Henrique Gouveia e Melo guardou os torpedos todos para o último frente-a-frente e começou ao ataque a Marques Mendes, acusando-o de ser “opaco”, um “lobista”, um “facilitador de negócios“, que “protege os ricos” sem honrar a herança de Sá Carneiro. Na resposta, num debate realizado na TVI, Marques Mendes acusou o adversário de estar “desesperado” e lembrou que “pelas sondagens, não será Presidente”. O debate teve vários momentos tensos, com um Gouveia e Melo tanto tempo ao ataque que obrigou Mendes a estar sempre à defesa.

Apostando em levar os negócios de Mendes para a arena do debate, Gouveia e Melo disse que mantém as “dúvidas” sobre a vida profissional, apesar de Mendes ter revelado os clientes da sua empresa familiar. Isto porque, regista, “só revelou uma parte do universo, falta a parte da Abreu Advogados”. Depois elencou várias notícias que adensaram dúvidas nos últimos dias.

Marques Mendes respondia que Gouveia e Melo foi competente na pandemia mas que, “nos últimos meses, delapidou um capital enorme de credibilidade e popularidade”. “Muita gente diz: quem o viu e quem o vê, é uma desilusão. Prometeu uma nova política e cá está a velha política das insinuações e suspeições”, atirou o ex-líder do PSD.

Gouveia e Melo não parou de bombardear Mendes com dúvidas sobre a sua vida profissional, o que levou o candidato apoiado pelo PSD a atirar: “Você está transformado num André Ventura”. Sobre a queixa anónima de que foi alvo, lembra que a PGR arquivou o caso. E quando Gouveia e Melo mostra nova fotocópia para as câmaras, insistiu: “Cá está o doutor André Ventura”.

Mendes acabou por não resistir, em determinado momento, e acabou ele próprio fazer acusações para o ar contra o almirante que não concretizou: “Não é muito popular nas Forças Armadas. Vêm contar-me histórias, mas nunca as vou partilhar”.

Sobre o facto de a PGR não ter dado seguimento à queixa contra Mendes, Gouveia e Melo sugeriu que a justiça foi mais rápida do que o habitual. O que levou Mendes a contra-atacar para dizer que a “insinuação” que estava a ser feita — de que teria feito alguma “diligência” para que isso acontecesse — era “gravíssima“. O almirante negou ter feita essa sugestão. “Já pediu desculpa, seguimos em frente”, acaba por atalhar Mendes.

Marques Mendes tentava responder e atirou a equipa de Gouveia Melo contra o almirante: “Este homem transformou-se na politiquice. Porque a pessoa que o orienta e manda nele, um general da politiquice, Luís Bernardo”. Gouveia e Melo não deixaria passar e disse autoritário: “Ninguém manda em mim”. Mendes insistia: “[Luís Bernardo] é o campeão da politiquice. A sua candidatura é um porto de abrigo dos socráticos, depois não se queixe”.

Sobre a experiência política como mais-valia, Gouveia e Melo também trazia a lição bem estudada, lembrando que Mendes falhou na antecipação do TC sobre a Lei da Nacionalidade. Recuperando que Mendes o criticava quando pedia mais investimento em Defesa, lembra que atualmente é o “único a defender que 5% do PIB para a Defesa é irrazoável”.

Marques Mendes tentava equilibrar puxando do valor estabilidade, dizendo que a podia garantir, ao contrário do adversário. O almirante contra-atacava, atirando Marcelo contra Mendes: “Sobre estabilidade, o senhor defendeu sempre as posições do senhor Presidente da República, que foi um dos elementos que criou mais instabilidade no País”.

E quando Mendes lembrou que afastou autarcas a braços com a justiça quando era líder do PSD, Gouveia e Melo aproveitou isso para voltar a atirar ao adversário: “Quando era líder do PSD, não quis candidatos autárquicos que eram arguidos. O que vai fazer se o primeiro-ministro for constituído arguido? Demite-se?”

Marques Mendes indignava-se: “Isso não está em causa, porque o primeiro-ministro acaba de ser ilibado no caso Spinumviva”. Ao que Gouveia e Melo ripostava: “Ainda está a decorrer um processo”.

O debate termina, como começou, tenso, com Gouveia e Melo a acusar Mendes de “não representar o PSD de Sá Carneiro com preocupações sociais” e de ser o facilitador de negócios que “protege os ricos, faz negócio com os ricos”. Mendes respondia que chega ao fim do debate com a ideia de que Gouveia e Melo está “desesperado com a quebra nas sondagens”, não traz nenhuma ideia para o país e “anda sempre à pesca de apoios partidários”.

O diálogo mais revelador

Gouveia e Melo: Luís Marques Mendes é um lobista e um facilitador de negócios. E tem de aceitar isso. Que serviços jurídicos é que prestou? Foi alguma vez a uma barra de advogados? Defendeu alguém em processos? O que abre é portas. Se eu quisesse seguir todos os negócios que promoveu esta pasta não chegava, porque é muito grande essa relação. E claro que vai dizer que o escritório não permite a divulgação. Tem é de dizer quais são os interesses. Quer ir para a Presidência, não pode ser refém nem de interesses pessoais nem daqueles com que lidou. Eu se for para a Presidência vou com toda a liberdade que me deu defender a minha pátria unicamente na Marinha. Não sei se consegue dizer o mesmo.
Marques Mendes: Consigo. Não se pode passar meramente insinuações, atirar a pedra e esconder a mão. Diga-me um exemplo em concreto de um caso da minha promiscuidade entre política e negócios, de conflito de interesses.
GM: Um exemplo… O senhor foi…
MM: Não, diga um exemplo.
GM: Foi sócio de uma empresa envolvida nos vistos Gold. Foi ou não foi?
MM: Não.
GM: Ai não foi?
MM: Fui sócio, completamente, já o disse. Mas diga-me uma acusação em concreto, o que fiz de ilegal, imoral ou conflito de interesses. Não vai atirar a pedra e esconder a mão.
GM: A minha mão está aqui, não está escondida.
MM: Um exemplo em concreto, estou fora há 18 anos. Concretize.
GM: Em vez de se vitimizar tem de dizer quais os interesses. Não vire o bico ao contrário. Não sou eu quem tem de dizer os seus clientes. Tem de dizer quem são para tranquilizar os portugueses. O senhor não revela (…).
MM: O senhor nos últimos tempos transformou-se no maior arauto da velha política. Não fala do país, não tem uma ideia para o país. Não tem nada a dizer às pessoas, a propor. Zero. Especializou-se em dizer mal, em fazer ataques pessoais.