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Não era um velório. Não havia um corpo. A mulher e a sogra de Pedro Ferraz Reis só nessa manhã de quarta-feira estiveram na morgue a identificá-lo. Por isso, até chegaram atrasadas à missa que o BCI, um dos maiores bancos moçambicanos e com capitais portugueses, mandou rezar em memória do seu alto quadro que apareceu morto num reputado hotel de cinco estrelas em Maputo, na segunda-feira, dia 19.
Só na noite dessa quarta-feira a família recebeu o corpo que virá para Lisboa no sábado, no voo mais próximo da TAP, adiantou ao Observador uma fonte que está a ajudar no processo. A seguir haverá uma nova autópsia, já que amigos e familiares não aceitam que Pedro Ferraz Reis se tenha suicidado. Essa foi a tese oficial apresentada pelo Serviço Nacional de Investigação Criminal de Moçambique (Sernic) na terça-feira, desmentindo a polícia, que falara em “homicídio voluntário” à agência Lusa de manhã. Tudo ficou ainda mais confuso quando, dois dias depois, o Sernic veio admitir que se pode tratar de “um suicídio provocado”, o que acontece quando alguém força outra pessoa a matar-se.
Ana Silveiro chegou cedo à missa, marcada para as 14h na Igreja de Santo António da Polana, no bairro da elite da capital moçambicana. Sentou-se nos bancos de madeira, junto ao corredor central, com a luz a bater nos bonitos vitrais, em “recolhimento”. Até que foi arrancada do seu silêncio por um jornalista de microfone na mão, no meio do corredor, que repetia para uma câmara o que o Sernic anunciara na véspera: Pedro Ferraz Reis “tirou a própria vida” depois de comprar veneno para ratos e facas, dirigir-se ao Polana Serena Hotel, fechar-se numa casa de banho, tomar o Ratex e esfaquear-se em várias partes do corpo.
A professora de cabelo branco levantou-se, irritada, e saiu da igreja até se acalmar. “Não podia suportar aquela fantochada, só quem não conhecia a pessoa de valores que Pedro Reis era é que pode dizer ou acreditar numa coisa destas, uma narrativa típica de um miúdo do 1º. ciclo,” diz ao Observador ao telefone, a partir de Maputo. “A história é rocambolesca e está cheia de incongruências”.
A professora portuguesa não está sozinha nas suas dúvidas: mais de 8.100 pessoas (às 17h desta sexta-feira) já assinaram uma petição pública a exigir “a intervenção do Estado português neste caso, com vista a apurar a verdade dos factos e a proteger a família” de Pedro Ferraz Reis.
▲ O BCI, a subsidiária da CGD e do BPI portugueses, mandou rezar uma missa nesta igreja emblemática em memória de Pedro Ferraz Reis
DR
“Fui eu que tive de verificar se estava morto ou vivo”
Mas a uns 600 metros da igreja, há alguém, igualmente irritado com os jornalistas, que não tem perguntas. É Nelson Rodrigues, a primeira pessoa a ver o corpo do banqueiro. “Eu é que o encontrei, pessoalmente”, revela ao Observador o diretor-geral do hotel Polana. Foi informado pelos funcionários que a equipa de limpeza estava a ver “sangue a escorrer por baixo da porta da casa de banho” ao lado do bar. Não “foi dentro de nenhum quarto, como já ouvi dizer, ele não estava hospedado no hotel”, esclarece. Mas Nelson Rodrigues sim. Por isso, chegou rapidamente ao local. “A porta da casa de banho estava trancada por dentro e, depois de a abrir, fui eu que tive de verificar se estava morto ou vivo.” Eram 22h30.
O responsável diz que viu então “o que o Sernic descreveu”, sem detalhar mais. O porta-voz do serviço de investigação disse, como é possível ouvir neste vídeo, que o português tinha ingerido veneno de rato e se tinha infligido vários golpes com “objetos corto-perfurantes, facas,” destacando que isso aconteceu “nos pulsos das mãos, nas coxas, no pescoço e no peito, na parte do coração”. Sublinhou que “foram repetidos golpes que não deixam dúvidas de que existia intenção clara de tirar a sua vida”, clarificando depois que o banqueiro usou apenas uma faca, a que “tinha retirado da cozinha da sua casa” e não as “duas que comprara depois”.
Nelson Rodrigues sustenta o mesmo: “O senhor tirou a sua vida, simplesmente”. Questionado pelo Observador sobre outros detalhes nada acrescenta ao que o Sernic dissera. Sobre a faca, responde que não sabe “se estava espetada no corpo”.
Um detalhe que tem relevância para um criminalista com larga experiência na segurança em Moçambique e para um antigo juiz moçambicano que trabalhou muito em processos criminais, ouvidos pelo Observador sob anonimato. Fazendo questão de frisar que não conhecem os relatórios nem viram o corpo, têm algumas perguntas. “Como é que alguém corta os pulsos e depois se degola, e golpeia as coxas e o peito, na zona do coração, tudo no mesmo momento e com a mesma faca? Isso não é verosímil. A menos que o senhor fosse um super-homem”, refere o primeiro. “É o mesmo que dizer que a água está a arder”, compara.
“Quantas facadas foram? Qual o ângulo? Que profundidade tinham? É preciso saber isso tudo. Porque no suicídio, em geral, mudam de intensidade, porque a pessoa vai perdendo força. Foram defensivas ou agressivas? De que lado surgiram? Podiam ter sido infligidas por outra pessoa? Como estava caído o corpo? É diferente em caso de homícidio ou não”, questiona o segundo.
Se os golpes no pescoço “atingiram carótidas, sendo profundos, ele desmaiava rapidamente, não conseguia golpear o coração”. Mais: “Cravou a faca no coração e tirou-a? Ou ficou lá? Se a sequência foi a inversa, coloca-se a mesma questão: tirou a faca do peito para depois atacar o pescoço? Porque, se queria atingir o coração, como foi dito, teria de ser um golpe profundo. E isso traz consequências imediatas, fisiológicas e outras. Impossível conseguir depois atingir o pescoço”.
As coxas, que alguns entenderam como “costas” — Hilário Lole garante ao Observador que disse “coxas e não costas” e uma escuta mais atenta do vídeo confirma-o —, levantam ainda outro problema. “Onde foram os golpes? Se lesar a artéria femoral ou grandes veias, a perda de sangue pode ser rápida e fatal sem socorro imediato. Mais uma vez, não se vê como é que algum ser humano possa ter força anímica e coordenação motora perante tanta dor para se continuar a esfaquear”, comenta o antigo magistrado.
Ainda a faca. “Como é que sabem que o português tirou a faca da cozinha da casa dele? Não basta dizer que é igual e mostrar o porta-facas e apontando que falta lá uma. Na verdade, no vídeo que o Sernic mostrou nota-se que até faltam mais”, aponta o juiz jubilado. E o que aconteceu às outras duas facas que segundo o Sernic, Pedro Ferraz Reis comprou num supermercado, entre outros artigos, mostrando imagens para o provar? Hilário Lole diz que “as deixou no carro, talvez por ter percebido que eram muito leves”.
▲ O Polana é considerado o hotel mais seguro de Maputo, recebe altos dignitários estrangeiros e empresários de grandes multinacionais
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Ratex e uma “investigação relâmpago”
Depois, há ainda a questão do veneno para matar ratos. Quando o Sernic descreveu o percurso de Pedro Ferraz Reis até à morte, mostrou um vídeo do que alega ser o banqueiro a comprar, com dinheiro, Ratex. E reafirmou ao Observador que os exames toxicológicos e a autópsia revelaram a “presença desta substância no organismo do indivíduo”. Ora, argumentam os dois juristas contactados pelo Observador, isso não faz muito sentido. “Porque iria um homem formado e informado, culto e conhecedor, escolher uma morte tão dolorosa como a resultante de veneno de ratos quando havia outras possibilidades? Gostava assim tão pouco de si para o fazer?”, começa por perguntar o juiz.
Porém, admitindo a hipótese — “nunca sabemos o que se passa na cabeça das pessoas, sobretudo se estiver em grave depressão, dados que até agora não surgiram sobre Pedro Ferraz Reis” — há outras perguntas a fazer. “Qual era a composição do Ratex? É que o mais comum leva muito tempo a atuar. Então um homem inteligente ia comprar um veneno que ele sabe que demora dias a fazer efeito? Para tomar antes das facadas, para quê? Se era para garantir que morria mesmo, não faz sentido. E depois, mesmo que tivesse condições no meio de tanto sangue e dor para o fazer, também não”. Sendo que “existem venenos para ratos, com outro princípio ativo, com efeitos mais imediatos, podem matar em horas, dependendo da dose”, refere a mesma fonte. No entanto, “provocam em poucos minutos sintomas terríveis, vómitos e dores abdominais tão intensas que comprometeriam a coordenação motora para dar facadas no pescoço ou no coração, por exemplo”.
A alegada presença de Ratex no corpo de Pedro Ferraz Reis levanta ainda outras interrogações que se prendem com “uma investigação supersónica”, critica o criminalista. “Como é possível em menos de 24 horas ter resultados toxicológicos? O administrador do BCI morreu na noite de segunda-feira, os laboratórios só trabalham das 7h30 até às 15h30, como é que ao início da noite de terça já havia dados que permitiam fazer uma conferência de imprensa a dizer que foi suicídio? Não é no Moçambique onde eu vivo. Isso é mesmo muito raro acontecer, se é que alguma vez aconteceu”, admira-se.
A mesma perplexidade surge para a autópsia. “Como é que fizeram a autópsia e tiveram o relatório tão depressa? Nunca esperei menos de 10 dias. Há fila, os relatórios demoram muito, esta rapidez é incompreensível”, afirma o juiz. Nada de estranho, reage Hilário Lole ao Observador: “Quando fizemos a conferência de imprensa, na terça-feira, a autópsia e os exames médico-legais já tinham sido realizados e tínhamos um relatório preliminar, que é feito logo de imediato, não o relatório escrito formal, que esse demora mais tempo”. No encontro com os jornalistas o porta-voz tinha dito que “o trabalho foi feito pela equipa técnica do Sernic, em coordenação com a Medicina Legal do Hospital Central de Maputo, onde também estiveram presentes os magistrados do Ministério Público”.
A rapidez com que o Sernic chegou a esta conclusão é umas das críticas mais repetidas nestes três dias, estando também presente na petição: “A investigação realizada pelas autoridades moçambicanas foi dada como concluída num curto espaço de tempo (horas), passando rapidamente da tese de homicídio a suicídio”.
“Isto não é comum. Uma investigação nunca foi nem jamais será, ou pode ser, relâmpago. Não é possível em menos de 24 horas. Nem mesmo quando há testemunhas oculares a dizerem que a pessoa se atirou do 33.º andar. Nem mesmo quando há alguém a confessar que matou. Uma opinião não é a conclusão da investigação. Houve afirmações do Sernic que não se coadunam com a boa prática médico-legista de uma investigação criminal séria”, lamenta o criminalista.
Hilário Lole, esta quinta-feira de manhã, veio explicar que a investigação não está fechada. “Ainda decorrem diligências”, disse à agência Lusa. E surge com uma nova possibilidade: “Segundo o relatório médico-legal, assim como as provas encontradas no local e a disposição das mesmas provas, não existem dúvidas de ter sido suicídio. Entretanto, é preciso apurar porque pode ter sido suicídio, mas o suicídio, se calhar, pode ter sido provocado. Então, há esses elementos que precisam de ser ainda apurados”, explicou. Ou seja, Pedro Ferraz Reis “pode ter sido obrigado a matar-se”, um cenário que não é estranho em Moçambique, explicou ao Observador uma jurista do país. Perante a perplexidade que a frase suscita, remata: “Aqui aprendes a não acreditar em nada e a não duvidares de nada ao mesmo tempo”.
“Suicídio provocado? Mas essa figura existe? Se alguém é forçado a engolir Ratex e a dar facadas no corpo isso não é homicídio?”, pergunta o veterano e premiado jornalista moçambicano Fernando Lima. Apesar de notar que em Moçambique nestes casos “o clima é sempre de teorias de conspiração, em que nunca ninguém se suicida, em que a tendência é para as versões apontarem sempre para o assassinato”, o co-fundador da primeira imprensa escrita independente em Moçambique (Savana e Mediafax) vê “um aparente facilitismo na forma como este caso tem sido tratado na divulgação de conclusões”. Os peritos forenses “sugerem muito mais precaução na investigação e apuramento de mais evidências para se determinar a causa da morte do gestor do BCI. Até agora não vimos nenhum médico-legista chegar a conclusões de suicídio em menos de 24 horas”, assinala ao Observador o jornalista que agora é comentador televisivo e editor do Zitamar News.
Os hóspedes abandonaram o hotel Polana, “culpa dos jornalistas”
Nelson Rodrigues está “ansioso pela versão final do Sernic”. Não conhecia Pedro Ferraz Reis, apesar de o hotel, que pertence ao Fundo Agha Khan para o Desenvolvimento Económico, ser “cliente do BCI”. Envia as condolências à família — “ninguém devia ter que passar por isto”. E está zangado com os jornalistas. A morte na casa de banho do hotel não está a afetar só os funcionários do reputado Polana, mas também os hóspedes, adianta. “Muitos foram-se embora, as pessoas ficaram com medo de ficar aqui, várias companhias internacionais saíram ou cancelaram reservas”. E “a culpa” é da comunicação social: “Começaram logo a dizer que isto tinha sido um assassinato em vez de dizerem que era um suicídio como o Sernic. Isto foi tudo como o Sernic disse, fizemos a nossa investigação com eles, foi mesmo assim que se passou”. Agora é esperar pelo fim da investigação e depois tentar recuperar o negócio: “Vai demorar uns tempos”, prevê.
Ainda “vai correr muita água debaixo da ponte”, prevê o sociólogo moçambicano João Feijó. “Esta morte levanta questões sensíveis, trata-se de um administrador de um banco de capital estrangeiro e Portugal legitimamente poderá fazer pressão política sobre o Estado moçambicano. Não sei se o bloco central em Lisboa vai afrontar de frente o regime moçambicano ou dar força ao Chega, que gosta de usar casos destes como arremesso político”, afirma o coordenador do Observatório do Meio Rural.
Não têm faltado apelos à intervenção portuguesa nas redes sociais, para lá da exigida na petição pública. Basta ler os comentários à nota de pesar publicada no Facebook pela embaixada portuguesa na quarta-feira. O Ministério dos Negócios Estrangeiros assegurou ao Observador que “sempre esteve em contacto com as autoridades moçambicanas e com a família”, não querendo acrescentar nada mais.
Porém, um professor da Escola Portuguesa em Maputo que colaborou de perto com Pedro Ferraz Reis na Associação de Pais, adianta ao Observador que o adido da segurança da embaixada se deslocou ao Polana assim que soube da morte do português, mas que foi impedido de se aproximar da casa de banho pelo Sernic. Tem também a informação de que a embaixada tem dado apoio consular e insistido junto das autoridades moçambicanas, a vários níveis, pedindo que o caso seja objeto de uma investigação exaustiva.
Nem poderia ser de outra forma, o caso tem mesmo de ser seriamente investigado, advoga Rodrigo Adão da Fonseca, ex-colega de Pedro Ferraz Reis e que segue de perto a realidade moçambicana. “Há várias questões em aberto. Desde logo, a aparente inconsistência das versões anunciadas, em menos de 24 horas; depois a pressa do Sernic para fechar o assunto de uma forma ‘inequívoca’, violando as boas práticas de análise forense; e, finalmente, o padrão apresentado para o suicídio, que não será comum e habitual, e que causa estranheza”, salienta. “Isto não pode ficar assim”, remata.
Nadio Jaime Tabo não tem grandes esperanças. “Sernic nunca mais vai aprofundar este crime, basta pensar no assassinato de Elvino Dias e Paulo Guambe (peças chave na campanha presidencial do principal opositor políticon do regime, Venâncio Mondlane), em que há testemunhas, e já passou mais de um ano e nada”, lembra o jornalista moçambicano. “Aqui em Maputo as pessoas não acreditam na versão do Sernic, que foi demasiado rápido, não costuma ser. Em menos de 24 horas tinha as imagens das lojas, resultados toxicológicos, autópsia feita? Tudo tem ar de ter sido preparado”, suspeita Jaime Tabo.
Fernando Lima tem um outro olhar sobre a rapidez criticada ao Sernic. No seu editorial no Zitamar News, recorda que o serviço já não depende do Ministério do Interior, equivalente ao Ministério da Administração Interna de Portugal, e passou para a Procuradoria‑Geral da República, por isso não tem de esperar por aprovação ministerial para as suas comunicações. “Também deixou de ter de se preocupar com interferências diretas no seu trabalho por parte da polícia, notoriamente corrupta e indisciplinada, da qual agora está separada”, adiciona. E frisa que “o Sernic dispõe ainda de acesso a um moderno laboratório de ciência forense, que poderá ter contribuído para detetar o veneno para ratos”, sendo que “os movimentos de Pedro Ferraz Reis também foram reconstituídos graças ao seu motorista, que o conduziu durante o dia de segunda‑feira”.
▲ Pedro Ferraz Reis era casado e tinha duas filhas
D.R.
As imagens e a tese de homicídio
A cronologia dos acontecimentos traz também dúvidas. O Sernic diz que o administrador de 52 anos saiu às 14h do local de trabalho, o BCI, banco subsidiário dos portugueses Caixa Geral de Depósitos e BPI. Foi a casa buscar a faca dele, a dois estabelecimentos comerciais na Avenida Marginal comprar mais duas facas e o Ratex e, pelos vídeos que mostrou, vê-se que chega ao Polana, conduzido pelo motorista, ainda de tarde, e entra no hotel com uma mochila preta que tira do carro.
“Seriam umas 17h30”, precisa Nelson Rodrigues ao Observador. “Só o encontrei morto às 22h30”. Admitindo que foram “muitas horas”, assegura “que ninguém viu nada”. Como é que só às 22h30 houve sangue a escorrer debaixo da porta com tantos golpes? Nelson Rodrigues não sabe. O que aconteceu depois de entrar no hotel? “Foi diretamente para a casa de banho”, dizem a Sernic e o diretor-geral do hotel.
“Onde estão as imagens entre o percurso da entrada e a casa de banho?”, pergunta Rodrigo Adão da Fonseca ao Observador. “As imagens de videovigilância integrais ajudariam a explicar o que aconteceu com elevado grau de certeza”, defende. O que se vê nos vídeos divulgados é o administrador a entrar no hotel e depois no corredor. “Onde estão as imagens dele a entrar na casa de banho? Quando entrou e saiu a última pessoa antes dele?”, questiona o antigo juiz. “Há muitas perguntas não respondidas”. Para se ter a certeza de “que não entrou ninguém na casa de banho tem que se ver o vídeo das câmaras desse corredor durante todo o tempo em que ele esteve na casa de banho, sem interrupção”, sublinha a jurista.
A questão das imagens ganha ainda mais importância porque na terça-feira de manhã a polícia não só disse que se tratava de um “homicídio voluntário” como avançou que as investigações estavam em curso, com base nos registos da videovigilância.
Nelson Rodrigues assegura ao Observador que não há mais imagens. “Dentro das casas de banho não há câmaras, é ilegal, à porta também não, nem na porta da cozinha, que fica perto da casa de banho”, explica. “Ele entrou e foi diretamente pelo corredor mesmo ao lado da receção para a casa de banho, não demorou mais do que dois minutos, é mesmo ali”, descreve. “Estas são todas as imagens que temos”, insiste.
A tese de que se tratou de um homicídio precisa das imagens para tentar provar que alguém estava na casa de banho com Pedro Ferraz Reis ou que ele foi assassinado no corredor do hotel e levado para ali, uma hipótese que Rodrigo Adão da Fonseca não descarta. O especialista em segurança faz uma pergunta que o criminalista ouvido pelo Observador também levantou: “Onde estão as perícias ao telemóvel? Quais foram as últimas chamadas, as últimas mensagens?”. Rodrigo Adão da Fonseca coloca ainda a possibilidade de Pedro Ferraz Reis ter sido chamado ao hotel, daí a importância do registo telefónico.
Todavia, a versão do homicídio também levanta muitas perguntas, assinala o juiz. “Se é verdade que a conclusão de suicídio é precipitada, também o é a de homicídio, que foi ainda mais rápida e sem qualquer perícia”, nota igualmente a jurista moçambicana que escolhe não ser identificada. “Neste momento não há dados que permitam concluir que foi assassinado ou que se matou”, conclui.
“As câmaras do corredor não mostrariam o assassino, já que não há janelas? Tem que ter saído pela porta e sujo de sangue. Não havia marcas no chão? O hotel Polana é o hotel mais seguro, é muito vigiado, local preferido de ministros estrangeiros, diplomatas, empresários. Ninguém daria por nada estranho? Onde estão quaisquer indícios que apontem nesse sentido? São muitas horas lá dentro num local movimentado, não fez nenhum ruído para quem entrasse perceber?”, pergunta. “A pessoa esfaqueou-o e mandou-o trancar a porta? Ou trancou e saiu por cima para o compartimento contíguo? Teria manchas de sangue. E há sempre gente no lobby e no bar, como é que ninguém via ou ouvia nada?”, interroga-se a jurista. “Pois”, responde um amigo da família em Maputo que pediu para não ser identificado: “Se as provas tiverem sido todas encobertas, apagadas, porque o Pedro se meteu no caminho de alguém importante que o quis silenciar, nunca haverá provas”.
“A elite política gangsterizada” e o papel de Portugal
Motivos para o fazer não faltariam, dizem várias fontes contactadas pelo Observador. O sociólogo João Feijó recorda que “os administradores dos bancos são profissionais de grande risco em qualquer parte do mundo e sobretudo em Estados frágeis com a forte presença do crime organizado”. A história da banca moçambicana “é de penetração de elementos próximos do poder central e do crime organizado que exerce muita pressão para o não pagamento de dívidas”. Por outro lado, recorda, “hoje há ainda a pressão do Banco de Moçambique e de instituições bancárias estrangeiras para que se investiguem e denunciem casos de branqueamento de capitais (o país estava na lista cinzenta). E ninguém pode esconder que há muitos casos de créditos mal parados de gente do poder político”. Aliás, continua, “a elite política nacional, a certa altura gangsterizada, tem um grande apetite por bancos e não gosta de ver as suas dívidas expostas”.
A morte de Pedro Ferraz Reis “tem que ser vista neste contexto”, defende o especialista moçambicano: “Um alto quadro matar-se com Ratex numa casa de banho de um hotel com tanta segurança como o Polana, golpeando-se com facas e não haver imagens é muito estranho”. “E o Sernic ser tão rápido a descartar outras hipóteses leva-nos a pensar em interferências político-económicas gangsterizadas sem medo, em que o crime organizado captura o próprio Estado”, diz João Feijó. O sociólogo vê aqui um “problema de segurança do próprio Estado quando as entidades policiais e de investigação como o Sernic e o GOE (Grupo de Operações Especiais) andam à luta. Este caso concreto enquadra-se neste contexto e legitima hollywoodescas teorias da conspiração”.
▲ Pedro Ferraz Reis num evento na Universidade Católica
Fernando Lima vai no mesmo sentido: “Pedro Ferraz Reis trabalhava num dos principais bancos de Moçambique e fazia parte da comissão de crédito, que analisaria pedidos de empréstimo de muitas pessoas ligadas ao partido no poder, a Frelimo. Onde há riqueza em Moçambique, normalmente há Frelimo [o partido no poder há 50 anos]”, escreveu o jornalista esta semana no seu editorial na Zitamar News. “Estas pessoas conseguem usar a sua influência para obter empréstimos bancários que empresários sem ligações à Frelimo não conseguiriam obter. Quando têm dificuldades em pagar, geralmente conseguem convencer o banco a adiar o início de processos formais de recuperação, algo humilhante, uma vez que implica a publicação do seu nome por despacho judicial”. E foi assim que se “espalharam rumores de que Pedro Reis foi morto por pessoas poderosas devido a um problema de dívida”, menciona o jornalista, ressaltando que “de momento, não há provas que sustentem essa tese”.
No entanto, “o governo português não dá, por agora, qualquer sinal de estar descontente com a investigação à morte de um dos seus cidadãos proeminentes, nem de querer intervir nela”, acentua o jornalista. “Se o Sernic tentasse encobrir quaisquer aspetos suspeitos da morte de Reis, isso poderia provocar um incidente diplomático com Portugal, o aliado europeu mais próximo de Moçambique e um importante financiador. Embora os adeptos de teorias da conspiração procurem motivos para sustentar a hipótese de encobrimento, existem boas razões para que essa fosse uma má ideia para as autoridades.”
Venâncio Mondlane tem outra opinião. O carismático líder da oposição moçambicana resolveu falar do caso na sua comunicação diária nas redes sociais, as chamadas lives (aqui, a partir do minuto 42). Fala em “assassinato de Pedro Ferraz” e cita um “relatório forense” que tem estado a circular nas redes sociais, que não tem autor, não está assinado, não teve acesso ao corpo ou aos exames toxicológicos ou relatório da autópsia. Na verdade, é mais uma análise, de origem desconhecida, à informação que é pública, alguma errada (como a alusão a facadas nas costas), com alguns termos técnicos e que acaba por afastar a tese do suicídio.
O político usa os mesmos argumentos para dizer que só um “contorcionista ou acrobata” se poderia ter matado daquela forma, para concluir que se tratou de um homicídio, um “trabalho encomendado com a Sernic a tentar encobrir tudo”. “Há autoridades policiais envolvidas nisto, altos escalões das forças de segurança e defesa, alta política está envolvida”, disse o líder do partido Anamola.
“A grande questão que se coloca é que isto tem história em Moçambique”, lembra Venâncio Mondlane, que vai buscar outros casos de administradores bancários que foram mortos (Lima Félix do então BCM, hoje BIN, em 1997, e há 24 anos Siba Siba Macuaca, do Banco Austral) e empresários portugueses raptados e assassinados. E a partir daí ataca o governo português que recebeu “com pompa e circunstância” Daniel Chapo, o Presidente moçambicano “no poder ilegitimamente”. A morte deste administrador bancário “é um assunto triste, mas é muito importante para Portugal refletir no tipo de relações que quer ter com Moçambique, com um governo gangster, de uma verdadeira quadrilha, controlado pelo crime organizado, que tem uma indústria de raptos, uma indústria criminosa fluorescente”.
O regresso programado de Pedro Ferraz Reis a Portugal e a saída da igreja pelo túnel
Na missa de quarta-feira, na Igreja de Santo António da Polana, duas mensagens foram lidas por colaboradoras do BCI. Uma mais formal, enaltecendo as qualidades pessoais e profissionais de Pedro Ferraz Reis. “Outra mais emotiva”, conta ao Observador Ana Silveiro, de uma funcionária da equipa do administrador bancário que agradeceu o “muito que ele lhes ensinara, a sua generosidade e disponibilidade para os ajudar”.
Nada que surpreendesse a professora. “Pedro Reis era uma pessoa proeminente nesta sociedade, fazia parte do Conselho da Diáspora criado pela embaixada de Portugal em Moçambique, um homem de valores e princípios, fora de série”. Ana Silveiro conhece a família e lidou com o administrador que foi presidente da Associação de Pais da Escola Portuguesa de Maputo onde a professora dá aulas.
Um outro professor da mesma escola, mas que pede o anonimato, fala de um “homem afável, com um forte espírito cívico, sempre a tentar resolver problemas, não olhando para o lado negativo das coisas”. Recorda-se de Pedro Ferraz Reis nas reuniões na casa do embaixador na crise pós-eleitoral em que Moçambique foi varrido por uma onda de violência, com uma “participação sempre serena, de grande elevação”. Colaborou com o banqueiro nas atividades da escola, “em que ele mostrou uma capacidade extraordinária de se envolver na comunidade, com uma atitude muito positiva, não era nada depressivo”. Sublinha: “Não aparentava quaisquer sinais de querer pôr termo à vida”.
Pelo contrário, tinha planos, diz ao Observador um amigo da família. A filha mais velha está a estudar na Europa e a mais nova está a terminar o 12.º ano. E Pedro Ferraz Reis estava a preparar-se para regressar a Portugal.
O professor não aceita a conclusão da Sernic. “Mesmo que se quisesse suicidar, um homem como ele nunca o faria desta forma violenta e tão estúpida, coisas que o Pedro não era nada, não tinha qualquer lado masoquista”. Para este português, “há outras coisas mais graves e sérias”, o gestor “ter-se-à colocado à frente de alguém muito perigoso”, no âmbito das suas funções profissionais, “que teria a ver com o crédito mal parado e era necessário que desaparecesse sem levantar suspeitas”.
A Ana Silveiro revolta a “impunidade” e “o enxovalho da família”. “Se o mataram e queriam encobrir o crime com o suicídio, então que o fizessem, mas não desta forma, não era preciso enxovalhar e achincalhar”.
No BCI, ainda “está toda a gente em choque com o que se passou”, confessa ao Observador um colega de Pedro Ferraz Reis, que não consegue “acreditar num quadro de suicídio como o descrito”. Um administrador que trabalhou com Pedro Ferraz Reis várias décadas (embora já não o visse pessoalmente há uns 10 anos), descreve ao Observador “uma pessoa fantástica, com uma inteligência muito acima da média, muito ponderado”. Recorda-se de como ele, “quando era jovem, tinha uma postura muito tranquila e ponderada, nada impulsiva, e destacava-se por isso, por ser tão jovem e ‘parecia mais velho’ pela sensatez que demonstrava”.
Não se fala de outra coisa por estes dias na Escola Portuguesa. “A comunidade está consternadíssima. Fui beber uma cerveja com o meu marido ao fim do dia a um restaurante perto de casa e a empregada moçambicana estava muito triste, disse-me: ‘O sr. Pedro Reis era cliente desta casa e aquilo não se faz a ninguém’”, relata Ana Silveiro.
No banco de madeira da igreja, com o sol a iluminar os vitrais, a professora descobre algo de novo e triste. Depois da explicação dada pelo Sernic sobre esta morte, a sua relação com este país pelo qual se “apaixonou” há alguns anos, mudou. “Alguma coisa se partiu dentro de mim”. Levantou-se, e foi a última a cumprimentar a mulher e a sogra de Pedro Ferraz Reis, junto ao altar. Lá fora havia muitas televisões e microfones. As duas mulheres evitaram o ruído: entraram num túnel que liga a igreja até à casa do padre e saíram por aí.
Com Edgar Caetano