“Muitas vezes, mesmo que a ambulância estivesse à porta do doente, a situação era igual. Não vale a pena estarmos pensar que vamos conseguir evitar todas as mortes porque não vamos”. O comentário foi feito por António Nunes, presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses, poucas horas depois de terem sido noticiados três casos – dois na margem sul do Tejo e um no Algarve – de pessoas que morreram à espera de assistência médica. Para António Nunes, o problema não é o financiamento nem a falta de meios, há melhorias “técnicas” que podem ser feitas.
“Os meios são suficientes se forem muito bem geridos”, afirmou António Nunes aos jornalistas após uma reunião com o INEM. Ao lado de Luís Mendes Cabral, presidente do INEM, o presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses salientou que o grupo técnico de acompanhamento permanente – entre os dois organismos – vai “na próxima semana fazer uma reunião para fazer um documento explicativo que seja enviado aos corpos de bombeiros”. Esse documento será produzido e será público, adiantou.
Além disso, “vamos solicitar aos corpos de bombeiros que deem uma disponibilidade dos meios com maior celeridade”, porque, “em alguns casos, sobretudo Lisboa e Setúbal, às vezes a informação não está a fluir como gostaríamos”. Também na próxima semana vai ser apresentada pela Liga “uma proposta de ajustamento dos valores que estão acordados para 2026 que tem muito a ver com o aumento do salário mínimo nacional e com a taxa de inflação” – mas o problema, repetiu, não está no financiamento.
O número de meios que existe é suficiente se for muito bem gerido, em particular em alturas de crise”, ressalvou. Estamos numa fase em que hospitais têm muitos doentes por causa da gripe e temos alguma utilização de ambulâncias que estão com um tempo demasiado e situações podem vir a acontecer”.
“O que temos é de fazer um esforço para levar ao limite a nossa capacidade de desenvolvermos no imediato a nossa resposta. Demora tempo, não há falta de vontade nem do INEM nem da nossa parte”, frisou.
Relativamente aos três casos noticiados nas últimas horas, o responsável diz que não se pode afirmar “de forma linear que foi ou não por essa razão”, pelos problemas com os meios ao dispor do INEM. “Neste momento aquilo que a Liga dos bombeiros portugueses é dar uma palavra de tranquilidade de que estamos a fazer tudo para que situações como essa não ocorram – e se acontecerem temos de aguardar que os inquéritos sejam feitos porque muitas vezes mesmo que a ambulância estivesse à porta do doente a situação era igual”.
“Não vale a pena estarmos pensar que vamos conseguir evitar todas as mortes, não, não vamos”, afirmou, explicando que o problema das doenças súbitas, por vezes associadas a comorbilidades, acabam por levar a algumas mortes inevitavelmente.
INEM garante que irá ser “transparente” sobre inquéritos de averiguação
Na linha do que tinha dito antes do início da reunião, Luís Mendes Cabral garantiu que vão ser “devidamente averiguadas” as situações que “eventualmente possam configurar falha de socorro”. Minutos antes foi noticiado que o INEM iria abrir um inquérito interno sobre o caso de Sesimbra, de uma ambulância que veio de Carcavelos (Cascais) para prestar assistência médica a uma mulher que acabou por morrer.
Idosa morreu em Sesimbra à espera de ambulância que veio de Carcavelos
“Seremos sempre transparentes e muito claros, não haverá qualquer ocultação”, afirmou Luís Mendes Cabral, relativamente aos resultados dessas averiguações.
Sobre a reunião com a Liga dos Bombeiros Portugueses, o presidente do INEM dissse que ela foi “bastante profícua” e garantiu que irá haver um reforço dos meios na margem sul do Tejo, que é uma zona muito problemática neste momento.
“Vai haver um reforço permanente de meios em vários locais. Nós identificamos que temos constrangimentos na AML mas o grande foco tem a ver com a margem sul e é aí que vamos fazer um reforço inicial”, referiu Luís Mendes Cabral, dando como exemplo a conversão de alguns contratos de ambulância para uso sazonal em meios para uso permanente.
Uma idosa morreu na tarde de quarta-feira em Sesimbra (Quinta do Conde) depois de esperar por assistência médica que demorou 44 minutos a chegar, segundo confirmou ao Observador o comandante João Franco. Foi assistida por uma ambulância dos bombeiros de Carcavelos, da qual faz parte João Franco, uma zona que fica a várias dezenas de quilómetros, mais de 40.
Anteriormente, já tinha sido noticiado que a Procuradoria-Geral da República (PGR) tinha aberto um inquérito para investigar a morte de um homem de 78 anos, esta terça-feira, no Seixal, após ter ficado perto de três horas à espera de uma ambulância do INEM.
Seixal. Ministério Público investiga morte de homem após três horas de espera por ambulância do INEM
Mais recentemente, a Lusa noticiou que um homem de 68 anos morreu na quarta-feira em Tavira, depois de ter estado mais de uma hora a aguardar por meios de socorro.
Homem de 68 anos morre em Tavira depois de mais de uma hora a aguardar socorro