos maiores continua a encolher. A H&M (que fabrica até ao tamanho 62) retirou as secções plus-size das lojas físicas e passou a disponibilizá-las apenas online refere o The Guardian. Para as agências, a retração já tem consequências práticas: sessões fotográficas que antes ocupavam cinco dias por semana com modelos curve agora acontecem só duas vezes.

A Vogue Business identifica também causas estruturais para o recuo, como prazos de produção apertados, falta de formação técnica para modelar roupas em tamanhos alargados e custos adicionais que levam muitas marcas a limitar as suas amostras a medidas padrão. O resultado é um sistema que favorece a rapidez e a uniformidade, prejudicando a diversidade.

O paradoxo é evidente: o mercado plus-size no Reino Unido vale mais de 4 mil milhões de libras (mais de 4,5 mil milhões de euros), mas torna-se cada vez menos acessível — tanto para quem consome como para quem trabalha. A procura por variedade de tamanhos e por peças com fit real continua alta, mas as marcas mostram resistência em adaptar-se.

Texto editado por Dulce Neto