A polémica voltou a estalar no seio do futebol português nas últimas. Esta quinta-feira, já depois de União de Leiria, Torreense, AVS e Benfica terem carimbado o apuramento para os quartos de final da Taça de Portugal, Santa Clara e Sporting defrontaram-se no Estádio de São Miguel com o mesmo objetivo no horizonte. No regresso a um palco onde tem tido dificuldades, o leão até arrancou melhor, com João Simões a marcar no início da partida, mas Lucas Soares empatou pouco depois e, já na reta final da partida, Gabriel Silva completou a reviravolta. Contudo, cerca de quatro minutos depois, quando a partida já se encontrava no primeiro dos seis minutos de descontos, Morten Hjulmand caiu na área açoriana num lance de bola parada. De notar que, nessa fase, PV já tinha sido expulso por uma alegada agressão a Iván Fresneda.

[Veja as imagens do lance que resultou no penálti assinalado ao Sporting]

Inicialmente o lance até prosseguiu, com a defesa do Santa Clara a aliviar o perigo mas, como manda o protocolo do videoárbitro, o árbitro João Pinheiro impediu o recomeço para que, na Cidade do Futebol, o VAR Rui Silva pudesse analisar as imagens. Até aqui podíamos estar na presença de um de dezenas de lances que acontecem no mundo do futebol todas as semanas. Contudo, só nove minutos depois Silva solicitou a Pinheiro que fosse ver as imagens, com a decisão final a ser tomada 12 minutos depois e Luis Suárez a converter o penálti 14 minutos depois do seu capitão ter sido atingido na face pela mão de Tiago Duarte, algo que a equipa de arbitragem considerou como “imprudente”, partilhou o árbitro aquando da decisão. A partir daí, o jogo mudou de figura e o Sporting chegou ao triunfo no prolongamento, por Fotis Ioannidis, e vai agora receber o AVS na próxima eliminatória.

VAR, um penálti e os 12 minutos de toda a polémica: Benfica já reagiu ao lance que deu o empate ao Sporting

Para Pedro Henriques, áudio-árbitro da Rádio Observador, a grande penalidade foi “mal assinalada”. “Ao minuto 90+1′ acontece a tal situação. A bola sai do terreno de jogo e o árbitro espera pela indicação do VAR. Entre o lance do Tiago Duarte com o Hjulmand e o árbitro assinalar penálti passaram-se 14 minutos. Através do protocolo, o VAR tem de intervir em situações claras e óbvias. Se é claro e óbvio, não se deve estar tanto tempo a analisar um lance. Sei que há duas situações: o possível penálti e um possível fora de jogo no ataque do Sporting. É demasiado tempo para algo que se pretende que seja claro e óbvio. Relativamente ao lance em si, o árbitro tem hipótese de ir ao monitor, verificar as imagens e manter ou alterar a decisão. Quis manter. Não concordo com a intervenção do VAR, nem com a decisão do árbitro. Não há um braço aberto, não há uma situação de rotação para dar uma cotovelada ou estalo… É uma situação em que ele [Tiago Duarte] tem o braço dobrado, há efetivamente o contacto da mão, mais no pescoço do que na cara. Parece-me um contacto normal, natural do movimento, inconsequente e sem infração”, acrescentou o antigo árbitro no programa Sem Falta.

SC x SCP. “Pénalti mal assinalado para o Sporting”

Ainda o jogo decorria quando o Benfica recorreu à rede social X para partilhar a sua indignação contra “mais um episódio escandaloso”. “O que se passou neste jogo da Taça de Portugal nos Açores é inqualificável e inaceitável para a credibilidade do futebol português. 12 minutos para encontrarem um penálti para beneficiar a mesma equipa de sempre, vez após vez. No mesmo campo onde, o ano passado, uma grande penalidade clara e evidente contra o Sporting nem mereceu a atenção do VAR e onde, já esta época, venceu com um canto fantasma. Fenómenos que acontecem sempre que o Sporting não está a ganhar. É preciso que alguém seja responsável por este descrédito total que está a matar o futebol português. Não vale a pena esta densidade no calendário se as competições forem decididas antes de começarem”, escreveram as águias.

Por seu turno, o FC Porto reagiu já durante a tarde desta sexta-feira, numa “reflexão” com seis pontos difundida no seu site oficial e assinada pela “direção” do clube, liderada por André Villas-Boas. “O balanço deste quase primeiro ano de mandato dos órgãos federativos da arbitragem é dececionante, sendo hoje este setor o principal responsável pela instabilidade vivida no futebol português e aquele que, de forma repetida e continuada, tem sido fonte de perturbação do normal desenrolar da presente época desportiva. Exige-se ao senhor presidente da Federação Portuguesa de Futebol (FPF), Pedro Proença, uma ponderação profunda e a adoção de medidas urgentes sobre o funcionamento da arbitragem em Portugal, bem como sobre o desempenho de várias das suas escolhas para liderar este setor, nomeadamente o senhor presidente do Conselho de Arbitragem (CA), Luciano Gonçalves, e o Diretor Técnico Nacional de Arbitragem, Duarte Gomes”, começam por os dragões, que dão conta das suas “diversas exposições” feitas nos “últimos meses”.

“A política de comunicação desastrosa seguida pelo atual CA, a falta de consistência gritante nos critérios de avaliação de lances semelhantes, a insistência na validação de erros evidentes e um modelo de atribuição de notas cuja relação com critérios de mérito e cujo impacto nas nomeações subsequentes não se encontram devidamente esclarecidos são, na opinião do FC Porto, suscetíveis de semear dúvidas, discórdia e instabilidade técnica junto das equipas de arbitragem, com especial enfoque na videoarbitragem, cujos critérios de análise e tomada de decisão permanecem pouco claros e têm provocado prejuízo dentro dos campos, semana após semana. O resultado é um sistema errático, pouco transparente e profundamente desestabilizador para quem, semanalmente, tem a responsabilidade de tomar decisões dentro das quatro linhas. Foram solicitados esclarecimentos quanto às razões pelas quais integram essa comissão [Não Permanente de Arbitragem] vários comentadores de arbitragem ligados a órgãos de comunicação social e apenas um representante dos clubes do futebol profissional”, acrescenta o FC Porto, que pretende esclarecer “princípios de credibilidade, objetividade e reserva”.

“No entendimento do FC Porto, a posição de influência que esses membros aparentam ter no seio das comissões, aliada ao eco público das suas opiniões e à sua associação direta à FPF, expõe as equipas de arbitragem em futuras tomadas de decisão e na uniformização dos seus critérios, sendo suscetível de continuar a degradar a perceção pública de imparcialidade do sistema e a integridade das competições. Integram essa comissão os senhores Marco Pina, Pedro Henriques, Jorge Faustino, Carlos Carvalho e Patrícia Silva Lopes, do Sporting. Na última semana, muito se falou sobre novos passos de ‘transparência’ na arbitragem, a propósito das inovadoras bodycams. Apesar de, como foi visível ontem [quinta-feira], os benefícios se resumirem a cosmética televisiva — mostrando um árbitro 12 minutos parado no centro do campo à espera de uma decisão do VAR —, talvez fosse mais apropriado, em nome da tão propalada transparência, resolver definitivamente questões determinantes para o futebol português”, lê-se ainda na nota.

Taça não trouxe festa, mas teve 12 minutos de VAR polémico

Como soluções, os portistas pedem “a uniformização da tecnologia VAR em todos os estádios portugueses, a implementação da tecnologia de linha de golo e do fora de jogo semiautomático, bem como a disponibilização imediata dos áudios do VAR”. “O FC Porto está, há mais de um ano, a defender esta uniformização e este investimento e não encontrou, nem na FPF nem na Liga Portugal, a dinâmica necessária para a rápida e urgente implementação destas tecnologias. É determinante, para a credibilidade do futebol português, que esta época seja decidida exclusivamente pelos protagonistas dentro do campo, sendo imperativo que situações como a que se viveu ontem nos Açores não se voltem a repetir nos relvados portugueses”, concluiu o FC Porto.

Por seu turno, Bruno Vicintin, presidente da SAD do Santa Clara, pediu a anulação da expulsão de PV, a partilha das comunicações entre árbitro e VAR e as linhas de fora de jogo, algo que terá falhado devido à… tecnologia. “Esperamos que a justiça seja feita e que não sejamos ainda mais prejudicados. Pedimos para ver os áudios do VAR do lance do penálti. Queremos entender o porquê do VAR — e pelo protocolo ele só deve atuar com certeza do lance — ter demorado mais de dez minutos na revisão. Facto que eu nunca presenciei no futebol mundial. Pedimos para ver as linhas de fora de jogo do lance. Fomos informados extraoficialmente que a tecnologia não funcionou e que as linhas não foram apresentadas na transmissão. Esperamos que não seja verdade porque, se tomar uma decisão por uma tecnologia que não foi apresentada, pode até ser erro de direito e levar, na minha opinião, à anulação da partida, se for o caso”, completou Vicintin na rede social Instagram.

Sporting nos Açores? Abram alas para nova polémica

“Nós, jogadores do Santa Clara queremos protestar por sermos obrigados pela Liga Portugal a jogar frente ao Arouca com menos de 72 horas de descanso, devido ao facto de o jogo ter ido a prolongamento. Este mesmo facto já devia ter sido considerado na marcação do jogo, visto que, na época passada, em Alvalade, o nosso jogo já tinha ido a prolongamento, tal como aconteceu nesta edição da Taça. Lamentamos o facto de o Sindicato dos Jogadores não se pronunciar em nossa defesa, colocando-nos, por falta de descanso, até em risco de lesões. Seguimos juntos e unidos, a trabalhar com profissionalismo para honrar o nosso clube e a nossa região. No entanto, exigimos respeito e profissionalismo de todas as entidades”, partilharam os jogadores do Santa Clara nas redes sociais.

Entretanto, o Sindicato dos Jogadores reagiu a este protesto e mostrou-se “solidários” com os jogadores insulares. “O problema da sobrecarga competitiva e da má gestão dos calendários está na agenda do Sindicato dos Jogadores e da FIFPRO, a nível internacional, há vários anos, com estudos anuais que indicam a necessidade de medidas que protejam a saúde, física e mental, e o bem-estar dos atletas. Salienta-se, aliás, que a gestão dos calendários é feita exclusivamente pela Liga e as decisões sobre marcação ou adiamento de jogos regulamentadas entre clubes, não havendo dos protagonistas do jogo, infelizmente, um direito a intervir e vetar decisões que põem em risco a sua saúde e bem-estar, potenciando o risco de lesões. O Sindicato dos Jogadores adere com total empenho às reivindicações dos jogadores do Santa Clara, acolhendo as suas preocupações e dando-lhes as boas vindas a esta luta de toda a classe”, acrescentou o organismo em comunicado.

“Esperamos que haja a capacidade da Liga e dos clubes envolvidos – Santa Clara e Arouca – para encontrar uma solução para este problema, mas também que haja uma reflexão séria em Portugal sobre a organização dos calendários e medidas que protejam os jogadores, sobrecarregados por: número de jogos; falta de descanso no intervalo entre jogos; viagens e períodos de concentração contínuos sem o respeito pelos períodos de repouso ou férias. Todos estes problemas põem em causa os profissionais e a integridade da competição. O Sindicato dos Jogadores desafia, ainda, os clubes lesados a aderirem a esta luta, de uma forma regular e concertada para uma efetiva mudança e não apenas a reagir, quando surge um problema. A saúde dos jogadores estará sempre em primeiro lugar e, acima de qualquer valor, é irrenunciável e defendemos uma ação musculada de toda a classe para a defesa desse direito”, completou o Sindicato dos Jogadores.