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Daniel van Delft é o "chief operating officer" (COO) da Wero, uma marca detida pelo consórcio European Payments Initiative (EPI). FOTO: Isabel Santiago
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▲Daniel van Delft é o "chief operating officer" (COO) da Wero, uma marca detida pelo consórcio European Payments Initiative (EPI). FOTO: Isabel Santiago

▲Daniel van Delft é o "chief operating officer" (COO) da Wero, uma marca detida pelo consórcio European Payments Initiative (EPI). FOTO: Isabel Santiago

Quando um português quer pagar a um belga, porque é preciso chamar um americano? Wero quer acabar com domínio da Visa e Mastercard na Europa

Consórcio de bancos lançou plataforma de pagamentos que quer libertar a Europa da "dependência" das multinacionais norte-americanas e, agora, das "big tech". BPCE, que comprou Novo Banco, é acionista.

Os países da União Europeia, mesmo aqueles que há décadas partilham uma moeda comum, sempre tiveram um setor dos pagamentos completamente desarticulado entre si – o que deu às “gigantes” norte-americanas Visa e Mastercard terreno fértil para conquistar uma posição dominante nesta área de negócio complexa mas muito rentável. Já houve em 2012 uma tentativa (falhada) de mudar isso – mas no último ano um conjunto de bancos e empresas de pagamentos juntou-se para lançar um novo projeto que quer não só combater a hegemonia da Visa e da Mastercard mas, também, dar uma alternativa às big techs como Apple, Google e Amazon, que estão a entrar em força neste setor.

O novo projeto chama-se Wero e é uma criação do consórcio European Payment Initiative (EPI), formado por 14 bancos e duas empresas de pagamentos. Entre esses fundadores estão o francês BNP Paribas e o alemão Deutsche Bank. Mas estão lá, também, o BPCE – os franceses que acabam de assinar acordo para a compra do Novo Banco – e a Worldline, a empresa de pagamentos para onde saiu Madalena Cascais Tomé (até recentemente presidente da SIBS).

“Decidimos dar a este ‘esquema’ [plataforma] o nome Wero porque é uma boa mistura entre ‘We’ (que, em inglês, significa “nós”) e o final da palavra ‘Euro’, com uma sonoridade parecida”, afirma o principal responsável operacional da empresa em entrevista ao Observador. Daniel van Delft, chief operating officer (COO) do Wero, veio a Lisboa a convite da ANIPE (Associação Nacional de Instituições de Pagamento e Moeda Eletrónica) para participar na conferência que marcou o terceiro aniversário da associação, na última sexta-feira.

O Wero já está operacional nos dois maiores países europeus – Alemanha e França – e, também, na Bélgica. Os Países Baixos, entre outros, também estão na reta final da integração. O ritmo de adoção é lento e gradual, reconhece Daniel van Delft, mas a “ambição” é conseguir “harmonizar todas as infraestruturas de pagamentos que existem na Europa” – um continente em que alguns países não têm quaisquer plataformas nacionais e outros têm serviços enraizados na área dos pagamentos, como Portugal (com a SIBS, gestora do Multibanco e do MBWay).

Daniel van Delft frisa que o objetivo não é substituir os tais “esquemas” (como se chama, no jargão do setor dos pagamentos, às plataformas) mas, sim, criar “uma camada superior que opera sobre os mesmos ‘carris‘ que já existem, isto é, a infraestrutura da SEPA. Quando se fala em “criar uma camada” significa criar um interface com o utilizador que assenta na infraestrutura técnica da SEPA – que é o mesmo que acontece com o MBWay, por exemplo.

Isso permitiria que um português, quando precisasse de pagar ou transferir dinheiro para um belga, por exemplo, pudesse fazê-lo facilmente sem ter de pedir a intervenção de um norte-americano – seja uma empresa como a Visa, a Mastercard, a Paypal ou uma das big tech, que lançaram produtos como o Apple Pay e o Google Pay.

Wero aproveita infraestutura (que já existe) da SEPA. O que é?

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A SEPA é a sigla para Single Euro Payments Area, ou seja, uma Área Única de Pagamentos em Euros composta pelos 27 países da UE. Foi uma iniciativa da União Europeia que teve como objetivo criar um mercado único de pagamentos em euros, no qual pessoas e empresas possam enviar e receber dinheiro dentro da Europa tão facilmente como dentro do seu próprio país.

Antes da SEPA, as transferências entre países europeus eram tratadas como “internacionais” — mais lentas, caras e burocráticas – pelo que a SEPA foi criada para eliminar essas barreiras, harmonizando regras, formatos e infraestruturas de pagamentos entre países europeus. Uma dessas regras é que todas as contas têm de ter um número IBAN que tem uma estrutura igual em toda a Europa.

A SEPA assenta, atualmente, em três pilares fundamentais: a SEPA Credit Transfer (SCT), que gere transferências bancárias comuns entre contas em euros; a SEPA Direct Debit (SDD), que se foca nos débitos diretos automáticos (por exemplo, para pagar contas de serviços); e a SEPA Instant Credit Transfer (SCT Inst) que permite transferências instantâneas, disponíveis 24 horas/7 dias por semana, que chegam à conta do destinatário em menos de 10 segundos.

A SEPA trouxe uma harmonização dos aspetos técnicos dos pagamentos em euros, porém falta essa chamada “camada” de utilização e de experiência do utilizador. Foi isso que várias empresas foram criando nos últimos anos, como o MBWay da SIBS, que se foca no mercado português, e o Bizum em Espanha. Todos estes esquemas usam a infraestrutura da SEPA mas não comunicam entre si – embora estes dois (o MBWay e o Bizum) tenham recentemente formado uma parceria, a que se juntou o italiano Bancomat Pay, para criar interoperabilidade entre si.

Além dessa parceria entre os três esquemas do sul europeu, a que se chamou EuroPA, há, também, uma parceria entre os países nórdicos, a Vipps. Mas Daniel van Delft explica que, embora na prática se possa considerar que o Wero, neste momento, concorre com a EuroPA e com a Vipps, o objetivo é atuar a um nível mais abrangente e ambicioso — quer ser a camada pan-europeia que essas soluções nacionais ou regionais nunca conseguiram ser. “A nossa ambição é unir todas estas plataformas e criar um esquema que possa servir todos os cidadãos europeus quando viajam dentro da Europa ou fazem pagamentos a outros europeus”, diz o holandês.

“Ao criar este consórcio, somos capazes de criar eficiências de escala que permitem inovar mais depressa e melhor, porque é possível reunir os orçamentos de inovação desses vários intervenientes e, assim, ter um orçamento de inovação muito maior, que é a única forma de competirmos competir com a evolução dos esquemas internacionais [Visa e Mastercard]”, afirma Daniel van Delft, ao Observador, acrescentando que, “em segundo lugar, estamos a aproveitar infraestruturas já existentes, nas quais os nossos acionistas já investiram — nomeadamente a infraestrutura SCT [SEPA Credit Transfer]”.

▲ Daniel Van Delft diz que a compra do Novo Banco pelo BPCE, que torna os franceses acionistas da SIBS, pode ser "uma grande oportunidade". FOTO: Isabel Santiago

Mas há um terceiro elemento que, reconhece o responsável, pode contribuir para que o Wero tenha mais sucesso do que o fracassado projeto Monnet (abandonado em 2012). Agora, ao contrário do que acontecia no início da década passada, “os responsáveis políticos estão mais preocupados com a soberania europeia” e com a necessidade de não depender quase totalmente de Donald Trump e do seu lema “America First” (A América em Primeiro).

A reeleição de Trump, os conflitos comerciais em torno das tarifas e as divergências na área da defesa criam uma maior urgência para criar um sistema europeu, diz o responsável. “Sentimos da parte dos nossos acionistas, dos bancos, uma vontade clara de ter um sistema de pagamentos europeu — não apenas devido a pressões geopolíticas vindas do Oriente, mas também, em certa medida, agora do Ocidente”, afirma Daniel van Delft, acrescentando que “o facto de o mundo já não ser tão aberto como gostaríamos obriga-nos a garantir que existe um sistema de pagamentos europeu”.

Em contraste com o projeto Monnet, que assentava no modelo de transações entre cartões bancários, o Wero funciona através de transferências (e pagamentos) “conta a conta”, ou seja, o Wero não emite quaisquer cartões bancários, usa a infraestrutura de contas que é uniformizada em toda a Europa, através das regras da SEPA – outra evolução que, para Van Delft, irá contribuir para a adoção deste esquema por parte dos europeus.

“Todos os cidadãos europeus devem ter a possibilidade e o direito de efetuar um pagamento sem depender de uma infraestrutura proveniente dos EUA — leia-se, os esquemas internacionais, baseados em cartões —, ainda que estes possam coexistir com os nossos sistemas domésticos”, conclui o COO do Wero.

BPCE, fundador do Wero, agora será acionista da SIBS. “Uma grande oportunidade”

Ainda não foram estabelecidas “pontes” com os bancos portugueses, confirma Daniel van Delft, embora estes estejam “envolvidos nestas discussões, indiretamente, através da SIBS”, da qual são acionistas. Mas um dos principais bancos portugueses, o Novo Banco (que também é acionista da gestora do Multibanco e do MBWay), está prestes a concretizar a passagem para o controlo dos franceses do BPCE – e esses são um dos 14 grandes grupos bancários europeus que estão a lançar o Wero.

Assumindo que, nesta fase, o Wero está a competir com a parceria de que faz parte a SIBS (a EuroPA), cria-se, aqui, um cenário constrangedor? Ou, mesmo, um conflito de interesses? “Pelo contrário, pode ser uma grande oportunidade“, defende o COO do Wero.

“Penso que pode ser uma oportunidade porque acredito que o BPCE irá influenciar a SIBS no sentido de entrar em negociações connosco – porque, como dizia, se os nossos acionistas se unirem isso só irá trazer vantagens para todos”, afirma Daniel van Delft.

Noutros países, como na Alemanha e em França, as plataformas nacionais “tiveram a coragem de dar o passo de submeter o seu esquema ao Wero”, diz Daniel van Delft. Mas estaria a SIBS, há poucos anos multada pela Autoridade da Concorrência por abuso de posição dominante no mercado português, disponível para aceitar diluir a posição que conquistou com o MBWay? Dando a entender que a SIBS poderia abdicar do MBWay e, mesmo assim, sobreviver graças a outras fontes de receita, o COO do Wero responde com uma pergunta: “Mas a SIBS é mais do que o MBWay, não é? Também são uma emissora de cartões…”.

Entre o Wero, que nasceu no centro europeu, o EuroPA, formado pelos países do sul, e o esquema Vipps, dos países nórdicos, Daniel van Delft recusa a ideia de uma luta fraterna. “No final de contas, é quase irrelevante qual é a marca que as pessoas usam, o que importa é que seja possível pagar no contexto europeu – mas a nossa ambição é que no futuro todos [os europeus] venhamos a pagar com o Wero“, diz o responsável, pedindo que nunca nos esqueçamos quem é o “inimigo”.

“O inimigo”, reforça, são as empresas internacionais de cartões – que é como quem diz as norte-americanas Visa e Mastercard. E porque é que são “o inimigo”? “Bem, dou-lhe um exemplo, desde o momento em que a Visa Europe foi absorvida pela Visa Inc., em 2016, as taxas cobradas aos bancos e aos comerciantes aumentaram cerca de 80% – esse dado mostra a necessidade que os comerciantes sentiram de mudar rapidamente”, responde Daniel van Delft.

BCE avança no “euro digital”, que pode começar a ser emitido a partir de 2029

E o “euro digital“, que o Banco Central Europeu (BCE) confirmou no final de outubro que deverá chegar ao terreno em 2029? Será esse, também, um inimigo? Daniel van Delft recorda que, na última semana, a European Payments Initiative (EPI) – a dona do Wero – enviou uma carta aberta aos responsáveis europeus pedindo-lhes que repensem a intenção de lançar o “euro digital“.

Nessa carta, os 14 bancos que integram a EPI avisam que o euro digital não irá criar um valor claro para os consumidores e que arrisca dar a empresas como a Apple (Pay), a Paypal e a chinesa Alipay ainda mais poder – e não menos. Os bancos defendem, também, que o euro digital que o BCE quer lançar irá sobrepor-se, de forma redundante, à infraestrutura que já foi criada (a SEPA, na vertente instant payments) e, além disso, não chegará antes de 2029, um calendário muito distante mesmo que se acredite que será possível cumprir.

Daniel van Delft diz ter muitas dúvidas sobre se o euro digital irá tornar-se uma realidade em 2029. “Parece-me um objetivo muito ambicioso mas acredito que irá acabar por haver uma forma de ‘euro digital’ – irá, porém, ser algo que será disponibilizado em articulação com aquilo que nós oferecemos com o Wero”, antevê o holandês, assinalando que “seria uma pena que tivéssemos de competir com o euro digital, tendo em conta que o verdadeiro inimigo são os esquemas internacionais baseados em cartões e as grandes tecnológicas”.

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