O (possível) herói tornou-se vilão. Como em tantas outras histórias que só o desporto, e em particular o futebol, consegue proporcionar, Brahim Díaz teve no pé direito a hipótese de ser o grande herói de Marrocos na última Taça das Nações Africanas (CAN), que decorreu em território marroquino. Numa final que começou a ser jogada bem antes do apito inicial no estádio Prince Moulay Abdellah, em Rabat, e que contou com praticamente tudo, desde problemas no hotel onde ficou hospedada a seleção senegalesa a alegadas intoxicações alimentares, passando por comportamentos impróprios dos apanha-bolas, foi no tempo de compensação que se viveram os momentos mais dramáticos. Já depois de a equipa “visitante” ter visto um golo anulado de forma bastante polémica por conta de uma falta sofrida por Achraf Hakimi, o árbitro congolês Jean Ndala assinalou uma grande penalidade para Marrocos nos instantes finais.

Foi a partir daí que o caldo entornou como nunca se tinha visto a este nível. Perante o sucedido dentro de campo e como resposta às atitudes da equipa de arbitragem, os jogadores do Senegal decidiram abandonar o terreno de jogo e partiram em direção ao balneário. Depois de cerca de 15 minutos de incerteza e com alguns distúrbios nas bancadas, Sadio Mané conseguiu convencer os companheiros a regressar e a final pôde prosseguir com a normalidade possível. Afinal, ainda havia um penálti para ser batido. Como em várias outras ocasiões, Brahim Díaz assumiu a responsabilidade. Assim, aos 90+24′, o camisola 10 agarrou na bola, aguentou as tentativas de desestabilização dos adversários, em particular de Édouard Mendy, apresentando um semblante impenetrável, e arrancou na direção da baliza, mas uma tentativa de Panenka que saiu a meio gás acabou por levar o jogo para o prolongamento e criar toda uma situação caótica.

No final, o Senegal acabou por levantar o troféu devido a um grande golo de Pape Gueye, antes de o hispano-marroquino ter sido substituído na primeira parte do prolongamento já depois de um dos remates mais perigosos com a equipa em desvantagem (1-0). Desta forma, Marrocos continua sem conseguir repetir a conquista da CAN de 1976, ainda que tenha vencido três das últimas quatro edições do Campeonato das Nações Africanas (CHAN), a prova continental integralmente destinada a jogadores que atuam no seu país (2018, 2020 e 2025). Para além disso, a seleção magrebina é a atual detentora da Taça das Nações Árabes, que aconteceu em dezembro. No que respeita a Brahim Díaz, o jogador conta com um currículo invejável aos 26 anos, tendo 11 troféus no seu palmarés sénior, aos quais se junta a Premier League de Sub-18 conquistada no Manchester City em 2015/16. Os grandes destaques vão para a Liga dos Campeões de 2023/24 e para as ligas de Espanha (2019/20 e 2023/24), Inglaterra (2017/18) e Itália (2021/22).

No final do jogo, Brahim Díaz foi o rosto da frustração marroquina e o principal alvo da ira dos adeptos. Ainda assim, no meio da desilusão, o jogador do Real Madrid foi coroado o melhor marcador da competição, com cinco golos, e acabou confortado por Gianni Infantino, presidente da FIFA, na altura em que recebeu o prémio. Cerca de 24 horas depois do sucedido, Brahim recorreu às redes sociais para se desculpar. “Dói-me a alma. Sonhei com este título graças a todo o amor que me deram, a cada mensagem, a cada demonstração de apoio que me fez sentir que não estava sozinho. Lutei com tudo o que tinha, colocando o coração acima de tudo. Ontem [domingo] falhei. Assumo toda a responsabilidade e peço desculpa do fundo do coração. Vai-me custar recuperar, porque esta ferida não cicatriza facilmente, mas vou tentar. Não por mim, mas por todos os que acreditaram em mim e por todos os que sofreram comigo. Seguirei em frente até que, um dia, possa retribuir todo este amor e ser motivo de orgulho para o meu povo marroquino”, partilhou no Instagram.

Como não podia deixar de ser, a publicação tornou-se viral, contando, esta terça-feira, com quase 4 milhões de “gostos” e mais de 470 mil comentários, com destaque para as mensagens de apoio dos companheiros de equipa do marroquino, entre eles Jude Bellingham, Vinicius Júnior e Álvaro Carreras. Ainda assim, as reações não se ficaram pelas redes sociais e partiram de diversas figuras do mundo do futebol, a começar por Luis Enrique, treinador do PSG que aproveitou a antecâmara do jogo desta terça-feira com o Sporting para enviar uma mensagem a Brahim. “Todos criticam o Brahim mas eu lembro-me do Zidane, que é um deus do futebol, e que falhou um penálti na final do Mundial [2006, contra Itália]. Isso já aconteceu a muitos jogadores. Quando acertas, todos aplaudem, mas quando erras num jogo como este, és criticado violentamente. Conheço bem o Brahim. Convoquei-o para a seleção espanhola e gostava de dizer que isso é o desporto. Nada mais. É preciso mostrar que podemos ganhar e que podemos perder”, explicou em pleno Estádio José Alvalade, na antecâmara do jogo entre Sporting e PSG.

“Não se deve exagerar. Ele não fez nada de mal. Não matou ninguém. Vocês, que têm essa força para expressar a vossa opinião, tentem promover o respeito por um jogador jovem que enfrenta muita pressão. O Brahim Díaz é um jogador magnífico. É um futebolista excecional e uma pessoa muito boa. Entendo que seja difícil de aceitar. O mais importante são os valores que podes transmitir às pessoas. O Brahim não é um assassino nem uma má pessoa. É importante dizê-lo”, concluiu o timoneiro do atual campeão da Europa, que mencionou ainda Sergio Ramos, outra das personalidades que defendeu publicamente o antigo colega de equipa. “Só falham aqueles que têm a personalidade para marcar. Brahim, cabeça levantada sempre, irmão. O futebol dá sempre uma segunda oportunidade e tu já nos deste muito mais do que aquilo que te escapou. Vamos para a próxima batalha com mais força! Sempre na minha equipa”, partilhou o central no Instagram.

Por outro lado, Hervé Renard, treinador que orientou a seleção de Marrocos entre 2016 e 2019, mostrou-se bem mais crítico com o penálti desperdiçado por Brahim Díaz. “Falhar um penálti é compreensível mas, nestes casos, sou inflexível e não tenho nenhuma compaixão. É uma falta de respeito por todo um país e por um povo que luta para alcançar o sucesso há 50 anos. Numa escala menor, vivi algo semelhante na Taça Árabe contra Marrocos. Um dos meus jogadores, o Abdullah Al-Hamdan, desperdiçou um penálti batido à Panenka. Pedi-lhe que fosse comigo à conferência pedir desculpa. Se isso tivesse acontecido na final da CAN, podia ter perdido a cabeça. O perdedor é o continente africano. Estes acontecimentos não pintam um panorama bonito, mas não temos o poder de reescrever a história. Tudo começou com uma má decisão de um homem, o árbitro, de anular o golo senegalês. É fácil dizê-lo agora, mas tudo aconteceu depois disso. Este Senegal-Marrocos, com o seu final caótico, será recordado daqui a 30 ou 40 anos”, assumiu o atual selecionador da Arábia Saudita, que conquistou a CAN de 2012 pela Zâmbia e a de 2015 ao serviço da Costa do Marfim, em entrevista ao Le Parisien.

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A escolha de Marrocos, a ida para Inglaterra e o regresso a Espanha

Nascido em Málaga a 3 de agosto de 1999, Brahim Díaz deu os seus primeiros passos no futebol ao serviço dos locais UD Mortadelo e CD Tiro Pichón. Com apenas sete anos chegou as camadas jovens do Málaga e, pouco depois, em 2010, foi eleito jogador revelação do Torneio Alevín, que é conhecido por ser o impulsionador das futuras promessas de LaLiga. Esse feito atirou-o para o radar de Barcelona e Real Madrid, que tentaram contratá-lo no ano seguinte, mas o jogador optou por continuar em Málaga depois de ter recebido uma proposta mais atrativa. Em 2013 foi a vez do Man. City bater à sua porta e pagar 300 mil euros, mais objetivos, pelo seu passe, num negócio que acabou por ter Manuel Pellegrini como figura central. A estreia como profissional aconteceu em setembro de 2016, com 17 anos e 49 dias, num jogo frente ao Swansea a contar para a Taça da Liga inglesa.

Sem conseguir afirmar-se na Premier, Brahim regressou a Espanha em janeiro de 2019, com os merengues a consumarem um desejo antigo por 17 milhões. Ainda assim, o jogador não teve muitas oportunidades na equipa principal e foi emprestado, em setembro de 2020, ao AC Milan. Em Itália, o seu rendimento disparou, levando os rossoneri a prolongarem o seu empréstimo por mais duas temporadas, resguardando uma cláusula de opção de compra de 22 milhões, com o Real a ficar com 27 milhões de opção de recompra. Na segunda temporada na Serie A, Brahim sagrou-se campeão e tornou-se no terceiro futebolista a ganhar os campeonatos de Espanha, Itália e Inglaterra, algo que apenas Cristiano Ronaldo e Danilo tinham conseguido. No final do acordo regressou aos blancos para ocupar a vaga deixada por Marco Asensio.

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Desde que regressou ao Real Madrid, Díaz não se afirmou com uma figura central, mas acabou por integrar a primeira linha da rotação de Carlo Ancelotti, tendo chegado aos 100 jogos nas últimas duas temporadas, fazendo 18 golos e 15 assistências. O figurino não mudou com a chegada de Xabi Alonso na presente temporada, tendo realizados 18 jogos com um golo e duas assistências. No regresso à capital espanhola, o marroquino vai agora encontrar Álvaro Arbeloa no comando técnico da sua equipa, com quem espera ter mais preponderância.

Em termos de seleções, Brahim Díaz começou por representar Espanha nas camadas jovens, por conta de ter nascido em Málaga e de ser filho de mãe espanhola. A sua primeira grande competição foi o Campeonato da Europa de Sub-17 de 2016, onde viria a perder na final frente a Portugal nas grandes penalidades. Apesar da derrota, o espanhol foi um dos destaques do torneio, tendo marcado três golos e integrado a Melhor Equipa do Europeu. Seguiu-se a passagem pelos Sub-19 que ficou marcada por duas tentativas falhadas de apuramento para o Campeonato da Europa da categoria, até que, em setembro de 2017, Brahim chegou aos Sub-21 com 18 anos, convertendo-se no terceiro mais jovem estreante da história da jovem equipa espanhola, apenas superado por Bojan e Meré.

O seu percurso terminou no Europeu de 2021, onde viria a reencontrar Portugal, agora nas meias-finais, de novo com um final negativo (1-0). Na final, a Alemanha levou a melhor, mas a caminhada de Brahim Díaz não ficou por aí, já que, apenas cinco dias depois, o avançado foi promovido por Luis Enrique à seleção principal e estreou-se frente à Lituânia como titular e fez o segundo golo (4-0).

A passagem pela Roja acabou por ficar por aí. Em 2024, o “caso Brahim” despoletou no seio do futebol espanhol, com o jornal Marca a revelar, numa primeira instância, que o futebolista tinha optado por representar Marrocos em detrimento de Espanha. O motivo é simples e deriva do progenitor, que nasceu em Melilha e possui a nacionalidade marroquina, devido à sua mãe – a avó paterna do jogador –, que nasceu naquele país africano. A decisão de Brahim foi tomada em março de 2024, depois de o jogador ter sido constantemente ignorado pela seleção espanhola e de o então selecionador Luis de la Fuente, com quem trabalhou nos Sub-19 e Sub-21, não lhe ter assegurado a presença no seu plantel.

A decisão recaiu, então, sobre Marrocos, que já andava “atrás” dos seus serviços desde o Mundial de 2018, e contou com o incremento de inúmeros dirigentes do país, com destaque para o selecionador Walid Regragui e para a Real Federação Marroquina de Futebol (FRMF), através do seu presidente Fouzi Lekjaa. Em Marrocos, Brahim Díaz encontrou um projeto em torno do seu nome e tornou-se na grande estrela da equipa, tendo até ao momento 13 golos e duas assistências em 22 internacionalizações.