Na primeira entrevista como líder do Bloco de Esquerda, José Manuel Pureza assumiu “fragilidades” na ação recente do partido, mas não as atribuiu a Mariana Mortágua, acreditando que o tempo desta como coordenadora do BE ficará na história do partido “pelas melhores razões”. O antigo líder parlamentar bloquista rejeita que Mortágua tenha sido um “ativo tóxico” e acrescenta que esta foi “asperamente atacada”, nomeadamente “por ser mulher”.

“Há duas fragilidades que o BE tem de assumir. Acho que toda a esquerda — mas eu assumo as responsabilidades pelo Bloco — não conseguiu ler com a atenção e o rigor devido a ofensiva de força inédita das direitas em Portugal e não só em Portugal”, começou por dizer, em entrevista à SIC Notícias. “A segunda fragilidade, que já tinha sido assumida, é uma centralização demasiada de funções” na direção bloquista, continuou o professor universitário de 67 anos.

Quanto ao futuro, Pureza prometeu que a direção que encabeça vai “introduzir as mudanças necessárias na organização do partido”, nomeadamente para combater a reconhecida falta de “enraizamento”. Questionado sobre como se vai afirmar à frente do BE estando fora do Parlamento, Pureza assegura que haverá uma “grande articulação” com a representação parlamentar do partido, na pessoa de Fabian Figueiredo.

Além disso, o novo coordenador acredita que haverá vários assuntos a merecer a sua intervenção pública. “Não me faltarão razões para denunciar atropelos aos direitos das pessoas.” Nesse sentido, Pureza promete “encontrar formas de agregação dos militantes de natureza não só territorial como temática”. O conimbricense quer que a esquerda seja capaz de criar um “programa para contrapor a ofensiva da direita”, ao nível eleitoral. “O Bloco tem de ser capaz de, reforçando-se, reforçar a esquerda”, rematou.

Para atingir estes objetivos, Pureza quer uma “presença forte no ambiente estudantil” e lembra que, sendo professor universitário, tem estado em contacto com “a malta mais jovem”. A análise que faz desta faixa etária que quer resgatar para o BE é que muitos jovens estão tomados pelo “individualismo exacerbado”. O novo líder do Bloco atribuiu parte dessa ideologia às redes sociais, que diz estarem “absolutamente” minadas pela extrema-direita.

Para combater essas dinâmicas, Pureza pensa que Bloco e a comunicação social devem “desmontar todos os discursos de ódio” e, nessa sequência, falou do debate presidencial entre Catarina Martins e Ventura como um “exercício de violência brutal de um líder em roda livre”. Não reconhece que a antiga líder do Bloco tenha qualquer responsabilidade pelo caminho que o debate tomou. “Gostava de ver quem quer que fosse a debater com uma pessoa daquelas. A democracia deve agradecer a pessoas como a Catarina por tentar manter o debate elevado”, terminou Pureza.