A tempestade Kristin deixou mais de 300 mil clientes de operadoras de telecomunicações sem serviço, segundo um primeiro balanço feito pela Anacom. Sandra Maximiano, presidente do regulador das comunicações, disse à RTP que o vento intenso destruiu muitas estruturas e admitiu que “vai demorar mais tempo” a recuperar as comunicações do que no apagão de abril do ano passado, quando a dificuldade era apenas a falha de energia.

As três principais operadoras falam em entraves à reposição das comunicações, como as dificuldades de acesso aos locais onde estão antenas e cabos, que também ficaram danificados pela passagem da depressão, ou a falta de energia.

Mas há alternativas às comunicações convencionais que possam também ser usadas em momentos de emergência ou crise? A comunicação por satélite, através da tecnologia direct-to-device (D2D), pode funcionar.

Esta tecnologia, que já é uma realidade nos EUA e está a ser discutida na Europa, permite que um smartphone normal se ligue de forma direta a uma rede de satélites de baixa órbita ou média órbita. Desta forma, poderia existir uma alternativa em locais onde não haja cobertura de rede ou em situações de emergência.

A comunicação através de satélites não é nova, é certo. A diferença desta tecnologia é que dispensa o uso de um telefone específico para comunicações por satélite.

Atualmente, a comunicação por satélite precisa de um equipamento especial, normalmente caro e que não está ao alcance dos consumidores.

Quando se pensa em satélites, vem à ideia a necessidade de uma antena de grandes dimensões para conseguir estabelecer a ligação. Com esta tecnologia, a ideia é que os smartphones possam estar já preparados para estabelecer a ligação, dispensando as grandes antenas. Desde há uns anos que as fabricantes de smartphones começaram a incluir esta compatibilidade nos seus equipamentos topo de gama.

A Apple já o fez com o iPhone 14, em 2022, ainda que tenha arrancado com esta opção só no mercado dos EUA e Canadá. A Samsung também tem uma funcionalidade de ligação por satélite no Galaxy S25, mas que não está disponível na Europa.

Para este serviço poder funcionar é preciso que haja uma oferta disponível por parte das operadoras de telecomunicações. A ligação direct-to-device implica uma parceria entre uma operadora e uma empresa de comunicações por satélite.

Tecnologia ainda em teste. Meo já fez uma experiência nos Açores

Na Europa, esta tecnologia ainda dá os primeiros passos, nomeadamente através de testes. O Observador contactou as três operadoras para saber um ponto de situação sobre esta tecnologia. A Vodafone respondeu que ainda não é uma oferta em Portugal, enquanto a Meo remeteu para um primeiro teste feito em Portugal no ano passado. Não foi ainda possível obter resposta da Nos sobre este tema.

Também foram enviadas questões à Anacom, o regulador das comunicações, sobre este tema, aguardando o Observador mais detalhes. No site do regulador dá-se conta da participação em grupos de trabalho a nível europeu sobre esta tecnologia. Em abril do ano passado, a Anacom disse ao Tek Notícias que a existência desta tecnologia no mercado português dependeria “das ofertas comerciais que os operadores de serviços de comunicações via satélite entendam disponibilizar no mercado português”.

Em março de 2025, a Meo afirmou “ser o primeiro operador nacional em Portugal a testar com sucesso o envio de SMS e a realização de chamadas de voz através de D2D”. Os testes foram feitos em parceria com a Lynk Global, uma empresa norte-americana especializada em ligações diretas de smartphones a satélites. O Observador enviou questões à Meo e à Lynk sobre o que aconteceu depois deste teste, mas ainda não foi possível obter resposta.

O teste feito pela Meo nos Açores em 2025

Já a Vodafone remeteu para uma parceria do grupo com a AST Spacemobile”, para “levar comunicações via satélite diretamente para telemóveis convencionais em toda a Europa”. “Esta tecnologia permitirá a consumidores e empresas aceder a conectividade móvel de banda larga segura, mesmo em locais onde atualmente não existe cobertura móvel ou fixa, surgindo assim como uma solução verdadeiramente complementar, essencial em zonas remotas ou em situações de crise e catástrofe”, é dito numa declaração enviada ao Observador.

Em janeiro, as duas empresas fizeram um teste, realizando uma videochamada a partir de um ponto isolado sem cobertura móvel no País de Gales. Não há menção a testes em Portugal. Ainda assim, a empresa refere que a oferta desta tecnologia “deverá arrancar comercialmente em múltiplos países onde a Vodafone opera nos próximos anos”, para que possa funcionar como “uma extensão das principais redes terrestres da Vodafone”.

Fundação Vodafone disponibilizou pela primeira vez equipamento por satélite a bombeiros

Ainda que não seja uma comunicação direta entre um smartphone e um satélite, como acontece na tecnologia D2D, a Fundação Vodafone está a testar pela primeira vez em Portugal equipamentos de satélite para casos de emergência.

Carina Correia, responsável da Fundação Vodafone Portugal, explica ao Observador que foi ativada uma equipa de voluntários para instalar um equipamento no quartel de bombeiros de Oleiros, “que estava sem qualquer comunicação”. “Foi em Oleiros que a Proteção Civil nos pediu ajuda”, diz.

Foi instalado um equipamento “que permite fazer ligação via satélite e que vai permitir ter acesso a internet através de wi-fi”, que permitiu reativar “a rede interna do quartel”. A equipa de voluntários, que “recebeu um treino específico para operar este sistema”, desenvolvido pela Fundação Vodafone, irá colocar ainda mais dois sistemas noutros quartéis de bombeiros, como Cernache do Bonjardim, no município da Sertã.

Carina Correia explica que é a primeira vez que esta “ligação ao satélite é ativada em Portugal”, com 15 voluntários no terreno. Detalha ainda que este é um equipamento “que não é um produto comercial”, e não está disponível para os clientes da empresa. “É só da Fundação” e para usos pontuais, como situações em que “as câmaras municipais peçam ajuda numa situação de catástrofe e emergência” como esta.

Starlink é opção para ter internet através de satélite. Como funciona?

A Starlink, uma das várias empresas do empresário Elon Musk, tem vindo a colocar em órbita uma constelação de satélites para permitir uma ligação à internet através destes. O uso deste serviço ganhou especial destaque com a guerra da Ucrânia, já que é uma solução para vários pontos da Ucrânia estarem ligados à internet.

A Starlink já tem uma constelação de satélites que permitem a ligação direta de telemóveis a satélites, embora essa seja uma opção que só está disponível nos EUA e Nova Zelândia.

Em Portugal, a Starlink já é considerada uma opção para ter internet, sem ligação direta, em zonas de acesso remoto ou em viagem. Mas também em situações como no rescaldo da depressão Kristin. A empresa tem um serviço para particulares e outro para empresas.

Ainda que tenha um uso pontual no mercado português, a Starlink tem já um instalador certificado em Portugal, a Solmaior. Ao Observador, a empresa detalha que há três opções de serviço disponíveis: o kit Mini, usado em viagens e portátil, e caracterizado pela portabilidade; e as versões Standard e Performance, mais dispendiosas e de maiores dimensões.

A Solmaior detalha que, no caso do Mini, usado para viagens, a “ideia é levar a antena”, de pequenas dimensões, para onde se quiser. “É sempre necessária a exposição a céu aberto, para que haja comunicação com o satélite”.

Starlink Mini Starlink

O Starlink Mini

A versão portátil da ligação por Starlink custa 249 euros e, posteriormente, é necessário ativar uma subscrição para ter a ligação à internet. Nesse caso, a mensalidade oscila entre 40 euros (acesso a 100 GB) ou 89 euros (ilimitado).

Em condições normais, este equipamento portátil teria de estar ligado à energia. Mas, diz a Solmaior, é possível usar “uma espécie de powerbank” ou ainda uma bateria para maior resiliência e usar o equipamento mesmo que não haja eletricidade.

Depois de ligado, o Starlink “gera uma rede wi-fi”, diz a empresa, sendo possível ligar um telemóvel ou um computador para ter internet.

[Esta é a história de como dezenas de portuguesas se juntaram a mulheres de vários outros países e se tornaram seguidoras de uma seita controlada por um guru manipulador. Recrutadas numa escola de yoga em Lisboa, muitas acabaram em casas de massagens eróticas ou a serem filmadas em cenas de sexo e orgias. “Os segredos da seita do yoga” é o novo Podcast Plus, do Observador. Uma série em seis episódios, narrada pela atriz Daniela Ruah, com banda sonora original de Benjamim. Ouça o primeiro episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music.]