Donald Trump tem a “personalidade de um alcoólico” e usa acusações judiciais para “acertar contas” com adversários políticos. O seu vice-presidente, JD Vance, é um “teórico da conspiração”. E a procuradora-geral norte-americana, Pam Bondi, “errou completamente” na gestão do caso Epstein. São declarações duras que, à primeira vista, poderiam ter sido feitas por um inimigo de Trump, mas longe disso: todas resultam de entrevistas concedidas pela chefe de gabinete do próprio Presidente dos EUA, Susie Wiles, e já obrigaram Trump e os seus aliados mais próximos a vir a público defendê-la.
Numa série de conversas com a Vanity Fair, Susie Wiles abriu o livro sobre o primeiro ano da nova Presidência Trump e fez uma série de declarações já consideradas “explosivas” por órgãos como o New York Times. A começar pela forma como Trump ajusta contas com os seus adversários e inimigos políticos — um modus operandi que a chefe de gabinete pediu que parasse ao fim dos três primeiros meses na Casa Branca, como a própria revelou, embora não tenha tido sucesso nessa empreitada.
“Temos um entendimento vago de que o acerto de contas vai acabar antes do fim dos primeiros 90 dias”, chegou a dizer à revista, clarificando depois que não acredita que Trump esteja numa “ronda de vingança” mas assumindo que estaria a atacar pessoas que lhe fizeram “coisas más”. “Nalguns casos, pode parecer vingança. E pode haver parte disso, de tempos a tempos. Quem o culparia? Eu não”, disse, comentando casos como o da procuradora-geral de Nova Iorque Letitia James ou do antigo diretor do FBI James Comey, ambos processados por Trump (em processos arquivados por juízes federais).
“Não acho que ele acorde a pensar em vingança. Mas se houver uma oportunidade, ele irá agarrá-la“, resumiu também à Vanity Fair. Já esta semana, ao New York Times, explicou que Trump acredita que estas pessoas lhe “fizeram mal” e que “não deveria ser permitido que fizessem o mesmo a outra pessoa, e a forma de se assegurar disso, pelo menos potencialmente, é expor o que lhe fizeram”. A chefe de gabinete de Trump confirmou que a ideia era que essas respostas aos inimigos fossem dadas nos primeiros 90 dias para que não atrapalhassem a “verdadeira agenda” da administração — mas “o sistema judicial trabalha devagar”.
Também sobre Trump, Wiles explicou que tem facilidade em trabalhar com o Presidente norte-americano (que não bebe álcool) por ter crescido com um pai alcoólico. “No caso dos alcoólicos, as suas personalidades ficam exageradas quando bebem. Por isso sou um bocadinho uma perita em grandes personalidades“, e é uma dessas que Trump tem, argumentou — “a personalidade de um alcoólico”, que acredita que “não há nada, zero” que não seja capaz de fazer.
Sobre o caso dos ficheiros Epstein, que tanta polémica — e tanta divisão entre os apoiantes do movimento MAGA, de Trump — tem causado, Wiles não se furtou a criticar a procuradora-geral, Pam Bondi, por ter “errado completamente” ao avaliar o grupo de pessoas para quem o assunto seria importante (a começar pelos próprios eleitores de Trump), tendo chegado a dizer que tinha a “lista de clientes” de Epstein na sua secretária. “Não há lista de clientes, e com certeza que não estava na secretária dela”.
Já os ficheiros que existem foram efetivamente lidos por Wiles, que reconhece que Donald Trump é mencionado, mas “sem estar a fazer nada horrível”; e também reconhece que, apesar de Trump defender o contrário há anos, não existirá informação incriminatória sobre o antigo Presidente Bill Clinton — “Ele [Trump] estava errado sobre isso”.
É também à boleia do caso Epstein que Wiles faz outra avaliação surpreendente: ao contrário de Pam Bondi, o vice JD Vance percebeu a sensibilidade do tema porque é, ele próprio, um “teórico da conspiração”, reconhece a chefe de gabinete da Casa Branca. E “converteu-se” por motivos políticos, tornando-se apoiante de Trump quando estava a concorrer para o Senado, acrescenta. Elon Musk também não é poupado, sendo descrito como um “consumidor de cetamina” (coisa que Wiles veio agora desmentir, embora a Vanity Fair tenha disponibilizado ao New York Times uma gravação em que o jornal garante que se ouve, de facto, essa declaração).
As entrevistas incluem ainda as opiniões de Wiles a propósito de várias posições políticas assumidas por Trump, incluindo aquelas a que se opõe, admitindo que por vezes “perde a votação” no gabinete e que a partir desse momento “alinha” com o Presidente. Entre esses casos encontra-se ter-se manifestado contra o perdão presidencial a pessoas que participaram de forma violenta na invasão do Capitólio, ou contra a guerra das tarifas que Trump abriu contra vários países, e que criou uma “discordância enorme” entre os seus conselheiros.
Com a publicação das entrevistas, num artigo dividido em duas partes, Wiles veio reagir e criticar a peça, que descreveu como “dissimulada” e “difamatória”. E a Casa Branca em peso veio defender a chefe de gabinete, a começar por Trump, que ao The New York Post disse que não leu o artigo mas que Wiles está a fazer um “trabalho fantástico”. E lembrou que já disse no passado que se bebesse álcool “teria uma hipótese muito grande” de se tornar um alcoólico. “É uma personalidade muito possessiva”.
Já JD Vance respondeu sobre o facto de Wiles o ter classificado como um “teórico da conspiração” dizendo que às vezes o é, de facto — “Mas só quando acredito que as teorias da conspiração são verdadeiras“. E Pam Bondi descreveu Wiles domo uma “querida amiga”, elogiando a sua eficácia e lealdade. “Somos família. Estamos unidos”.