O despedimento de Ruben Amorim após o empate em Leeds, o período com Darren Fletcher como técnico interino que ainda teve mais revés com a eliminação da Taça de Inglaterra diante do Brighton, a escolha de Michael Carrick como novo interino para conduzir a equipa até ao final da temporada que teve como cartão de visita as vitórias frente ao rival City e ao líder Arsenal – um resultado que reacendeu a esperança do próprio Frank Ilett, aquele adepto do Manchester United que num dia menos inspirado disse que só iria cortar o cabelo quando a equipa ganhasse cinco jogos consecutivos e hoje está mais preparado para a tosquia do que outra coisa. Em apenas três semanas, os red devils viveram um pouco de tudo: tristeza, resignação, deceção, fúria, esperança, alegria, nostalgia. Agora, e sobretudo tendo em conta os dois últimos triunfos, o clube começa a olhar para o futuro sem pensar num passado com o português. A página virou de vez.

Carrick e mais 90 minutos para provar que é o homem certo: United vence Arsenal em Londres

O The Athletic tinha um artigo de fundo este semana com o título “O ‘Manchester United Way‘ é mais folclore do que teoria, mas há algo de mágico nele”. Aí, era feita toda uma análise que em alguns pontos recuava até ao final da era Alex Ferguson, procurando desfazer mitos ou confirmar ideias à luz de números, de acontecimentos e de “enganos”. Algumas conclusões sobre o clube que no verão terá o seu sétimo técnico “permanente” em 12 anos (que até pode ser Michael Carrick, entenda-se): o ‘United Way’ não é tanto um conjunto de regras codificadas mas sim um futebol identificável quando se vê, alicerçado nas vitórias, num jogo rápido e ofensivo e no espaço para o aparecimento de jovens talentos da Academia; ao contrário do que muitas vezes se constrói, a equipa tem uma média de 66 pontos na Premier nos últimos 12 anos e só por uma vez passou os 80 (com Mourinho); nem a conquista de taças atenua o jejum de Ligas como noutros clubes.

O que é que Michael Carrick fez para treinar o Manchester United, perguntaria Roy Keane. A resposta? Ganhar ao City

Tendo a mesma base, o The Athletic explica como o United se foi adequando a um modelo que ia tentando explorar os erros contrários não sendo capaz de furar blocos mais baixos e como nunca foi capaz de dominar os adversários, tendo os jogos grandes mais conseguidos utilizando transições e um jogo mais direto. Mais: se muitos apontam para as filosofias de Barcelona ou Ajax enquanto clube, o artigo conclui que o United deve olhar mais para um Real Madrid ou um Bayern, sem tanta atenção ao estilo mas com foco total naquilo que são os resultados. Ainda assim, Carrick continuava a acreditar que era a pessoa indicada para fazer recuperar o tal ‘United Way‘, tendo aquele lema do “Juventude. Coragem. Sucesso” que o clube já chegou a ter na gola dos equipamentos em 2021/22. No entanto, mais uma vez, estava refém dos resultados.

Agora, o adversário era o Fulham de Marco Silva – esse mesmo que foi referido quando Ruben Amorim foi despedido, com a imprensa inglesa a recordar o dia em que o diretor do scouting, Christopher Vivell, fez a partilha das afirmações do português quando venceu o Manchester United e explicou como tinha sido “fácil” anular a equipa dos red devils. “Sei tudo o que aconteceu antes, não vou falar sobre isso. Aquilo que quero é chegar ao que é necessário para obter resultados. Vai ser um grande teste, tão grande ou maior do que os últimos que tivemos. Jogamos em casa, jogamos com o Fulham, para mim é tudo igual. Podemos jogar bem, podemos estar no topo mas sabemos que teremos mais um grande desafio”, apontara Carrick.

“Vi o impacto dele assim que cá cheguei. Teve tanto impacto e de tantas maneira. Era fácil de reparar na paixão e que ele queria fazer as coisas bem, a qualidade que ele tem vindo a manter até agora, a consistência e o nível que apresenta, a vontade de dar tudo em campo e de estar fisicamente capaz de o fazer. Há muito crédito da parte dele. Todos queremos ganhar coisas e melhorar enquanto equipa. Queremos ter sucesso e avançar juntos, mas o Bruno tem sido fantástico desde que cá cheguei e foi fantástico na minha primeira passagem. Sair no verão? Não nos vamos precipitar. O que mais me preocupa é preparar o jogo com o Fulham e o Bruno está completamente comprometido com isso. Mais perto do final da época trataremos de outros assuntos. O pensamento é positivo, não há razão para pensar noutra coisa”, apontou sobre o capitão, numa semana em que voltaram os rumores de que pode estar de saída de Old Trafford no final da época.

A próxima temporada será resolvida a seu tempo, sendo que por este andar o grande candidato a ser técnico em 2026/27 é mesmo Michael Carrick. No entanto, há algo incontornável: as duas unidades que têm nesta fase melhor rendimento são aquelas que podem não contar na próxima temporada, com Casemiro a marcar e assistir nos últimos meses ao serviço dos red devils e Bruno Fernandes a ter mais duas assistências a régua e esquadro no dia em que fez seis anos na estreia em Old Trafford e leva já um total de 313 jogos. E, com a terceira vitória consecutiva, o Manchester United não só conservou a quarta posição como deu mais um passo para se aproximar da terceira que pertence nesta fase ao Aston Villa (que perdeu com o Brentford), deitando por terra todos os “fantasmas” da era Amorim após sofrer aos 90+1′ mas marcar aos… 90+4′.

O Fulham não demorou a mostrar ao que vinha, tendo incursões ofensivas que mesmo não criando perigo mostraram que os londrinos não estavam em Old Trafford a jogar para o ponto. Já o United, mantendo zonas de pressão não tão altas como tinha acontecido com City e Arsenal mas tentando uma reação rápida à perda até estar defensivamente organizado, tentava assumir o comando do jogo com bola, tendo agora Matheus Cunha na posição do lesionado Dorgu e Mbeumo como referência ofensiva no meio em vez de Sesko. Lances de perigo, esses, só de bola parada: Harry Maguire desviou de cabeça para defesa de Bernd Leno (9′) após um canto, Andersen obrigou Lammens a mostrar toda a sua elasticidade também na sequência de um canto (13′), Casemiro conseguiu inaugurar o marcador depois de uma falta que numa fase inicial foi assinalada como penálti mas que Bruno Fernandes transformou quase num castigo máximo lateral (20′).

O Fulham não perdia há seis jogos seguidos na Premier mas estava agora em desvantagem e sem conseguir aproximações de perigo, tendo Chukwueze inadaptado à esquerda, Raúl Jiménez com pouca bola e Harry Wilson sem o protagonismo que tem assumido nas últimas rondas. Já o Manchester United, alternando as zonas de pressão, jogava de forma mais tranquila, bem mais coeso a defender desta nova linha a quatro e com outra capacidade de perceber os momentos do jogo. Alex Iwobi, que esteve ausente algum tempo na CAN, ainda teve um remate de meia distância para defesa de Lammens (39′) mas o intervalo chegaria mesmo com a vantagem mínima no marcador para o United e ascendente dos londrinos em vários capítulos do jogo, dos remates tentados à posse de bola e aos passes concretizados. Marco Silva, que esteve até ao intervalo a protestar de quando em vez pela falta que originou o golo, tinha trabalho extra para fazer.

Ao contrário do que acontecera na primeira parte, o segundo tempo começou com oportunidades e nas duas balizas: Diogo Dalot isolou Mbeumo na diagonal para o remate defendido por Leno (48′), Iwobi viu bem a entrada de Chukwueze na esquerda mas Lisandro Martínez conseguiu fazer o corte na área (50′), Wilson teve um livre direto para intervenção apertada de Lammens (51′). Houve uma altura em que o Fulham conseguiu que o Manchester United não conseguisse sair do seu primeiro terço mas, quando saiu, marcou: Casemiro teve uma assistência fantástica para Matheus Cunha descaído sobre a direita na área e o brasileiro fulminou Leno sem hipóteses para o 2-0 (56′). Tudo parecia estar em definitivo fechado. Ou não.

Cuenca ainda marcou num lance confuso após bola parada mas o golo foi anulado por fora de jogo (64′) mas seria o United a poder aumentar a vantagem, num cabeceamento de Sesko acabado de entrar para o lugar de Matheus Cunha após cruzamento de Amad Diallo que bateu no poste (74′). Ainda assim, tudo estava ainda por acontecer num encontro eletrizante disputado até ao derradeiro minuto dos descontos: Raúl Jiménez reduziu para 2-1 numa grande penalidade após ser “varrido” por Maguire na área (82′), Kevin fez o empate no primeiro minuto do tempo extra num remate fantástico ao ângulo sem hipóteses para Lammens mas Sesko, quando todos já pensavam naquele United que parecia atrair o azar, conseguiu ainda fazer o 3-2 após mais uma assistência de Bruno Fernandes que deixou Old Trafford em completo delírio (90+4′).