O Departamento de Justiça dos EUA divulgou, esta sexta-feira, uma nova leva dos ficheiros de Jeffrey Epstein. Com mais de três milhões de ficheiros, incluindo 2.000 vídeos e 180.000 imagens, esta é a maior tranche revelada até agora. Entre os documentos, há um registo do FBI das alegações das vítimas contra o próprio Donald Trump e comunicações que sugerem que Bill Gates teve um caso extra-matrimonial, uma combinação para uma visita de Elon Musk à “Epstein Island”.

O anúncio foi feito pelo vice-procurador federal dos EUA, Todd Blanche, numa conferência de imprensa nesta sexta-feira, em que negou também que o Presidente dos EUA esteja a ser protegido.

“Não protegemos ninguém“, garantiu Blanche à ABC News, acrescentando ainda que “a fome ou sede por informações” não deverá ser “não ser satisfeita ao ver estes documentos”, sublinhando que não há mais nada para ser divulgado.

O vice-procurador disse ainda que dentro deste conjunto gigante de ficheiros estão mais de dois mil vídeos e 180 mil imagens e que, em todos os documentos e ficheiros lançados, os nomes e as caras das vítimas tinham sido retirados ou ocultados — algo negado pela oposição e pelas próprias vítimas.

FBI compilou lista de queixas em que Trump é mencionado

Um dos ficheiros mostra uma compilação em tabela das queixas feitas para uma linha Centro de Operações para Ameaças Nacionais do FBI, cuja veracidade não pôde ser totalmente verificada. Este documento, como noticiou a NBC News, chegou mesmo a ser retirado pelos procuradores temporariamente. Nele constam vários nomes conhecidos, com destaque para o próprio Donald Trump.

“Donald Trump, o Presidente, teve festas em Mar-a-Lago com “meninas de calendário”. Jeffrey Epstein trazia as crianças e Trump leiloava-as. Ele media a vulva e a vagina das crianças introduzindo um dedo e classificava-as de acordo com o seu grau de estreiteza”, lia-se numa denúncia, que não deixou contacto para ser direcionada.

“Os convidados eram homens mais velhos e incluíam Elon Musk. Don Jr. Trump, Ivanka Trump e Eric Trump estavam lá. O advogado Alan Dershowitz também estava lá com o advogado Bob Shapiro. Fomos levadas para quartos e forçadas a fazer sexo oral em Donald J. Trump. Forçadas a permitir que eles nos penetrassem. Eu tinha 13 anos quando Donald J. Trump me violou“, lê-se na mesma acusação.

Noutra linha da tabela, lê-se a alegação de uma pessoa cujo nome está apagado e que disse que uma amiga de “aproximadamente 13/14 anos” tinha sido “obrigada a fazer sexo oral ao Presidente Trump há aproximadamente 35 anos em NJ [Nova Jérsia]”.

“A amiga alegadamente mordeu o Presidente Trump enquanto lhe fazia sexo oral. A amiga alegou ter sido atingida na cara após se rir de ter mordido o Presidente Trump. A amiga disse que também foi abusada por Epstein”, lê-se no documento. Esta denunciante chegou a falar novamente e a ser encaminhada para uma entrevista. Ainda assim, não é revelado se as acusações foram comprovadas.

Ao todo, há pelo menos 3.200 documentos que mencionam o Presidente dos Estados Unidos. Todas as acusações feitas contra Trump foram rotundamente negadas no comunicado publicado pelo Departamento de Justiça a acompanhar a divulgação.

“Alguns dos documentos contêm alegações falsas e sensacionalistas contra o Presidente Trump, que foram apresentadas ao FBI pouco antes das eleições de 2020”, lê-se nessa nota publicada no seu site. “As alegações são infundadas e falsas e, se tivessem um pingo de credibilidade, certamente já teriam sido usadas como arma contra o Presidente Trump“, acrescentam.

E-mail mostra Musk e Epstein a combinar uma visita à ilha

Já a documentação publicada do correio trocado entre Elon Musk e Epstein data de 2013. Num dos contactos, os dois combinam um encontro enquanto o magnata visitava a zona das Caraíbas. O local do encontro é Little St. Andrew, do arquipélago das Ilhas Virgens — conhecida como a “Epstein Island”.

“Estarei na região das Ilhas Virgens Britânicas/São Bartolomeu durante as férias. Há alguma altura boa para visitar?”, escreveu Musk, num e-mail de 13 de dezembro de 2013. “Qualquer dia entre o 1º e o 8º. Improvisa se quiseres. Há sempre espaço para ti“, acrescentou.

Mais tarde, no dia de Natal, Epstein sugeriu que “o [dia] 2 ou 3 [de janeiro] seria perfeito”. “Vou-te buscar”, disse ainda. “Tenho de voar de volta para Los Angeles na noite do dia 2”, respondeu Musk, apontando depois que iria adiar esse regresso para o dia seguinte.

A troca de comunicações contraria diretamente o que o magnata falou sobre este mesmo assunto. Em setembro do ano, Musk afirmou que se tratava de uma “falsa narrativa” . “Epstein tentou com que eu fosse à ilha dele e eu RECUSEI“, alegou então na sua rede social X.

Epstein escreveu que Bill Gates tinha uma DST e fazia sexo com “raparigas russas”

O nome de Bill Gates já tinha sido ligado antes aos ficheiros de Jeffrey Epstein. Porém, esta nova leva inclui documentos que mencionam diretamente o magnata em e-mails enviados por Epstein e datados do mesmo dia: 18 de julho de 2013.

O New York Times noticiou que essa data indica que as notas foram escritas pouco depois de uma tentativa do financiador de mediar um projeto conjunto entre a Fundação Gates e a JP Morgan Chase. “Não consigo acreditar que decidiste ignorar e descartar a nossa amizade, construída ao longo dos últimos 6 anos”, escreveu então.

Mais à frente no mesmo documento, Epstein relata um episódio em que Gates “com lágrimas nos olhos” ter-lhe-á implorado para “apagar os e-mails sobre a tua DST (doença sexualmente transmissível)” e pedido para lhe dar “antibióticos” para Epstein dar “à Melinda à socapa”.

No outro documento, Epstein desabafa sobre uma aparente “disputa marital severa” em que foi “apanhado”. “Desde ajudar o Bill a conseguir drogas, para lidar com as consequências de ter relações sexuais com raparigas russas, até facilitar os seus encontros ilícitos com mulheres casadas, até ser solicitado a fornecer Adderall para os torneios de bridge. Sinto que devo aos meus amigos e futuros colegas admitir uma falha moral, pedir perdão e seguir em frente com a minha vida”, afirmou.

Em resposta, um representante da Fundação Gates disse que “essas alegações — feitas por um mentiroso comprovado e insatisfeito — são absolutamente absurdas e completamente falsas“.

“A única coisa que esses documentos demonstram é a frustração de Epstein por não ter um relacionamento contínuo com Gates e o quanto ele estava disposto a ir longe para incriminar e difamar“, acrescentou.

Ficheiros estão incompletos, acusam vítimas e democratas

Apesar de o vice-procurador-geral alegar que já não há mais nenhum ficheiro Epstein para divulgar, os congressistas do Partido Democrata e um grupo que representa as vítimas de Jeffrey Epstein e Ghislaine Maxwell discorda e atacou a Administração Trump por não lançar todos os documentos ligados ao processo.

Robert Garcia, principal congressista dos Democratas na comissão de supervisão da Câmara dos Representantes, afirmou que todos os ficheiros têm de ser divulgados. Se não o fizerem, continuou, “estão em violação da lei“.

“Donald Trump e o seu Departamento de Justiça deixaram claro que pretendem reter cerca de 50% dos arquivos de Epstein, alegando ter cumprido integralmente a lei. Isto é ultrajante e extremamente preocupante”, acrescentou numa declaração partilhada no The Guardian.

Um grupo que representa várias vítimas de Epstein emitiu um comunicado em que afirmam que o departamento “não pode alegar que acabou de divulgar os ficheiros até que todos os documentos legalmente requeridos sejam divulgados e todos os abusadores e quem os permitiu sejam expostos.

Para além disso, as vítimas criticam o facto de haver “nomes e informações identificáveis” de sobreviventes a serem expostos nesta leva de documentos. Enquanto isso, sublinham que é “ultrajante” que “os homens que as abusaram permanecem escondidos e protegidos”.

“Como sobreviventes, nunca devemos ser nós a ser apontados, escrutinados e retraumatizados, enquanto os facilitadores de Epstein continuam a beneficiar do sigilo. Isso é uma traição às próprias pessoas a quem este processo deveria servir”, apontam ainda.

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