Álvaro Santos Pereira quer que se “invista e incentive” a utilização de soluções de pagamento “abertas” e com “alcance europeu”. Num discurso sobre o futuro da banca, numa conferência organizada pelo Jornal de Negócios, o governador do Banco de Portugal focou-se no setor dos pagamentos – que está em rápida mudança, desde logo com o recente anúncio do “euro digital” –, mas salientou, também, que a banca está hoje numa “situação sólida” mas é preciso evitar “complacência”, porque “os últimos anos provaram que os choques surgem de forma bastante violenta”.
Se a banca está hoje numa situação “sólida”, o novo governador do Banco de Portugal lembrou que “nem sempre foi assim”. E, nesta fase, “temos de nos manter atentos“, sublinhou, porque “a História ensina-nos que é nos momentos de prosperidade e otimismo que se acumulam riscos, impulsionados por uma atitude permissiva e complacente”. Alertando que os “choques” surgem, normalmente, de onde menos se espera e quando menos se espera, Álvaro Santos Pereira destaca a crise pandémica e o recente surto inflacionista.
Na conferência “Banca do Futuro”, que contou também com a participação dos líderes de alguns dos principais bancos a operar em Portugal, Santos Pereira considerou que “a banca é um dos setores mais inovadores da nossa economia” e frisou que “a banca tradicional teve de se reinventar para responder a um perfil de cliente em mudança com mais exigências de flexibilidade, personalização e imediatismo”.
Essa necessidade de “imediatismo” está patente, acima de tudo, no setor dos pagamentos, no qual o Banco de Portugal tem responsabilidade de supervisão. “Num contexto de crescente concorrência, é fundamental que existam sistemas de pagamento seguros e acessíveis”, notou Álvaro Santos Pereira, destacando a criação do serviço SPIN, lançado pelo Banco de Portugal e que permite fazer transferências imediatas usando apenas o número de telemóvel ou o NIF/NIPC do destinatário.
Usar o MBWay ou o (novo) SPIN para transferir dinheiro. O que distingue os dois serviços
“Temos de investir e incentivar a utilização de soluções de pagamento modernas e abertas, com alcance pan-europeu, que aumentem a competitividade e assegurem a nossa soberania”, salientou Álvaro Santos Pereira – uma declaração que surge poucos dias depois de ter estado em Portugal um responsável de um dos grandes projetos (de natureza privada) que pretendem lançar plataformas comuns europeias na área dos pagamentos, neste caso o Wero (onde a SIBS, que gere o Multibanco e o MBWay, não está a participar).
Entre as soluções de pagamentos que devem ser incentivadas estão, disse Álvaro Santos Pereira, “soluções que já existem mas talvez não tenham adoção generalizada, como as transferências imediatas e também soluções que poderão existir no futuro, como o euro digital“.
Ao mesmo tempo que essas inovações ganham importância, o governador do Banco de Portugal salienta que “a crescente digitalização dos meios de pagamento e a proliferação de criptoativos privados colocam novos desafios à soberania monetária e à eficácia dos bancos centrais na preservação da estabilidade financeira”.
Por outro lado, Santos Pereira lembrou que “a fraude digital é hoje muito mais sofisticada” e “o combate à fraude será, sem dúvida, uma das grandes prioridades do Banco de Portugal nos próximos anos”.
BCE avança no “euro digital”, que pode começar a ser emitido a partir de 2029