Pela primeira vez em 31 anos, a peste suína africana — uma das mais mortíferas pandemias animais — foi novamente detetada em Espanha. O surto foi identificado na Catalunha e, embora não constitua qualquer risco para a saúde humana, pode ter um forte impacto económico por causar uma grande mortalidade em porcos e javalis, o que já levou as autoridades portuguesas a lançar um alerta às explorações de Portugal, que se encontra livre da doença há 24 anos.
O primeiro alerta surgiu na quarta-feira da semana passada, 26 de novembro, quando dois javalis selvagens foram encontrados mortos nas proximidades do campus da Universidade Autónoma de Barcelona. As autoridades veterinárias da Catalunha deram o alerta ao Ministério da Agricultura espanhol e os testes laboratoriais viriam a confirmar que se tratava da peste suína africana — uma doença que afeta os suínos, que ocorre tipicamente na África subsaariana e que tem também afetado vários países no Leste europeu.
Como explica o El País, o impacto económico desta doença é devastador: basta um caso para que um país sofra fortes restrições à exportação de carne de porco (dependendo de acordos bilaterais, pode haver uma suspensão total das exportações ou então apenas da zona afetada). De acordo com dados de 2024, ano em que Espanha abateu 54 milhões de porcos, o país ibérico é o maior produtor de carne de porco da União Europeia e o terceiro do mundo, a seguir à China e aos EUA. O Japão e o México já bloquearam por completo as importações de carne de porco a partir de Espanha — e, no contexto da UE, a carne espanhola ainda pode circular, exceto a que é proveniente das 39 explorações situadas num raio de 20 quilómetros do lugar onde foram encontrados os javalis mortos.
Sem uma vacina para a doença, as autoridades espanholas estão a tentar conter a doença usando métodos puramente físicos. Mais de uma centena de elementos da Unidade Militar de Emergências juntaram-se aos esforços das autoridades catalãs para tentar conter a doença — o que implica começar por estabelecer um perímetro em torno da área afetada, impedir a movimentação de javalis para fora dessa área, recolher carcaças para as analisar, capturar animais suspeitos de estarem infetados e ainda destruir os cadáveres dos infetados. É necessário isolar todos os porcos que estejam infetados e garantir a destruição dos cadáveres, de modo a impedir a propagação da doença às 39 explorações da região.
Até agora, foram detetados nove casos, diz o El País, sublinhando que a eventualidade de a doença começar a disseminar-se rapidamente pela população suína espanhola está a preocupar o setor. Casos recentes, como o surto detetado em 2018 na China, obrigou a abater 200 milhões de porcos e causou perdas económicas de cerca de 100 mil milhões de euros, aproximadamente 1% do PIB do país. A doença, que provoca hemorragias internas nos porcos, pode matar em poucos dias todos os porcos de uma exploração onde venha a entrar.
Não se sabe ainda o modo como a doença entrou em Espanha, mas a hipótese mais provável é a de que poderão ter bastado os restos de uma sandes de chouriço ou de presunto deitados ao lixo e comidos por um javali selvagem. A doença é bastante resistente e consegue permanecer em produtos de carne de porco durante vários meses, mesmo sem afetar os humanos que os consumam. Basta que seja consumida por um suíno para que a doença se transmita. O facto de os dois javalis infetados terem sido encontrados num zona relativamente próxima do espaço urbano, perto de áreas de serviço, aponta para esta possibilidade.
Devido à presença dos casos de peste suína africana em Barcelona, as autoridades portuguesas também estão atentas à possível transmissão da doença para Portugal. A Direção-Geral de Alimentação e Veterinária sublinhou que, em Espanha, “foram ativadas medidas de emergência, incluindo delimitação de zona infetada, eliminação de cadáveres, proibição de caça e reforço da biossegurança” — e, por isso, apelou a reforço da segurança em Portugal.
“A DGAV reforça a necessidade de: cumprir rigorosamente as medidas de biossegurança nas explorações, centros de agrupamento e outros locais de alojamento de suínos, garantir a correta limpeza e desinfeção dos veículos; adotar boas práticas de caça, tendo em atenção as medidas de biossegurança ao viajar para fora do país; eliminar corretamente os subprodutos de acordo com a legislação em vigor; relembrar que a alimentação de suínos com lavaduras, restos de cozinha e de mesa é proibida por lei; não deixar restos de comida acessíveis a javalis”, diz um comunicado da entidade.
“A PSA é uma doença viral grave que não representa risco para os humanos, mas provoca elevada mortalidade nos suínos e nos javalis. Sem vacina ou tratamento disponível, a sua presença tem fortes repercussões na produção, no comércio e na gestão das populações de javalis e da caça”, acrescenta a nota.