O Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, está a ameaçar processar o comediante Trevor Noah por causa de uma piada “de mau gosto” sobre a “ilha de Epstein” na cerimónia dos Grammy Awards, em Los Angeles, este domingo.

Numa publicação feita esta madrugada na rede social de Trump, Truth Social, o Presidente norte-americano criticou o apresentador, que já apresentou o evento seis vezes, chamando-o de “loser total” e prometendo agir. “Vou enviar os meus advogados para processar este pobre e patético apresentador sem talento… Prepara-te, Noah, vou divertir-me contigo!”, escreveu.

A piada surgiu no seguimento da entrega do Grammy de Canção do Ano, cuja vencedora foi Billie Eilish com a música Wildflower. Depois de congratular a cantora norte-americana, Noah acrescentou: “Uau. Esse é um Grammy que todos os artistas querem — quase tanto quanto Trump quer a Gronelândia”, troçou, referindo-se às ameaças do Chefe de Estado norte-americano ocupar o território autónomo do Ártico. Noah continuou: “O que faz sentido, porque desde que Epstein se foi ele precisa de uma nova ilha para passar o tempo com Bill Clinton”.

A “ilha de Epstein” a que o comediante se refere é uma ilha privada de Jeffrey Epstein nas Ilhas Virgens Americanas, nas Caraíbas. Muitas sobreviventes dos abusos sexuais cometidos pelo empresário alegaram que foram traficadas e atacadas sexualmente por Epstein naquela ilha, comprada em 1998.

Imagens da ilha foram divulgadas em dezembro pelos democratas do Comité de Supervisão da Câmara dos Representantes dos EUA. Trump, que frequentava os mesmos círculos sociais que Epstein na Flórida e em Nova Iorque, tem lutado para impedir a divulgação de uma vasta coleção de documentos sobre o escândalo que envolve o falecido criminoso sexual condenado e já deu várias versões sobre o motivo pelo qual acabou por se desentender com Epstein.

No entanto, esta sexta-feira, o Departamento de Justiça dos EUA divulgou uma nova leva dos chamados “ficheiros de Jeffrey Epstein”. Entre os mais de três milhões de documentos revelados (incluindo 2.000 vídeos e 180.000 imagens) há um registo do FBI com alegações de abusos sexuais contra Trump. Há outras figuras mencionadas além do presidente de 79 anos, como Elon Musk, Bill Gates ou o antigo presidente norte-americano, Bill Clinton.

Trevor Noah, que anunciou que este será o seu último ano como apresentador do Grammys após seis edições, tem sido relativamente discreto nos comentários políticos nas cerimónias dos últimos anos. Quando a audiência da sala em Los Angeles reagiu à piada este domingo, Noah respondeu: “Eu disse-vos que era o meu último ano? O que vão fazer?”.

A julgar pela reação do Presidente norte-americano, deverá seguir-se um processo judicial. “Não posso falar pelo Bill, mas nunca estive na Ilha Epstein, nem em nenhum lugar próximo, e até a declaração falsa e difamatória desta noite, nunca fui acusado de estar lá, nem mesmo pela imprensa de notícias falsas”, afirmou Trump na mesma publicação na Truth Social, advertindo o comediante sul-africano para que “esclareça os factos” e “que o faça rápido”.

A publicação de Trump na Truth Social na madrugada desta segunda-feira, após a cerimónia dos Grammys

No último ano, a guerra de Donald Trump contra humoristas tem sido particularmente intensa. Em julho de 2025, o programa de Stephen Colbert, considerado um dos principais críticos do Presidente norte-americano, foi cancelado pela estação CBS depois de, uma semana antes, a Paramount, empresa que controla a rede CBS, ter recorrido nos tribunais de um processo apresentado pelo chefe de Estado norte-americano contra a CBS News. A empresa concordou pagar 16 milhões de dólares (13 milhões e meio de euros) a Trump para pôr termo a um processo judicial sobre uma entrevista no programa 60 Minutes, decisão essa que Stephen Colbert criticou no seu programa como “um suborno e tanto”.

Em setembro, foi o programa de Jimmy Kimmel a ser suspenso indefinidamente depois de o apresentador ter associado o suspeito de matar Charlie Kirk ao “gangue MAGA”. A indignação coletiva de humoristas de todo o mundo acabaria, no entanto, por reverter a decisão e Kimmel tornou-se um símbolo da guerra pela liberdade de expressão nos EUA.

Em novembro, Trump escolheu um novo alvo e disse publicamente que a estação de televisão NBC devia despedir Seth Meyers “imediatamente”. Também o apresentador e comediante tem de forma consistente feito piadas em torno do Presidente norte-americano no programa que apresenta, Late Night with Seth Meyers. 

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