O Presidente da Sérvia, Aleksandar Vučić, está a ser acusado de ter participado no chamado “turismo de atiradores”, organizado durante o cerco de Sarajevo, na guerra da Bósnia nos anos 90. As alegações, que o próprio nega “categoricamente”, foram apresentadas pelo jornalista de investigação croata Domagoj Margetic, que entregou às autoridades italianas “todas as provas, materiais de vídeo, documentação fotográfica, gravações áudio e documentação mediática da época” que, no seu entender, ligam Vučić a “safaris humanos”.
De acordo com o The Guardian, Margetic alega que Vucic, na altura um jovem voluntário e membro de “um destacamento paramilitar sob controlo do Partido Radical Sérvio” em 1992 e 1993, teria estado colocado “numa posição de guerra no cemitério judaico em Sarajevo”, local utilizado como posto de snipers pelas forças sérvias. Segundo o jornalista, existe “informação que o coloca sem qualquer dúvida no tempo e lugar destes crimes”, incluindo imagens de 1993 que, afirma, mostram o atual Presidente sérvio “a transportar uma arma”.
This sniper in the video is #Serbian President Aleksandar #Vučič during the 1992/1995 siege of Sarajevo, killing a #Bosnian civilian in Sarajevo. A fascist state like Serbia that has become home to #Islamic and #Russian terrorists in preparation for the destabilization of #Europe… https://t.co/r3TyxT8qBD pic.twitter.com/HWjyWRffFZ
— Shpe ???????????????????????????????????????? (@LatiiPetrPR) November 16, 2025
Os apoiantes de Vučić rejeitam a acusação, insistindo que o objeto visto no vídeo é um tripé de uma câmara porque o então voluntário trabalhava como jornalista. Por seu turno, o próprio Presidente garantiu tratar-se de “um guarda-chuva“.
A porta-voz presidencial sérvia, Suzana Vasiljevic, classificou todas as acusações como “um exemplo clássico de desinformação maliciosa, criada para corroer a credibilidade institucional da Sérvia e do seu Presidente”, sublinhando que “Vučić não participou em atividades de combate, não usou armas e não teve qualquer papel em operações de guerra”.
O gabinete do Presidente da Sérvia acusa, ainda, Margetic de motivações políticas destinadas a “prejudicar a reputação internacional” do país. Aleksandar Vučić, que em 2021 já tinha negado em entrevista ter alguma vez disparado sobre os habitantes de Sarajevo, reiterou que tudo não passa de “manipulação política”.
A denúncia apresentada por Margetic junta-se ao inquérito aberto pelo Ministério Público de Milão, que investiga cidadãos italianos que terão pago para participar em tiroteios contra civis durante o cerco da cidade. De acordo com os procuradores italianos, grupos de turistas terão sido levados por tropas sérvias para posições nas colinas que dominavam a cidade, de onde podiam “atirar à população por diversão“. Os relatos sobre estes alegados “safaris humanos” ganharam nova relevância após o lançamento do documentário Sarajevo Safari (2022), do realizador esloveno Miran Zupanic, que reavivou uma história que alguns diplomatas e jornalistas dizem que conhecem desde os anos 90.
O cerco de Sarajevo, o mais longo da história moderna europeia, resultou em mais de 10 mil civis mortos entre 1992 e 1996, após a declaração de independência da Bósnia face à Jugoslávia. Durante quatro anos, a cidade esteve debaixo de fogo, com ruas inteiras a ficaram sob ameaça constante, como a Avenida Meša Selimović, conhecida como “Sniper Alley” (Beco dos Atiradores, em português), onde as pessoas circulavam correndo o risco de serem atingidos a qualquer momento. Entre as mortes mais emblemáticas está a do casal Bošco Brkić e Admira Ismić, abatido em 1993 enquanto tentava atravessar uma ponte.