Iria ser sempre uma festa, deixou de ser tanto uma festa, nunca deixou de ser festa. Apesar de não haver uma ligação aparentemente direta entre Athl. Bilbao e Sporting, os adeptos dos dois clubes têm relação próxima há largos anos. O respeito sempre imperou, mesmo sem a existência de ídolos diretos que conseguissem unir um imaginário mútuo (ao contrário do rival basco Real Sociedad, por onde passaram nomes como Oceano, Carlos Xavier ou Ricardo Sá Pinto em fases distintas da década de 90), o duelo nas meias da Liga Europa de 2011/12 quando era Sá Pinto que curiosamente comandava os leões estreitou os laços entre ambos com uma história pelo meio que poucos conhecem em relação ao que se revelou apenas um “falso alarme”.

Athl. Bilbao-Sporting e Benfica-Real. Diomande, Bragança e Schjelderup são titulares

Sporting e Athl. Bilbao já se tinham cruzado uma vez nas competições europeias, na terceira ronda da Taça UEFA de 1985/86 com triunfo dos bascos em casa por 2-1 num jogo em que Meade marcou e Rui Jordão foi expulso e vitória dos leões por 3-0 em Alvalade com golos Manuel Fernandes, Meade e Sousa. Em 2012, a equipa verde e branca voltou a ser superior em Lisboa, com um 2-1 com remontada de Insúa e Diego Capel, mas o que sobrou desse duelo foram as manifestações de homenagens mútuas entre adeptos, que tiveram um primeiro ponto alto quando o topo Sul de Alvalade levantou uma tarja em memória de Iñigo Cabacas, adepto que perdera a vida pouco antes vítima de uma bala de borracha da polícia em confrontos após um jogo com o Schalke 04, e terminaram com adeptos a trocarem cachecóis e bandeiras entre aplausos no final.

Contudo, e após algumas mensagens que teriam sido trocadas nas redes sociais entre adeptos radicais dos dois lados, as polícias portuguesa e basca estavam em alerta máximo antes da partida da segunda mão, o que fez com que os dirigentes leoninos fossem “convocados” para uma reunião onde chegaram entre secretismo máximo e uma hora de voltas e voltas pela cidade para despistar o local do encontro. Afinal, tudo se resumia a coisas sem sentido, sem fundo de verdade, sem qualquer risco. E, sem que ninguém soubesse desse receio, os adeptos do Sporting chegaram a San Mamés com um cordão de adeptos bascos a cantarem o nome do seu clube, entre cumprimentos e abraços de quem não se conhecia mas ficou “amigo” através do futebol. Desta vez, apesar da proibição de venda de bilhetes para o setor visitante por castigo da UEFA por uso de artefactos pirotécnicos e arremesso de objetos em Munique, a festa voltou a fazer-se com muitos portugueses a viajarem até ao País Basco. No entanto, e à hora do jogo, estava cada um por si – e com objetivos por cumprir.

Do lado dos espanhóis, o triunfo em Bérgamo com a Atalanta colocou a equipa em lugares de qualificação para o playoff mas com apenas oito pontos e numa situação em que dependia de si mas não tinha grande margem de erro. Já do polo verde e branco, a vitória com o campeão europeu PSG não só carimbou de vez o apuramento como possibilitou sonhar com mais – com essa nuance de não depender apenas de si para ficar no top 8. E era para isso que Rui Borges apontava, com o histórico altamente negativo que apontava para um Sporting que nunca ganhara em Espanha. “Isso é algo que me ultrapassa, também acho que nunca joguei com uma equipa espanhola… Passa-me ao lado. Estamos focados e há vontade de fazer algo que ficará marcado. Temos de ser iguais a nós próprios. Vamos defrontar uma grande equipa, com uma identidade muito própria. Sabemos das dificuldades mas vamos com ambição”, apontara o técnico leonino.

“Vai ser um Sporting igual a si próprio. Em alguns momentos pressionante, noutros podemos ficar num bloco baixo. Não fugimos da nossa identidade e ideia de jogo. Mas dentro da ideia, vamos alterando comportamentos, sempre com a intenção de nos superiorizarmos. É uma grande equipa, das mais tituladas em Espanha. Tem individualidades muito boas que podem resolver. Frustração se não chegarmos ao top 8? Quando não se ganha, ficamos sempre aborrecidos mas muito orgulhoso por tudo o que temos demonstrado. O aborrecido tem a ver com a ambição de querermos ser melhores. Em termos de calendário era ótimo, no sentido de ter a equipa mais pronta e capaz, controlar cansaço. Era fantástico. Não jogaremos a pensar nisso mas sim em ganhar e criar história”, referira, com a humildade do costume a falar do seu próprio percurso.

Sinto-me uma pessoa simples e o Casio está lá sempre. 20 euros. 19,90 euros. Lembro-me do trajeto e do que me custou. Não é por estar aqui que vou ter um relógio de mil euros. Agora os estádios têm todos cronómetros, nem precisava de relógios. Sou simples e humilde q.b.. Sou muito honesto, direto com toda a gente, amigo do amigo e serei sempre grato a quem me ajuda. Eu serei sempre assim, o Rui de Mirandela”, comentara na antevisão desse duelo por história.

Foi esse mesmo Casio que sentiu pulsações como poucas vezes tinha sentido, num final de jogo dramático que podia ter golos nas duas balizas mas que acabou com Alisson a dar a primeira vitória de sempre aos leões em Espanha numa remontada épica assinada no quarto minuto de descontos. Contudo, nem tudo foi bom. Aliás, a primeira parte foi mesmo sofrível, entre muitos erros defensivos e demasiados passes errados de uma equipa que andou à sua procura e apenas se descobriu com entrou uma bússola chamada Pedro Gonçalves. Com ele, o Sporting vive melhor, respira melhor, joga melhor e é melhor, quer no plano individual, quer na dinâmica coletiva. E foi muito por culpa da sua entrada que o encontro virou na segunda parte, com uma ponta final que fez lembrar os melhores tempos de Mamede a acelerar nos derradeiros metros.

As ausências nos bascos eram muitas, a identidade de jogo não sofria qualquer mudança e voltou a dar frutos logo a abrir. Aliás, os minutos iniciais foram a todos os níveis em falso: João Simões a escorregar, a defesa a não conseguir despachar bolas, os médios sem capacidade para taparem espaços nas costas e construírem na primeira fase. O Athl. Bilbao, que remeteu a formação verde e branca ao seu meio-campo, sentia que podia tirar proveito desse arranque titubeante e conseguiu mesmo chegar à vantagem logo no terceiro minuto, com Hjulmand a ter um passe em falso aproveitado para Sancet que colocou rematado antes de Diomande fazer a “dobra”. Pior arranque era impossível, até pela forma como o San Mamés funcionou como gasolina para dar ainda mais ânimo a um conjunto basco que queria superar a fase de maus resultados que atravessa. Estava complicado os leões (neste caso, de Portugal) saírem do sufoco. Quando saíram, o encontro mudou.

Na primeira vez que conseguiu sair numa transição, o Sporting ganhou canto. Na primeira vez que o Sporting ganhou canto do lado direito, marcado por Trincão de forma fechada, Hjulmand apareceu ao primeiro poste a desviar com perigo para trás num lance cortado para canto. Na primeira vez que o Sporting ganhou canto do lado esquerdo, marcado por Maxi Araújo com o arco para fora, Diomande subiu mais alto na área e fez o empate (12′). Mais do que marcar, mais do que zerar o encontro, os leões encontravam a tábua de salvação para estabilizarem no campo, ganhando outra confiança mesmo na posse e circulação feita no meio-campo com zonas de pressão mais altas e percebendo que a exploração da profundidade, fugindo ao que a equipa mais gosta de fazer, era uma arma para ferir os bascos que tinham aí uma das suas debilidades.

Era na estabilidade que o Sporting estava confortável, foi na falta de estabilidade que voltou a claudicar com um erro daqueles que são fatais em contexto de Liga dos Campeões: Matheus Reis, que entrara para o lugar do lesionado Gonçalo Inácio (problema muscular na coxa), sentiu a pressão de Guruzeta, desistiu do lance achando que iria ser marcada falta e o avançado aproveitou para seguir para a área e marcar o 2-1, numa recarga após um primeiro remate ao poste que acabou de forma caprichosa na sua cabeça para a recarga (27′). Quando os bascos sentiam dúvidas no seu jogo, os leões quase que “ajudavam” o adversário a descobrir o seu rumo numa das piores primeiras partes do meio-campo, onde Daniel Bragança pouco ou nada conseguiu acrescentar e Hjulmand teve das exibições com mais erros desde que chegou a Alvalade. Com isso, havia fogachos de Geny Catamo, pouco Trincão e ainda menos Luis Suárez, muito perdido na frente.

O grande problema do Sporting não era o Athl. Bilbao mas sim o Sporting. Estava mais errático do que nunca na defesa, falhava como nunca no meio-campo, era inexistente como nunca na frente. Rui Borges decidiu não mexer logo ao intervalo para ver o que podia dar o segundo tempo mas, depois de uma tentativa de longe de Galarreta na sequência de uma segunda bola de fora da área que passou a rasar o poste da baliza de Rui Silva (50′), percebeu que algo tinha de mudar para recuperar a identidade de jogo. Além de Diomande e Daniel Bragança, que ainda não apresentam pernas para 90 minutos, saiu também João Simões (que tinha cartão amarelo) para as entradas de Eduardo Quaresma, Morita e Pedro Gonçalves. O mágico que mais influência tem nos números sem que muitas vezes possa parecer voltava a poder ajudar a equipa verde e branca, com uma entrada que nem correu da melhor forma ao ver logo um amarelo. No entanto, era a aposta certa.

Na primeira vez em que conseguiu combinar curto aproveitando a presença de Trincão mais ao meio e não na esquerda, Pedro Gonçalves combinou curto para isolar o esquerdino que desviou de Unai Simón à saída do número 1 da Roja e fez o empate (62′). Estava dado o mote para uma parte final do encontro eletrizante entre a vontade do Athl. Bilbao em marcar para segurar o playoff e a esperança verde e branca em aproveitar um momento em crescendo para subir mais na classificação. Geny Catamo obrigou Unai Simón a uma defesa apertada para canto após remate em jeito (70′), Luis Suárez viu um golo anulado por fora de jogo depois de um lance em que desviou ao segundo poste na sequência de um canto trabalhado (71′), Felix Zwayer ainda marcou um penálti por falta de Adama Boiro sobre Geny Catamo mas o VAR reverteu a decisão (79′), Pedro Gonçalves teve um remate em zona central que passou ao lado (90′) e o momento épico chegou no quarto minuto de descontos, com Unai Simón a defender o remate de Luis Suárez numa transição rápida que isolou o colombiano mas Alisson a acreditar no destino e a estar no momento certo para marcar o 3-2.

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