“Os senhores são de gerações diferentes, têm percursos de vida muito distintos e ideias também afastadas um do outro, creio eu.” No pontapé de saída do debate, o moderador José Alberto Carvalho avançou um prognóstico que seria diferente do balanço do jogo. Vindo do debate crispado com Catarina Martins, seria expectável que Henrique Gouveia e Melo voltasse a adotar uma postura combativa em relação à esquerda à esquerda do PS. O almirante sublinhou que não associava Jorge Pinto ao “marxismo-leninismo” com que tinha visado a eurodeputada, deixando a ideia de que, para aquele lado do espetro político, a sua linha vermelha se situa algures entre o Livre e o Bloco de Esquerda.

Com uma inesperada sintonia durante quase todo o frente-a-frente, a temperatura apenas subiria no final. Não entre os dois candidatos, mas com a reação de Gouveia e Melo à pergunta final do jornalista sobre o apoio anunciado por José Sócrates esta quarta-feira à sua candidatura. “José Sócrates votará em quem desejar. Não tenho nada que ver com isso. Parece-me uma pergunta provocatória e até deslocada neste debate. Dá a sensação que tenho alguma relação com José Sócrates”, disse o almirante, sem esconder a irritação. Por sua vez, Jorge Pinto não teve problemas em rejeitar um hipotético apoio do principal acusado do processo Marquês. “Quando fui militante do PS mandei um email a dizer que não apoiava a sua recandidatura a secretário-geral, muito antes de todos os escândalos”, contou o deputado.

Se o debate precisou de chegar ao fim para aquecer, foi no início, por outro lado, que Gouveia e Melo foi mais ofensivo. Mesmo tendo dito que não era “comentador”, o almirante voltou a fazer uma intervenção inicial mais genérica na qual fez referência ao frente-a-frente de terça-feira entre André Ventura e Luís Marques Marques — os candidatos que, segundo as sondagens, partilham consigo o pelotão da frente destas presidenciais. “Não serei nunca uma marioneta, nem uma força de bloqueio por ser uma força de bloqueio”, atirou usando a expressão usada pelo líder do Chega para definir o ex-líder do PSD. Por sua vez, Jorge Pinto aproveitou a sua primeira intervenção para celebrar os 10 anos do Governo da ‘geringonça’ que, lembrou, foi o último a completar uma legislatura — atribuindo esse facto à exigência do então Presidente Cavaco Silva na assinatura de um acordo por escrito.

Depois, o debate seguiria para a discussão do pacote laboral com Gouveia e Melo novamente a não se querer comprometer com um veto à proposta como ela hoje está. Por um lado, assinalava que o veto político do Presidente deve ser “excecional”, mas, por outro, reconheceu que há “um núcleo duro” de direitos que podem estar em causa com a proposta do Governo. Acabaria por ir mais longe, quando Jorge Pinto tomou a palavra para dizer que “há pontos [do pacote laboral] que levantam dúvidas constitucionais”, acompanhando o deputado com um aceno de cabeça e um “sim” seco. O dirigente do Livre insistiu que enviaria o diploma para o TC e pedia ao adversário para ser “mais claro”, a esse nível. Este apenas admitiu que a lei precisa de “mais flexibilidade” sem nunca comprometer a “coesão social”.

Apesar do almirante ter avisado sobre se “discutir muito o tema das legislativas e da governação”, que associou à “espuma dos dias”, e não “os temas da Presidência”, o debate seguiria com a discussão da aplicação do Rendimento Básico Incondicional. Gouveia e Melo não abordou diretamente a ideia, mas deixou um aviso a Jorge Pinto: “Talvez por ser mais velho, tenho algum cuidado com as utopias.” Ao que o membro do Livre respondeu que “há utopias pelas quais vale a pena lutar”, argumentando que também se olhava assim para o SNS e a escola pública, antes do 25 de Abril. O almirante insistiu que “a última utopia foi o marxismo-leninismo que levou milhões para a miséria e transformou sociedades livres em autocráticas”, mas face à estranheza de Jorge Pinto com esta afirmação, mostrou uma compaixão que não se viu com Catarina Martins: “Não estou a acusá-lo de nada, esteja descansado”.

De seguida, o almirante voltaria a atacar o sistema partidário pela “ascensão do populismo”, tirando essa responsabilidade dos ombros de Marcelo Rebelo de Sousa, que “tentou fazer o melhor que podia”, acredita, mas foi traído pelos tempos que “não são fáceis”. Jorge Pinto foi mais concreto na atribuição dessa ameaça à saúde  regime, apontando diretamente o dedo a Ventura e aproveitando igualmente o assunto para desafiar Gouveia e Melo em dois cenários como Presidente: primeiro, se daria posse ao Chega se o partido ganhasse as legislativas por apenas um voto e, segundo, o que faria se houvesse uma revisão “drástica” da Constituição feita apenas a um lado do espectro político.

O submarinista não respondeu à primeira questão, mas disse, quanto à segunda, que uma revisão “não seria desejável” se fosse apenas feita pela direita e não tivesse sido discutida em campanha eleitoral. Admitindo que é o Parlamento quem tem o papel de fazer essa alteração constitucional, acrescentou que “não gostaria” de estar no papel de Presidente nesse cenário, que acredita que “não vai acontecer”. Pressionado por Jorge Pinto, que o lembrou da existência do poder de dissolução da Assembleia, acabaria por dizer que “uma tentativa de revisão à revelia daquilo que se disse que se pretendia” pode ser um dos cenários que constitui “a quebra gravíssima do contrato feito nas eleições” que o levaria a utilizar a bomba atómica. “Já há, pelo menos, dois candidatos que assumem essa clareza”, congratulou-se Jorge Pinto.

Antes das considerações finais, o último tema seria a Justiça, nomeadamente, a morosidade de dois processos que envolveram dois antigos primeiro-ministros socialistas. Gouveia e Melo disse que “mais de dez anos para julgar um caso é excessivo”, numa referência ao julgamento de José Sócrates no processo Marquês. Jorge Pinto seguiu a deixa, avisando que “o poder judicial não pode tentar imiscuir-se no poder político” e lembrando outro caso: o processo Influencer. Passados dois anos, “continuarmos sem um grande avanço” na investigação que levou à queda da maioria absoluta de António Costa, lamentou. E o debate, que começava com o elogio aos dez anos do Governo deste último, acabava com a irritação do almirante face à pergunta sobre o apoio que o primeiro lhe deu.

O diálogo mais revelador

José Alberto Carvalho — Numa entrevista hoje ao fim da tarde aqui na CNN, José Sócrates declarou o apoio à sua candidatura, dizendo que não o conhece pessoalmente, que nunca falou consigo, mas que lhe parece o único candidato que pode impedir a extrema-direita de chegar ao poder. Fica satisfeito ou incomodado com este apoio, sendo que o próprio José Sócrates disse que “se calhar ele não vai gostar que eu o apoie a ele”. 

Gouveia e Melo — O engenheiro José Sócrates votará em quem desejar. Não tenho nada a ver com isso. Essa pergunta parece-me até provocatória e deslocada neste debate. Eu gostaria de falar de um assunto que não foi falado aqui. 

José Alberto Carvalho — Mas deslocada porquê?

Gouveia e Melo — Deslocada porque dá uma sensação que eu tenho uma relação com o engenheiro José Sócrates. 

José Alberto Carvalho — Não, mas ele disse que não. 

Gouveia e Melo — Ainda bem que ele disse que não. Desculpe, isso para mim é espuma dos dias e é politiquice. Não gosto sequer de estar a perder o tempo que já é escasso.