Chegou na quarta-feira à noite a Portugal, no voo da TAP vindo de Moçambique, o corpo de Pedro Ferraz dos Reis, o administrador do BCI que apareceu morto numa casa de banho do hotel Polana, em Maputo, na noite do dia 19. O funeral está agendado para este sábado, com uma missa na igreja do Santíssimo Sacramento, no Porto, seguindo depois para o cemitério de Agramonte.
Esta quinta-feira estarão ainda a ser realizados “novos exames médico-legistas, numa nova autópsia” no Porto, para complementar a que foi efetuada em Maputo, adiantou ao Observador uma fonte próxima da família.
A morte do português que estava há mais de uma década em Moçambique ao serviço do banco subsidiário da CGD e do BPI, continua envolta em mistério, sendo que a investigação conta desde esta segunda-feira com a colaboração portuguesa através de três inspetores da Polícia Judiciária e dois peritos do Instituto de Medicina Legal na capital moçambicana.
A misteriosa morte do banqueiro Pedro Ferraz Reis num hotel de luxo em Moçambique
“Estamos a trabalhar em sintonia com a equipa portuguesa”, disse ao Observador o porta-voz do Serviço Nacional de Investigação Criminal de Moçambique (Sernic), que não confirma a existência de mensagens a ameaçarem o gestor nos seus telemóveis nem que tenha sido realizada nova autópsia em Maputo pelos peritos enviados de Portugal no domingo. “Os telemóveis ainda estão em análise, é um processo que leva o seu tempo” acrescentou Hilário Lole. O Correio da Manhã noticia esta quinta-feira que Pedro Ferraz dos Reis teria sido ameaçado de morte com mensagens enviadas para o seu telemóvel.
Num primeiro momento, na terça-feira de manhã, dia 20, a polícia de Moçambique, a primeira a chegar ao local, disse tratar-se de um “homicídio voluntário” e que as diligências continuavam com base nas imagens captadas pela videovigilância deste prestigiado hotel de 5 estrelas. Mas poucas horas depois o Sernic avançava com a informação de suicídio, através de veneno de rato e golpes de faca no pescoço, pulsos, peito e coxas.
A explicação suscitou a perplexidade de alguns peritos, que levantaram muitas perguntas sobre como é que seria possível em menos de 24 horas ter resultados de análises e autópsia para chegar a essa conclusão e questionavam também a possibilidade de alguém em simultâneo tomar Ratex e golpear-se em sítios tão vitais, por exemplo. Mas a incredulidade chegou também de amigos e familiares e da comunidade portuguesa que insistem em enaltecer as qualidades pessoais de Pedro Ferraz dos Reis e a sua fortíssima ligação à família para tirar a sua vida de forma tão bárbara, vendo antes ali um homicídio. Foi mesmo lançada uma petição pública (neste momento com mais de 9.205 assinaturas, o número basicamente estagnou depois de o Governo português ter anunciado o envio da PJ para Maputo) a exigir a intervenção de Portugal na investigação.
Um dia e meio depois o Sernic já falava em “suicídio provocado”: Pedro Ferraz dos Reis teria sido obrigado a matar-se. Esta quinta-feira Hilário Lole não quis arriscar qualquer explicação: “A investigação decorre, demora, este tipo de investigações não são iguais à matemática, de dois igual a dois, são muito complexas e por isso não posso avançar mais detalhes”.
O porta-voz realçou o esforço conjunto de PJ e Sernic, fazendo questão de sublinhar que “não está a PJ a dirigir a investigação, a direção é do Sernic”, destacando que o trabalho é conjunto para tentar “trazer mais dados para esclarecer esta morte”.
Esclarece ainda que “foi a PJ que se prontificou a cooperar com o Sernic”, sendo que este serviço “não tem legitimidade” para a aceitar ou não. “Isso depende das relações entre os dois governos, do protocolo de cooperação existente, não é competência do Sernic”, frisa Hilário Lole.
Na quarta-feira, a secretária de Estado de Negócios Estrangeiros e Cooperação portuguesa elogiou a coordenação “absolutamente extraordinária” entre os dois países neste caso. E a ministra dos Negócios Estrangeiros e Cooperação de Moçambique agradeceu o apoio português e disponibilidade das autoridades judiciárias moçambicanas em trabalhar com os colegas de Portugal.
“É uma cooperação, só podemos aguardar resultados. Mas também agradecemos a abertura das autoridades judiciárias, são órgãos de soberania, de cooperar. E mais uma vez gostaríamos de agradecer ao povo português pelo apoio que estão a dar a Moçambique”, frisou.
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