O circuito mais famoso do mundo, o Nürburgring Nordschleife, é para onde rumam os mais possantes desportivos que pretendem provar que são os melhores, seja em termos globais, seja no seu segmento ou para um tipo específico de motorização ou de combustível. Sucede que, para espanto de muitos, habituados a ver rodar no circuito alemão modelos por vezes com quase 2000 cv, eis que repente apareceu um pequeno Ligier JS50 com apenas 8 cv. Também ele em busca de um recorde, só que… diferente!
Quando se fala do circuito de Nürburgring, pensa-se de imediato no difícil traçado que Jackie Stewart baptizou “Inferno Verde”, por ter sido desenhado na floresta de Eifel e estar rodeado de árvores, ceifando anualmente entre três a 12 vidas, de acordo com a polícia local. O facto de ser extremamente selectivo, exigindo um bom piloto e com profundo conhecimento dos 20,832 km da pista, mas também um veículo com um motor potente, travões exemplares e um chassi capaz de suportar as dificuldades que a pista lhe coloca, afastou o Nürburgring da homologação para poder acolher a Fórmula 1. Em contrapartida, transformou-o no terreno de testes ideal para os construtores que pretendem afinar o comportamento dos seus modelos. Mais do que isso, é a esta velha pista germânica que os fabricantes levam os seus melhores desportivos para estabelecer o melhor tempo por volta e, assim, os posicionarem no ranking dos melhores do mercado. Desta vez, o clássico traçado acolheu uma estranha tentativa de recorde vinda de um modelo muito peculiar, que não se iria bater pelo recorde da volta mais rápida, mas sim pela volta mais lenta ao histórico circuito, onde Niki Lauda evitou a morte, mas não sem queimaduras profundas.
Convém ter presente que a marca Ligier possui uma história rica associada ao mundo da competição ao mais alto nível, tendo sido fundada em 1968 pelo antigo jogador de rugby e ex-piloto Guy Ligier. Depois de se especializar na construção de veículos de competição, a Ligier criou a sua própria equipa de F1, disciplina em que militou entre 1976 e 1996, período em que conquistou nove pole positions, 10 voltas mais rápidas e nove vitórias. Porém, há muito que este legado de Guy Ligier se especializou na antítese da F1, fabricando pequenos modelos baratos, com dois lugares e um motor pouco potente (a gasolina, a gasóleo e ultimamente eléctrico), capazes de terem ao volante condutores sem carta de condução B1, a exigida para guiar automóveis, mas apenas habilitados com a categoria AM (para ciclomotores e quadriciclos ligeiros) que se pode conseguir com apenas 16 anos ou sem saber ler.
Dúvidas houvesse, o JS50, equipado com um motor diesel com 0,5 litros de capacidade e 8 cv, está limitado a 45 km/h por questões regulamentares, o que não o impediu de enfrentar o circuito com mais de 20 km e para cima de 150 curvas “a dar tudo”, tendo em vista bater o “tempo-canhão” conseguido pelo Trabant P50 lançado em 1957, cujo motor a gasolina com 500 cc debitava uns estrondosos 17 cv e impulsionava até 95 km/h o veículo com carroçaria em plástico, construído pela então Alemanha comunista. Se, no papel, o Ligier não teria hipóteses devido à menor potência e ao facto de estar limitado a uma velocidade de somente 45 km/h, o certo é que o JS50 poderia contar com uma carta na manga: o peso reduzido (420 kg, menos 200 kg do que o P50).
Como é tradicional no Nürburgring, o cronómetro do circuito revelou-se impiedoso, com os corajosos jornalistas franceses que montaram esta tentava de recorde a registarem um tempo de 28 minutos e 25,81 segundos na sua melhor volta, que ficou documentada para a posteridade nos vídeos que pode ver neste artigo. Com esta volta a voar baixinho e sem, aparentemente, precisar de travar em qualquer das curvas do traçado, o Ligier é o novo recordista, em termos de lentidão. Nas calmas, conseguiu ser mais vagaroso do que o Trabant em 1960, que completou a sua melhor volta em 16 minutos e 1 segundo.
Ligier eléctrico bateu o diesel em pista
Já que estava em maré de bater recordes, a Ligier deslocou até Nurburgring um segundo JS50, desta vez com equipado com um motor eléctrico alimentado por bateria, que fornece uma potência de 16,8 cv (12,4 kW), mantendo a limitação dos 45 km/h. Este Ligier revelou-se mais rápido (mas não muito…), necessitando de 27 minutos e 55,58 segundos na melhor volta.
Para esta visita ao circuito alemão, a Ligier preparou uma edição especial do JS50 que vai ser comercializada na Europa, durante 2026. Denominada Ultimate Racing Experience, esta série do JS50 apresenta-se com novas rodas com 16”, que montam pneus Nankang RC semi-slicks, o que deve ser óptimo para os miúdos chegarem mais depressa à escola ou para os mais velhos se despacharem em dia de ir levantar a pensão. Este JS50 mais radical destaca-se, ainda, por exibir uma pintura especial em azul, branco e vermelho, além de outros pormenores no exterior, bem como no habitáculo.