Ao início, foi apenas descrito como um “atirador solitário”. Mais tarde, soube-se a identidade e a história do homem que emboscou dois membros da Guarda Nacional dos EUA num ataque a tiro em Washington DC esta quarta-feira. Falta compreender o motivo.
Rahmanullah Lakanwal, cidadão afegão de 29 anos residente em Bellingham, uma cidade localizada junto ao mar e à fronteira canadiana no estado de Washington, na costa oeste dos EUA, terá decidido deixar para trás a mulher e os cinco filhos para atravessar o país munido de um revólver de alto calibre .357 Magnum. O seu destino acabaria por ser a outra Washington, a capital dos EUA, onde disparou à queima-roupa sobre Sarah Beckstrom, que acabaria por morrer dos ferimentos, e Andrew Wolfe, que se encontra internado em estado crítico.
Alvejado várias vezes depois de atacar os dois militares, Lakanwal não corre perigo de vida e encontra-se não só em tratamento num hospital da capital norte-americana como sob custódia das autoridades. Todas estas informações foram transmitidas por Jeanine Pirro, Procuradora dos Estados Unidos para o Distrito de Columbia, numa conferência de imprensa organizada esta quinta-feira.
Segundo Pirro, Lakanwal enfrenta três acusações de agressão com intenção de matar enquanto armado e uma acusação de posse de arma de fogo durante um crime violento. No entanto, tais declarações foram feitas antes da morte de Beckstrom ser confirmada. O atacante deverá agora contar também com pelo menos com uma acusação de homicídio qualificado. No entanto, a Procuradora-geral dos Estados Unidos, Pam Bondi, disse à Fox News que o governo americano vai tentar que seja sujeito à pena de morte.
Após a sua identificação de Lakanwal, o FBI conduziu buscas na sua residência, sendo que os investigadores apreenderam telemóveis, computadores portáteis, iPads e outros dispositivos eletrónicos. Ao lado de Pirro, o diretor do FBI, Kash Patel, descreveu o ataque “ato hediondo de terrorismo”, mas nem um nem outro revelou quais terão sido as motivações para tal ato. O afegão, de resto, também não estará a colaborar com as autoridades.
Essa, portanto, continua a ser a maior incógnita — o que motivou Lakanwal a cometer estes? A sua vida anterior, porém, fornece algumas pistas, as mesmas que revelam como foi parar aos EUA.
Dos “esquadrões de morte” no Afeganistão à fuga para os EUA
Uma das primeiras informações veiculadas quanto a Lakanwal partiu de Kristi Noem, a secretária da Segurança Interna dos EUA, que indicou que o atacante tinha chegado ao país a 8 de setembro de 2021 ao abrigo de um programa da anterior administração.
Tal como outros cerca de 76 mil concidadãos, Lakanwal entrou nos EUA através da Operação Allies Welcome, um programa de imigração da era Biden para relocalizar milhares de afegãos que ajudaram os EUA durante a guerra no Afeganistão e temiam represálias das forças talibãs que assumiram o controlo do país após a retirada dos norte-americanos.
A revelação de Noem, contudo, pecava por insuficiente. Como Kash Patel admitiria horas depois — após receber confirmações tanto do diretor da CIA, John Ratcliffe, como do secretário da Defesa, Pete Hegseth, — Lakanwal não era apenas um afegão que colaborou com os EUA no Afeganistão, mas um militar que recebeu formação norte-americana.
O próprio Ratcliffe viria depois a público acrescentar alguns detalhes sobre a vinda de Lakanwal, não deixando de criticar a anterior administração de Joe Biden por permitir a sua entrada no país.
“Na sequência da desastrosa retirada das tropas norte-americanas do Afeganistão promovida por Biden, a sua administração justificou a vinda do alegado atirador aos Estados Unidos em setembro de 2021 devido ao seu trabalho anterior com o governo norte-americano, incluindo a CIA, como membro de uma força parceira em Kandahar, que terminou pouco depois da caótica evacuação. Este indivíduo — e tantos outros — nunca deveriam ter tido permissão para vir para aqui. Os nossos cidadãos e militares merecem muito mais do que suportar as consequências dos fracassos catastróficos do governo de Biden”, rematou o diretor da CIA.
Não obstante a admissão de Ratcliffe — rara em si mesma por abordar a natureza sensível das operações da CIA —, a sua comunicação escondeu alguns aspetos que as investigações jornalísticas subsequentes ajudaram a desvendar.
Como confirmaram o The Telegraph, a BBC e o The New York Times, Lakanwal fez parte de uma das “Zero Units” — ou “Unidade Zeros” —, forças de elite que tiveram origem paramilitar mas, ao avolumarem milhares de recrutas ao longo dos anos, acabaram por ser integradas na Direção Nacional de Segurança do antigo governo afegão.
Natural de uma aldeia da província de Khost, Lakanwal tinha cinco anos quando se deu a invasão do Afeganistão por parte dos EUA. Crescendo num país em guerra, terá decidido integrar o esforço de combate contra os talibãs aos 16 anos, começando como segurança e ascendendo posteriormente a especialista em localizadores de GPS.
Um ex-comandante militar que serviu ao seu lado revelou à BBC que Lakanwal foi entretanto recrutado para uma das unidades zero a operar Kandahar, sendo conhecida como Forças Escorpião. Estas, segundo este militar sob anonimato, tiveram início a responder diretamente à CIA antes de passarem para a égide da Direção Nacional de Segurança.
A mesma informação é secundada pela ONG Human Rights Watch, que aponta como as unidades zero foram em grande parte recrutadas, treinadas, equipadas e supervisionadas pela agência de inteligência norte-americana, operando fora da cadeia de comando habitual e especializando-se em incursões noturnas e missões clandestinas.
Segundo a mesma organização, citada pelo NYT, estas unidades foram apontadas como responsáveis por “execuções extrajudiciais e desaparecimentos forçados, ataques aéreos indiscriminados, ataques a instalações médicas e outras violações do direito internacional humanitário“. Por essas razões, alguns grupos de direitos humanos e até os próprios talibãs acusaram-nas de serem “esquadrões de morte”, acusação que a CIA refutou, considerando-a propaganda talibã.
Estas unidades tiveram um papel fulcral até à derradeira queda do governo afegão às mãos dos talibãs e à retirada das forças militares dos EUA do Afeganistão em 2021, garantindo a segurança das bases restantes dos EUA e da NATO. O comandante que combateu ao lado de Lakanwal revela que este, inclusive, terá feito parte do grupo de combatentes que apoiou as tropas norte-americanas para tentar segurar o aeroporto de Cabul e permitir a evacuação de milhares de afegãos.
Terá então sido neste contexto muito particular que Lakanwal e outros membros da sua unidade escaparam do Afeganistão e foram viver para os EUA, com muitos afegãos a reinstalarem-se na área de Seattle, onde o atacante vivia.
A vida como motorista de entregas e os demónios do passado
A presença de Lakanwal em território norte-americano espoletou então uma guerra política quanto à eficácia dos processos de veto dos afegãos que chegaram aos EUA em 2021, visto que tinham sido feitas verificações de antecedentes dos refugiados que fugiram dos talibã.
No entanto, no caso de Lakanwal, sabe-se que o afegão não tinha cadastro criminal nem foram documentadas quaisquer viagens de entrada ou saída do país desde a sua chegada em 2021. Além disso, o programa da administração Biden não conferia um estatuto de imigração permanente aos aderentes, dando-lhes apenas um prazo de dois anos para que pedissem estatutos — como o de asilo — para permanecer no território.
A agência Reuters obteve entretanto acesso ao processo de regularização de Lakanwal, descobrindo que o cidadão afegão solicitou asilo em dezembro de 2024, tendo sido aprovado a 23 de abril deste ano, três meses após Trump assumir o cargo da Presidência dos EUA.
No decurso do seu processo de regularização, Lakanwal foi inicialmente patrocinado por uma organização religiosa local em Bellingham e foi acumulando empregos mal remunerados. O NYT, inclusive, confirmou junto da Amazon que o atacante trabalhou como motorista para a Amazon Flex este verão, entregando encomendas como prestador de serviços independente.
Todavia, se por um lado o seu percurso vinha a sugerir que se estava a adaptar à vida nos EUA, o que um dos seus amigos contou ao NYT revela uma história paralela. Segundo este homem, um amigo de infância que pediu para ser identificado apenas como Muhammad por temer represálias do talibãs, Lakanwal sofria de problemas de saúde mental, em particular stress pós-traumático pelo tipo de ações violentas que cometeu e presenciou ao integrar as unidades zero.
“Ele dizia-me a mim e aos nossos amigos que as operações militares eram muito duras, que o trabalho deles era muito difícil e que estavam sob muita pressão”, afirma. Alguns meios de comunicação adiantam também que Lakanwal começou a recorrer cronicamente ao consumo de cannabis para lidar com esse stress.