O antigo primeiro-ministro britânico David Cameron revelou esta semana que teve cancro da próstata e que foi submetido a um tratamento bem sucedido no ano passado — e apelou ao governo britânico para que introduza um programa de rastreio deste tipo de cancro, que afeta particularmente os homens acima dos 50 anos, com especial incidência nos homens negros — têm o dobro da probabilidade em relação homens brancos.
Em entrevista ao jornal inglês The Telegraph — que tem em curso uma campanha com vista à introdução de rastreios gratuitos direcionados à população de maior risco no SNS britânico —, Cameron explicou que foi a sua mulher, Samantha, quem o encorajou a fazer um teste PSA quando foi ao médico de família em 2024.
“Quero juntar o meu nome à longa lista de pessoas que pedem um programa de rastreio direcionado”, afirmou Cameron ao jornal. “Não gosto particularmente de falar das minhas questões de saúde pessoais e íntimas, mas sinto que o devo fazer.”
O antigo líder do Partido Conservador, primeiro-ministro britânico entre 2010 e 2016 e atual membro da Câmara dos Lordes, reconheceu que os homens podem sentir-se “embaraçados por falar de algo como a próstata, porque está tão intrinsecamente ligada à saúde sexual”, mas vincou que sentiu necessidade de “emprestar” a sua voz à causa após a sua experiência.
“Sentir-me-ia mal se não me chegasse à frente e não dissesse que tive esta experiência. Fiz um teste. Ajudou-me a descobrir que algo estava mal. Deu-me a oportunidade de lidar com isso”, sublinhou.
No centro da campanha está a realização de testes PSA, um exame ao sangue que procura uma proteína específica que é produzida pela próstata e que ajuda a diagnosticar o cancro da próstata. Há, contudo, muitos falsos positivos devolvidos por este exame — já que a produção em níveis elevados daquela proteína pode estar relacionada com outras condições de saúde que não o cancro da próstata.
No passado, o comité científico que aconselha o governo britânico em relação à prevenção do cancro rejeitou a generalização destes testes devido ao grande número de homens que acaba a ser exposto desnecessariamente a exames mais invasivos. Segundo o The Telegraph, os homens podem pedir este teste aos médicos de família, mas é habitual que os médicos recusem prescrevê-lo a homens abaixo dos 50 anos — e os centros de saúde não os sugerem proativamente. O mesmo jornal sublinha que este sistema tem sido acusado de promover desigualdades no acesso a tratamento, já que os homens das classes média e alta têm maior probabilidade de procurar rastreios.
Foi justamente um teste PSA que permitiu a David Cameron descobrir o seu diagnóstico, como disse o ex-primeiro-ministro na entrevista ao The Telegraph. Em 2024, Cameron e a mulher ouviram na rádio uma entrevista de Nick Jones, na qual o fundador do clube internacional Soho House revelou que tinha descoberto e tratado com sucesso um cancro na próstata depois de um teste.
A mulher de David Cameron, Samantha, disse então ao marido: “Vais fazer um check-up de saúde com o teu médico de família, devias perguntar por isto.”
Na consulta com o médico, Cameron pediu o teste, cujo resultado indiciou uma alta probabilidade de cancro. Na sequência desse teste, o antigo primeiro-ministro realizou mais exames, incluindo uma biopsia, que confirmou o diagnóstico.
“Temos sempre medo de ouvir essas palavras. E, depois, literalmente, enquanto estão a sair da boca do médico, pensamos: ‘Oh não, ele vai dizê-lo. Ele vai dizê-lo. Meu Deus, ele disse-o.’ Depois, veio a decisão seguinte: faço o tratamento? Ou observo e espero?”, recordou. David Cameron foi submetido a um tratamento menos intrusivo com impulsos elétricos.
A revelação de David Cameron surge numa altura em que o comité científico se prepara para emitir, no final de novembro, novas recomendações ao governo britânico sobre o programa de rastreio.