A Reserva Federal dos EUA, o banco central que comanda a política monetária do dólar, anunciou mais uma descida dos juros em 25 pontos-base – uma decisão tomada por um conselho de governadores muito dividido. A taxa de referência cai para um intervalo entre 3,5% e 3,75%, depois deste corte dos juros que foi o terceiro consecutivo mas que poderá ter sido o último durante a presidência de Jerome Powell.
A decisão foi tomada por nove governadores com direito de voto, com três dissidentes – o número de dissidentes mais elevado de todas as decisões da Fed nesta década. Um dos dissidentes, Stephen Miran, nomeado por Trump há poucos meses para o conselho, queria um corte da taxa de juro superior, de 50 pontos-base, ao passo que dois outros governadores (Jeffrey Schmid e Austan Goolsbee) não queriam qualquer alteração dos juros nesta reunião.
No comunicado final, a Reserva Federal deu um sinal de que este poderá ter sido o último corte das taxas de juro nos próximos meses, embora a mediana das previsões dos diferente responsáveis do banco central indique que ainda deverá haver um corte de mais 25 pontos base (um quarto de ponto percentual) ao longo de 2026.
Esse é, no entanto, um cenário envolto em grande incerteza já que em maio termina o mandato de Jerome Powell, o atual presidente da Fed, e é altamente previsível que Donald Trump nomeie para o banco central um presidente que, embora tenha o poder limitado pelo facto de as decisões serem tomadas por um comité (e não por um presidente apenas), irá exercer uma grande pressão para que as taxas de juro baixem de forma mais significativa.
“Ao ponderar a extensão e o momento de ajustes adicionais à meta para a taxa de juro, o Comité avaliará cuidadosamente os dados recebidos, a evolução das perspetivas e o equilíbrio de riscos”, lê-se no comunicado – uma formulação que, quando foi usada em dezembro de 2024, sinalizou que o comité tinha parado com os cortes naquela fase. E foi assim mesmo: depois de dezembro de 2024, não se fez qualquer redução até à reunião de setembro (de 2025).
“Inflação continua um pouco elevada” mas “riscos no mercado de trabalho aumentaram”
Na habitual conferência de imprensa, após o anúncio da decisão, Powell afirmou que “a taxa de inflação continua um pouco elevada”, com poucas alterações no cenário e nas projeções feitas pela Reserva Federal acerca de como a economia e a inflação irão progredir nos próximos meses. Por outro lado, Powell assumiu que “os riscos negativos no mercado de trabalho aumentaram nos últimos meses”.
“O cenário no mercado de trabalho enfraqueceu nitidamente”, reconheceu o líder da Fed, um banco central que além de controlar a inflação também está incumbido de fomentar o mercado de trabalho.
É “um enquadramento desafiante”, reconheceu o líder da Fed, admitindo que “não há um plano de ação livre de riscos” que se pode seguir neste contexto – ou seja, existe o risco de se descer as taxas de juro em demasia ou, então, de não as descer de forma suficiente. O que “não é o cenário central de ninguém, neste momento, é que a próxima mexida seja uma subida dos juros”.
Em resposta a estas palavras de Jay Powell, os mercados acionistas registaram ganhos superiores a 0,5%, após alguma volatilidade inicial, com os investidores a verem no discurso do presidente da Fed um sinal de que é mais provável que as taxas de juro acabem por descer em 2026 mais vezes do que apenas uma vez, como está atualmente a ser previsto pela mediana das projeções dos vários responsáveis do banco central.