Além de Miguel Alpalhão, outros médicos do serviço de Dermatologia da Unidade Local de Saúde de Santa Maria ganharam quantias avultadas em pagamentos por cirurgias adicionais. Dois deles chegaram mesmo a receber mais de 200 mil euros em cirurgias extra em apenas dois anos, como revela o relatório da Inspeção Geral das Atividades em Saúde, a que o Observador teve acesso.

Os médicos em causa são Diogo de Sousa, que recebeu cerca de 233 mil euros em 2024 e 2025. Nos mesmos dois anos, Lanyu Sun ganhou cerca de 201 mil euros. Nos dois casos, a maior fatia das verbas recebidas (172 mil euros e 177 mil euros, respetivamente) está concentrada em 2024, ano em que a despesa com cirurgias adicionais disparou no serviço de Dermatologia do Hospital de Santa Maria. Os nomes destes dois clínicos não são referidos nos restantes anos que foram alvo de análise por parte da IGAS, entre 2021 e 2025.

Só no ano passado, a despesa da ULS de Santa Maria com médicos no que diz respeito a cirurgias adicionais em dermatologia atingiu cerca de 1,46 milhões de euros, três vezes mais do que o valor do ano anterior. A maior parte das verbas pagas pelo Santa Maria em 2024 foi canalizada para um único médico: Miguel Alpalhão, que recebeu 454 mil euros em cirurgias extra. Ao todo, de 2021 até 2025, Alpalhão auferiu cerca de 714 mil euros, tendo, sido, por larga margem, o médico que mais dinheiro ganhou com as cirurgias adicionais.

No entanto, e segundo relatório da IGAS, pelo menos outros 15 médicos do serviço de Dermatologia realizaram cirurgias adicionais. Logo a seguir a Miguel Alpalhão, na lista dos clínicos que receberam pagamentos mais avultados por estas intervenções, surge a médica Rita Travassos, que recebeu mais cerca de 237 mil euros em quatro anos, sendo que mais de metade desse valor (cerca de 145 mil euros) ficou concentrado em 2024. Seguem-se depois Diogo de Sousa e Lanyu Sun, dois médicos internos. Depois surge Dora Mancha, também médica interna, que ganhou 178 mil euros em três anos (114 mil dos quais em 2024). Cláudia Pedrosa, também médica ainda em formação, auferiu 138 mil euros num único ano, em 2024.

A IGAS destaca que, até outubro de 2024, dos 10 profissionais da ULS de Santa Maria que mais ganharam com cirurgias adicionais, oito deles pertenciam ao serviço de Dermatologia.

No caso de Miguel Alpalhão, o médico realizou 64 cirurgias em produção adicional em 2021, 113 em 2022, 86 em 2023, 236 em 2024, e 17 no 1.º trimestre de 2025, maioritariamente aos sábados. No entanto, como já tinha sido noticiado, Alpalhão esteve ausente do serviço durante largos períodos: 115 dias em 2022, 178 dias em 2023, 90 em 2024, e 49 dias apenas no 1.º trimestre de 2024.

Apesar do absentismo, conseguiu receber centenas de milhares de euros em cirurgias adicionais, codificando os próprios procedimentos incorretamente, de forma a gerar maiores ganhos, factos pelos quais está a ser investigado pela ULS de Santa Maria (onde enfrenta um processo disciplinar), pela IGAS, pela Ordem dos Médicos e pelo Ministério Público.

No que diz respeito a Miguel Alpalhão, o relatório da IGAS conclui que o médico emitiu e validou 99% das cirurgias analisadas. Foi, de resto, o único codificador das cirurgias em produção adicional no serviço de Dermatologia entre 2021 e 2024.

Alpalhão emitiu e aprovou 450 propostas cirúrgicas, sendo que, “em 356 situações, o médico aprovou e codificou o mesmo ato cirúrgico“, refere a IGAS, lembrando que, de acordo com a portaria 207/2017 e com o Manual de Gestão de Inscritos para Cirurgia, “a proposta cirúrgica deve ser emitida por um clínico e validada por outro, garantindo rastreabilidade e independência. Os mesmos documentos orientadores referem que a “codificação não deve ser realizada pelo mesmo profissional que emitiu ou aprovou a proposta ou que realizou a cirurgia”.

IGAS sugere a Santa Maria que peça devolução do dinheiro pago em cirurgias mal classificadas

O médico Miguel Alpalhão, de 33 anos, marcou as consultas para os pais, sem a prévia referenciação, considerando tratar-se de situações muito prioritárias e ganhou mais de 5 mil euros com as cirurgias realizadas. “Fez as propostas cirúrgicas e as cirurgias de excisão […] Os dois episódios tiveram um custo em SIGIC de 8.632,41 euros, dos quais 5.524,75 euros foram pagos ao médico“, realça a IGAS.

A entidade, liderada por Carlos Carapeto, conclui ainda que parte das cirurgias realizadas foram erradamente classificadas como pequena cirurgia, ao invés de cirurgia de ambulatório — o que permite gerar um GDH, resultando num valor a pagar às equipas bastante superior. “Os episódios de pequena cirurgia […] foram indevidamente realizados em regime de produção adicional como se fossem cirurgia de ambulatório”, refere o relatório.

É a diferença entre o valor a pagar por um e por outro procedimento que a IGAS sugere que terá de ser devolvido à ULS de Santa Maria, não só por parte de Miguel Alpalhão mas também por parte dos restantes profissionais (médicos, enfermeiros e assistentes operacionais) que beneficiaram da classificação errada das cirurgias.

“Há necessidade de ajuste contabilístico e eventual reposição de valores, sem prejuízo da remuneração devida”, alerta a IGAS, explicando que “deverá estar espelhada a diferença entre o que foi indevidamente remunerado por GDH em cirurgia ambulatória e o que devia ser efetivamente pago por pequena cirurgia que não pode ser remunerada por GDH”.

Nota: notícia corrigida às 9h30 com o valor do gasto da ULS de Santa Maria com cirurgias extra na dermatologia em 2024, que foi de 1,46 milhões de euros