Acompanhe o nosso artigo em direto sobre a campanha presidencial
O candidato presidencial António Filipe afirmou este domingo que o seu adversário Luís Marques Mendes pretende ser Presidente da República para apoiar a política do Governo, considerando normal que o primeiro-ministro o apoie na campanha.
Após um contacto com a população no Barreiro, distrito de Setúbal, António Filipe foi questionado sobre a participação do primeiro-ministro este domingo numa ação de campanha de Luís Marques Mendes, respondendo que “é normal”.
“O candidato Luís Marques Mendes é o candidato do PSD e o Luís Montenegro é o presidente do PSD. E, portanto, acho natural, acho que isso coincide perfeitamente. Luís Marques Mendes pretende ser o Presidente da República deste Governo e para apoiar a política deste Governo, e, portanto, eu acho natural que o primeiro-ministro o apoie”, afirmou o candidato presidencial apoiado pelo PCP e PEV.
“Se há um candidato do Governo é o candidato Luís Marques Mendes. Eu creio que isso é um dado adquirido. Agora, é óbvio que faz parte do seu discurso eleitoral procurar, de certa forma, demarcar-se, sobretudo, daquilo que são as medidas mais impopulares deste Governo. Mas isso, eu diria, está colado à pele”, comentou António Filipe.
Sobre o voto útil no candidato presidencial apoiado pelo PSD pedido hoje por Luís Montenegro, o ex-deputado comunista respondeu: – “Mas o voto útil é em Marques Mendes? Meu Deus!”.
Para António Filipe, “uma candidatura vale por si ou não vale nada”.
“E a minha candidatura quer valer por si, independentemente de quaisquer outras candidaturas, seja elas mais à direita ou mais ao centro, mas a minha candidatura é a candidatura assumidamente da Constituição, dos valores de Abril, da esquerda”, frisou, referindo que, quando surgiu, a sua “era uma candidatura que se demarcava das já existentes e que era insubstituível”.
No seu discurso perante os apoiantes, António Filipe voltou a falar sobre o pacote laboral e recuou no tempo falando em três candidatos que “nada fizeram” para lutar contra as medidas da troika, como Marques Mendes, André Ventura e António José Seguro.
“Eu digo que há os candidatos que apoiam o pacote laboral e há os candidatos que estão em cima do muro a ver para onde é que as coisas caem. E eu não estou em nenhuma dessas posições, eu estou claramente do outro lado do muro, do lado dos trabalhadores, do lado daqueles que se sentem lesados se este pacote laboral for por diante e é aí que eu quero estar”, disse depois aos jornalistas, referindo que espera que a proposta do Governo seja derrotada antes das eleições presidenciais.
No final do encontro, António Filipe ainda bebeu uma ginjinha e comeu bolo-rei junto com os apoiantes.
O arranque da campanha com o apoio de ex-presos políticos em Peniche
O candidato começara a campanha oficial na histórica fortaleza de Peniche onde recebeu apoio de ex-presos políticos, ouviu testemunhos da vida na cadeia e alertou para forças políticas que procuram “branquear o fascismo”.
Transformada no Museu Nacional Resistência e Liberdade, a fortaleza de Peniche e antiga prisão politica (1934-1974), no distrito de Leiria, foi o local simbólico escolhido por António Filipe para dar o arranque à campanha oficial para as eleições de 18 de janeiro.
“Marca também algo que me distingue profundamente enquanto candidato e que creio que deve ser uma marca desta candidatura: a resistência ao fascismo, àqueles que querem branquear a história, querem branquear o que foi a ditadura fascista em Portugal e que terá na minha candidatura uma oposição muito firme”, afirmou.
Ao falar em branqueamento especificou dirigir-se a quem “procura desvalorizar o que foi a ditadura fascista, procurando dar a ideia de que foi uma ditadura de brandos costumes” e, sublinhou, “não foi”.
“Ninguém ignora que há forças políticas em Portugal que procuram desvalorizar o que foi a luta antifascista, procuram branquear o fascismo e, com isso, atacar a democracia e é contra todas essas forças que eu me apresento”, frisou.
No interior da histórica fortaleza foi entregue a António Filipe um abaixo-assinado e ouviram-se testemunhos de quem esteve preso nesta e em outras cadeias durante o regime do Estado Novo.
“Venho aqui entregar o apoio de 159 ex-presos políticos, que estão aqui uma parte deles, com o nosso inteiro apoio à sua candidatura”, afirmou Ana Abel, com 79 anos e que foi detida em 1965.
Ao som das palavras de ordem “fascismo nunca mais, 25 de Abril sempre”, acrescentou: “Os tempos são difíceis, mais uma vez a democracia e a liberdade apelam à nossa coragem política, à nossa determinação, à nossa profunda convicção de que os valores que nos levaram a lutar contra a ditadura são agora mais que atuais”.
António Filipe agradeceu, destacou o “enorme significado” do apoio de “tantos presos políticos”, garantiu que é um grande incentivo para a sua candidatura e salientou que “os resistentes antifascistas” são os seus heróis.
O museu é um lugar de memórias, ali estiveram mais de 2.600 presos políticos e, logo à entrada, falou-se na fuga de Álvaro Cunhal e de outros companheiros que aconteceu a 03 de janeiro de 1960.
Antonio Filipe destacou a importância do museu também para que as “novas gerações tenham a consciência do que foi o fascismo em Portugal e da importância que tem a luta pela democracia” e da “Constituição que dela emanou” e que o Presidente da República tem o dever de “cumprir e fazer cumprir”.
José Marcelino, 86 anos, esteve preso em Peniche sem “nunca ver o mar” e lembrou a luta mais recente contra os que pretendiam “branquear a história” e transformar a antiga fortaleza numa “pousada para ricos”.
“Procura-se dizer que o fascismo era uma coisa branda, não era branda. Eu, o meu irmão e o meu pai fomos presos no dia primeiro de maio, às 07:00, em casa e levados para a cadeia do forte do Caxias e foram cinco vezes que eu estive preso na cadeira porquê? Por lutar pela liberdade, para que todas as crianças e jovens tivessem acesso a ensino, à educação, contra a guerra colonial e censura”, contou Eugénio Ruivo, 72 anos e que foi preso, pela primeira vez com 17 anos.
Quase no final da visita, questionado sobre se a visita à antiga prisão não reforça a ideia de que esta é uma candidatura de fação, como tem sido acusado por adversários, António Filipe disse que “homenagear aqueles que lutaram contra a ditadura fascista é uma causa que deve unir todos os democratas”.
“Eu nunca tive a intenção de esconder a minha origem política, assumo-a com muito orgulho, mas tenho a noção e sempre disse que o papel do Presidente da República é fazer cumprir a Constituição, não é um cargo partidário”, frisou.
Referiu ainda que “lutar pela democracia não é uma luta de fação, é uma luta que deve unir todos os democráticos e que deve estar muito presente” quando se vai eleger o Presidente da República.