É sempre impossível afastar a importância de um troféu conquistado nos primeiros dias do ano, a meio da temporada e quando a altura de todas as decisões começa a aproximar-se. Barcelona e Real Madrid, naturalmente, tinham plena noção de que ganhar a Supertaça de Espanha ao 11.º dia do ano era também adquirir litros de gasolina para a segunda metade da época — principalmente quando acontece contra o principal e eterno rival.

Este domingo, no King Abdullah Sports City Stadium de Jeddah, na Arábia Saudita, Barcelona e Real Madrid discutiam o primeiro troféu da temporada e a possibilidade de saírem por cima na primeira grande decisão do ano. Na quarta final consecutiva da competição entre catalães e merengues, Hansi Flick e Xabi Alonso tinham diferentes questões, dúvidas e inquietações em jogo. Mas também tinham uma ambição em comum.

Do lado do Barcelona, a ideia passava claramente por começar desde já a repetir a temporada passada. Os catalães conquistaram a Supertaça, a Taça do Rei e a La Liga em 2024/25, goleando o Real Madrid nas duas finais, e os quatro pontos de vantagem que levam nesta altura na liderança do Campeonato permitem sonhar com uma repetição dos festejos recentes. Para completar um xadrez igual, porém, era preciso ganhar já este domingo.

Do lado do Real Madrid, a ideia passava claramente por começar desde já a inverter a temporada passada. Os merengues perderam tudo em 2024/25, goleados pelo Barcelona nas finais da Supertaça e da Taça do Rei e ficando a quatro pontos do rival no Campeonato, e a verdade é que a irregularidade de exibições e resultados têm dificultado a capacidade de sonhar com o contrário. Para dar a volta ao texto, portanto, era preciso ganhar já este domingo.

Assim e depois da goleada imposta ao Athl. Bilbao na meia-final, Hansi Flick fazia apenas duas alterações ao onze e trocava Ferran Torres e Roony Bardghji por Lamine Yamal e Lewandowski, deixando Rashford e Dani Olmo no banco. Já Xabi Alonso, que derrotou o Atl. Madrid no dérbi da outra meia-final, limitava-se a colocar Dean Huijsen ao lado de Raúl Asencio no eixo defensivo, em detrimento de Rüdiger, mantendo a aposta em Gonzalo García com Rodrygo e Vinícius no ataque. Kylian Mbappé, embora já recuperado e convocado, ainda era suplente. 

Apesar de o Barcelona ter começado com mais bola e maior presença no meio-campo contrário, a verdade é que a primeira situação de perigo da final pertenceu ao Real Madrid e a Vinícius, que acelerou na esquerda e rematou rasteiro para Joan García encaixar (15′). Os catalães tinham a iniciativa, os merengues ficavam à espera de um erro ou de uma recuperação de bola para ativar a transição rápida no espaço e o jogo foi avançando sem grandes aproximações às balizas.

A dinâmica mudou ligeiramente à passagem da meia-hora, com a equipa de Xabi Alonso a subir um pouco as linhas e a criar mais espaço na zona do meio-campo, deixando o jogo mais aberto. Raphinha rematou forte para Courtois defender (27′), Gonzalo García apareceu na cara de Joan García a atirar para o guarda-redes encaixar (33′) e o mesmo Raphinha, instantes depois de falhar o alvo (35′), abriu o marcador: recebeu na esquerda, avançou, entrou na área e rematou rasteiro e sem hipótese (36′). 

O período de descontos, porém, foi diabólico. Vinícius começou por empatar na sequência de um lance brilhante em que arrancou quase no meio-campo e passou por Koundé como manteiga no pão, marcando pela primeira vez desde outubro (45+2′), Lewandowski recuperou a vantagem dos catalães com uma bola picada na cara de Courtois após passe de Pedri (45+4′) e Gonzalo García igualou novamente com um remate já em esforço na sequência de um canto (45+7′). Ao intervalo, depois de minutos brutais em Jeddah, Barcelona e Real Madrid estavam empatados na final da Supertaça de Espanha. 

Nenhum dos treinadores fez alterações no início da segunda parte e a lógica do jogo era mais semelhante à que se impôs depois da meia-hora do primeiro tempo do que propriamente à que tinha acontecido até aí: mais espaço, mais transições, mais situações de perigo. Vinícius teve a primeira oportunidade com um remate de fora de área que Joan García defendeu (52′), teve a segunda oportunidade com outro pontapé já na área que Joan García desviou (56′) e criou a terceira oportunidade para Rodrygo permitir mais uma defesa de Joan García (63′).

Hansi Flick foi o primeiro a mexer, lançando Ferran Torres e Dani Olmo já depois da hora de jogo, e Xabi Alonso respondeu com Arda Güler. Pouco depois, já dentro dos últimos 20 minutos, apareceu o momento decisivo da final: instantes após forçar Courtois a mais uma boa defesa (71′), Raphinha recebeu à entrada da grande área, escorregou antes do remate e beneficiou de um desvio em Raúl Asencio para enganar o guarda-redes e bisar (73′).

Xabi Alonso ainda colocou Mastantuono, David Alaba e Mbappé, Frenkie de Jong foi expulso com cartão vermelho direto depois de uma entrada dura, Ronald Araújo ainda teve direito a regressar aos relvados e já nada mudou. O Barcelona venceu o Real Madrid em Jeddah, vingou a derrota sofrida no Campeonato no primeiro El Clásico da temporada e conquistou a Supertaça de Espanha pela 16.ª vez e pela segunda consecutiva, com Raphinha novamente em destaque depois de já ter bisado na final de há um ano.