João Viana vai tricotar ao vivo na antiga mesa de madeira onde costuma trabalhar, o que implica manobras logísticas. “Vai viajar connosco para Copenhaga. Vamos tentar reproduzir um mini estúdio de cada um“, explica-nos Marta Marques, metade da dupla de designers Marques’Almeida. É a solo que conversa connosco em Paris, em vésperas de rumar à escandinávia, de novo por razões de organização que costumam escapar aos menos treinados nestas andanças. O seu parceiro na moda, e na vida, Paulo Almeida, “está a carregar a carrinha com roupa“, uma daquelas missões tão invisíveis como essenciais quando se estrutura e lidera uma marca. Esta quinta-feira, na semana da moda da capital dinamarquesa, os designers assinam a curadoria da representação portuguesa, uma pequena embaixada do que por cá se anda a fazer, muito para lá da moda, entre desenhos, protótipos, texturas, e etc. “Não é só olhar para roupa e para o produto final, é entender os processos criativos”, sublinha Marta.
Para nomes como o designer que responde pela marca Veehana, esta é uma primeira saída do contexto do atelier e exposição ao lado comercial, “duro e interessante”, uma deslocação powered by Portugal Fashion, que depois da passagem por Paris, em modo desfile e showroom, estaciona agora no norte da Europa, com uma apresentação que pretende ser um cartão de visita. Depois do Bloom, os Marques’Almeida continuam a vertente de incubação de talento emergente, um trampolim que aqui irá ter o formato de apresentação/instalação. O objetivo é agarrar marcas que estão a começar e oferecer apoios de profissionalização, muito à imagem do que tiveram no Reino Unido. A orientação é criativa mas estende-se também a áreas fulcrais como vendas, gestão, contabilidade, e-commerce, ou, enfim, how to run a brand.
“Na viragem para os dez anos de carreira deu-nos esta vontade. Ok, como é que podemos ajudar quem está a começar e partilhar o que aprendemos em Londres?”, enquadra Marta. “Em 2021, voltámos ao Porto e começámos a bater a portas. Algures um miúdo num estúdio em Campanhã, alguém que trabalha na casa da mãe em Famalicão. Estamos sempre a descobrir estas pequena pérolas de criatividade. Percebemos que há uma cena de miúdos novos a fazer muita coisa criativa com muitos poucos recursos.”
A Copenhaga trazem assim uma seleção de marcas. No plano da moda, além de Veehana, nomes como Arieiv for Lo Siento, Ernest W. Baker, Maria Carlos Batista, ou Enzo Perez, ao leme da e.p.atel’ye , que venceu a última edição do concurso Bloom e que transitou assim para o projeto Incubator, começando agora a trabalhar de forma mais intensa. De resto, uns dias antes de rumarem ainda mais a norte do continente, esta comitiva passou por Paris, abrindo as suas criações a um público mais amplo, entre a míriade de stylists, buyers e outros protagonistas do setor. “Com o showroom, a ideia é trazê-los e encarar esta realidade do mercado. Estamos a trabalhar com uma retail consultant japonesa com quem já trabalhámos há muito tempo e Londres e que nos traz esta visão mais internacional. Copenhaga é um approach mais criativo. O convite era como conseguiríamos mostrar o que se está a passar em Portugal em termos de talento emergente, que é o que nos interessa mesmo. Não é ir para lá com uma Bordallo Pinheiro ou outra marca já muito reconhecida”.
“Se calhar no showroom ainda não vão vender grande coisa mas já tenho feedback ótimo de buyers a dar indicação do que podem afinar, e na próxima season cá estaremos.”, confia Marta.
De Portugal viajam também para Copenhaga a Eva Lé Ceramics, e a Lage Jewellery, que já fez várias colaborações com Maria Carlos Baptista. O catering estará a cargo do Rasa Porto, o café da Baixa do Porto, e não faltará a bebida da Aquela Kombucha, marca de Maria Lima. “O que tentamos mudar é que Portugal não seja reconhecido apenas por uma questão de qualidade e têxtil mas também pelo lado criativo. Mais construção de marca, mais visão, porque ela existe.”
No passado 1 de julho, os corredores das vinhas da Quinta do Bomfim transformaram-se em passerelle para a coleção outono/inverno 2025 de Marques’Almeida, numa edição do Portugal Fashion que marcou os 30 anos do evento e o regresso dos desfiles depois de quase dois anos de hiato. Marta e Paulo trouxeram até ao cenário do Douro as já conhecidas silhuetas com plissados e tecidos estruturados, as saias com volume, os brocados com flores, as franjas e as peças em ganga desbotada e desfiada. Uma combinação da elegância com o grunge, dentro do registo a que nos habituaram, que esperamos voltar a ver no começo do próximo mês de julho, de novo a norte do país. “Julho? Claro, estamos comprometidíssimos com o Portugal Fashion a fazer este caminho com a incubadora e estas marcas, que precisam de apoio contínuo.”, reforça Marta, situando um antes e depois da pandemia que ditou uma viragem no contexto e aumentou a importância de uma nova abordagem, sobretudo para quem se quer lançar. “Não chega só ver roupa, o mercado tem estado a passar por momentos muito difíceis desde a Covid, esta dificuldade de investir é uma experiência que vivemos hoje muito diferente de quando lançámos a Marques’Almeida. Nós crescemos em anos prósperos e isso de facto não está a acontecer. Acreditamos que é importante ir buscar o mais criativo e underground, feito de uma forma genuína, que possa mostrar o work in progress literalmente, no estúdio que vamos mostrar.”
Num cenário de turbulência, a designer explica que o mercado japonês se mantém o mais estável, enquanto o coreano começou a consumir mais local. Os EUA continuam a funcionar, apesar do peso das taxas, Europa é o palco mais desafiante, e o Médio Oriente é interessante para algumas marcas. “Queríamos começar a trazer representantes dos diferente mercados. Sentimos que há interesse por marcas novas, agora é dar-lhe visibilidade”.
Em 2006, uma jovem princesa Mary marcava presença na primeira edição da Semana da Moda de Copenhaga, Malene Birger era dos nomes mais sonantes de um certame em fase lançamento, e a manequim Helena Christensen mantinha-se a bandeira mais viçosa do país. Duas décadas volvidas, o calendário dinamarquês afirmou-se em definitivo e consolidou o seu lugar no mês da moda, precursor nos desafios da sustentabilidade e fiel a um espírito mais alternativo, atraindo nas edições mais recentes até um colorido painel de portuguese girlies.
Depois de bastiões como Nova Iorque, Londres, Milão e Paris, entre minimalismo depurado e espírito artsy, Copenhaga é das mais fortes candidatas ao rótulo de “quinta capital” da Moda, tendo catapultado para o panorama internacional marcas como Ganni, Cecilie Bahnsen ou Caro Editions.
Em estreia no calendário do evento, Portugal Moda & Artes: Dentro dos Estúdios curados por Marques’Almeida oferece assim uma entrada íntima no lugar onde a moda começa, um território feito de tecidos, objetos, esboços e experiências em evolução, onde o processo é tão importante quanto o resultado. Claro que também vai ser possível ver peças M’A. “Vamos ter também algumas coisas nossas, staples, clássicos, o que mais vendemos no nosso e-commerce”.
Provavelmente tudo muito mais simples de escolher e usar do que o recente desafio colocado à dupla pela equipa que trabalha com a cantora Beyoncé. “Fizemos os costumes na última tour [Cowboy Carter, em julho de 2025], que foi uma experiência incrível, louca, dificílima. Não a conhecemos mas fomos chamados por uma stylist em Londres com quem trabalhámos. Pegou no telefone a um domingo a noite e disse: conseguem pôr proposta na secretária na segunda à tarde? Depois daí foi mandar propostas, a Beyoncé comentava nos sketches, e era alterar e refazer no dia a seguir. Fizemos para ela e para a equipa de bailarinos toda.”, recorda a designer. Projetos “fixes” para juntar às já quatro coleções por ano que os Marques’Almeida produzem. “Estávamos sempre a vestir uma das atrizes do Wicked mas tem sido uma coisa mais orgânica.”
Projeto da ANJE – Associação Nacional de Jovens Empresários, o Portugal Fashion conta com o apoio dos seus parceiros estratégicos e é cofinanciado pelo SIAC – Apoio a Ações Coletivas Internacionalização do Portugal 2030, no âmbito do Compete 2030 – Programa Inovação e Transição Digital, com fundos provenientes da União Europeia, através do Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional. O investimento para o roteiro internacional desta temporada é de cerca de 475 mil euros em quatro mercados: a este evento coletivo em Copenhaga, juntou-se anteriormente a presença em Paris (com uma marca no calendário de homem e este coletivo de 8 marcas), Milão (com duas marcas na semana de moda de homem, e duas marcas em mulher); e Londres (uma marca no calendário feminino).
[Esta é a história de como dezenas de portuguesas se juntaram a mulheres de vários outros países e se tornaram seguidoras de uma seita controlada por um guru manipulador. Recrutadas numa escola de yoga em Lisboa, muitas acabaram em casas de massagens eróticas ou a serem filmadas em cenas de sexo e orgias. “Os segredos da seita do yoga” é o novo Podcast Plus, do Observador. Uma série em seis episódios, narrada pela atriz Daniela Ruah, com banda sonora original de Benjamim. Ouça o primeiro episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music.]