Foram desenvolvidos para controlo dos diabetes e ficaram populares por serem excecionalmente eficazes na perda de peso, mas sabe-se agora que este não é mesmo o único efeito colateral dos medicamentos, como o Ozempic, cuja princípio ativo é o semaglutido — substância capaz de imitar os efeitos da GLP-1, a hormona produzida no trato intestinal que estimula a produção de insulina. E isto vale tanto para o bem como para o mal.

Os resultados, publicados na revista Nature Medicine, na segunda-feira, têm origem no primeiro estudo de observação que aponta para uma lista extensa de efeitos secundários do medicamento que se popularizou em todo o mundo. A análise, apontada como a maior efetuada até à data, envolveu dados médicos de dois milhões de pessoas e associa a toma do medicamento a uma melhoria da saúde cardíaca, menos infeções, menos casos de demência e um menor risco de abuso de drogas e do desenvolvimento de adições de um modo geral.

A contrastar com estes efeitos positivos estão o maior risco de desenvolver pancreatite (inflamação no pâncreas), condição grave que pode levar à morte, bem como uma maior probabilidade de ter dores nas articulações e de desenvolver problemas renais.

Dados de saúde de veteranos com diabetes foram analisados durante três anos

O estudo publicado na Nature é fundamentado em dados de veteranos norte-americanos com diabetes de tipo 2 — alguns que tomaram semaglutido na forma de Ozempic ou Wegovy, e outros que tomaram medicamentos mais comuns, sem essa substância, durante o período de análise de três anos. Foi depois medido o efeito do consumo de cada categoria de medicação em relação a 175 doenças.

“Em comparação com os cuidados habituais, a utilização de GLP-1RA [classe de medicamentos que reduzem o açúcar no sangue e a ingestão de energia através da ativação do recetor da hormona GLP-1] foi associada a um risco reduzido de consumo de substâncias e perturbações psicóticas, convulsões, perturbações neurocognitivas (incluindo a doença de Alzheimer e a demência), perturbações da coagulação, perturbações cardiometabólicas, doenças infecciosas e várias doenças respiratórias”, lê-se no estudo.

Medicamento para diabetes também previne enfartes e AVC (e ajuda a perder peso). Mas corrida ao Ozempic compromete tratamento de diabéticos

Pelo contrário, “verificou-se um risco acrescido de perturbações gastrointestinais, hipotensão, síncope, perturbações artríticas, nefrolitíase, nefrite intersticial e pancreatite induzida por fármacos associada à utilização de GLP-1RA em comparação com os cuidados habituais”, destaca-se ainda.

O estudo confirma, igualmente, que, em alguns casos, o Ozempic pode causar problemas gastrointestinais, como náuseas e vómitos, sintomas regularmente apontados por utilizadores desta medicação, principalmente desde que esta se popularizou. Também se verifica um maior risco do desenvolvimento de distúrbios de sono.

Na comparação com a utilização de sulfonilureias [outro medicamento utilizado no tratamento da diabetes], a utilização do semaglutido reduziu o risco de desenvolver “pneumonia, bronquite, doença pulmonar obstrutiva crónica (DPOC), ideação suicida e distúrbios de coagulação”.

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Especialistas pedem “cautela” na interpretação de resultados

O estudo, por si só, não demonstra que o medicamento seja a causa dos efeitos listados — tanto os positivos como os negativos. Mas a consistência dos resultados e a dimensão da base de dados permitem estabelecer uma relação direta entre os dois factos que será analisada em estudos científicos posteriores.

Vários especialistas indicam que este tipo de estudo, mais abrangente, permite identificar padrões e, desta forma, identificar efeitos que até agora eram desconhecidos. Por outro lado, ajuda a consolidar teorias avançadas por outros estudos científicos ou por relatórios de efeitos secundários da medicação. “Alguns dos efeitos benéficos observados, especialmente em distúrbios neuropsiquiátricos e de abuso de substâncias, são apoiados por outros estudos”, destaca David Henry , professor da Universidade de Melbourne, na Austrália, em declarações ao Science Media Center.

O académico australiano alerta, no entanto, para a necessidade de se ter “cautela” na interpretação dos resultados deste tipo de estudo. Cita o caso da metformina , outro medicamento antidiabético. “Estudos observacionais defeituosos concluíram erroneamente que prevenia o cancro. A análise de dados de ensaios aleatórios refutou isso”, assegurou o especialista.