Quatro horas e quatro quilómetros depois, um rapaz de 13 anos conseguiu chegar à costa a nadar em mar picado até alcançar terra e alertar as autoridades de que a mãe e os dois irmãos tinham sido arrastados para alto-mar, a mais de 14 quilómetros da costa, ao largo de Quindalup, no sudoeste da Austrália, noticiou a Australian Broadcasting Corporation (ABC). O que era um último dia de férias em família transformou-se num drama de cerca de dez horas, depois de o vento e as correntes terem começado a ganhar força e a afastar as pranchas insufláveis de paddle e um caiaque, ao final da tarde de sexta-feira.
Foi a própria mãe, Joanne Appelbee, quem tomou a decisão desesperada de pedir ao filho mais velho que tentasse chegar a terra para pedir ajuda. “Uma das decisões mais difíceis que já tive de tomar foi dizer ao Austin: ‘Tenta chegar à costa para pedir ajuda’, porque a situação estava a ficar séria muito rapidamente”, explicou ao jornal The West Australian.
Austin ainda tentou regressar de caiaque, mas a embarcação não parava de meter água. “Eu estava a lutar contra o mar agitado, o caiaque virou um milhão de vezes, achei que tinha visto alguma coisa na água e fiquei com muito medo, mas só conseguia pensar que ia conseguir”, disse o rapaz ao mesmo jornal.
“Sobre-humanos” foi como Paul Bresland, comandante da equipa de Resgate Marítimo Naturalista, considerou os esforços de Austin Appelbee. “Ele calcula que nadou durante as primeiras duas horas usando um colete salva-vidas”, disse Bresland à ABC. Mas quando “o corajoso rapaz” pensou que não conseguiria chegar à costa com o colete, “descartou-o e nadou as duas horas seguintes sem ele”, acrescentou o comandante.
No mar, enquanto Austin lutava contra a maré, Joanne tentava manter os filhos Beau, de 12 anos, e Grace, de oito, calmos, cantando e contando piadas, enquanto se mantinham agarrados a uma prancha de paddle. Com o anoitecer, o medo intensificou-se. “Se ele não sobreviver, o que é que eu fiz? Tomei a decisão errada? E será que alguém virá salvar os meus outros dois filhos?”, recordou mais tarde à BBC.
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Nas duas horas em que alternava estilos de natação — “nadei bruços, nadei estilo livre, nadei de costas em modo sobrevivência” —, Austin tentava manter a mente ocupada. “Eu pensei em todos os meus amigos da escola e nos amigos do meu grupo de jovens cristãos e simplesmente disse: ‘Hoje não’, ‘hoje não’, ‘tenho de continuar’”, contou ao jornal australiano. “Tenho uma namorada e pensei nela o tempo todo. Ela deu-me os elásticos de cabelo dela e eu olhava para eles o tempo todo.” As ondas eram “muito grandes” e o rapaz teve “mesmo medo”.
‘I was really scared'.
A 13 year-old boy has made headlines after he swam for four hours through choppy waters off Western Australia to get help for his family.
Austin Applebee recounted on Tuesday how he swam for four hours through choppy waters off Western Australia to get… pic.twitter.com/F3oKieBOli
— CGTN Europe (@CGTNEurope) February 3, 2026
Quando finalmente sentiu o chão por baixo de si, as pernas cederam. “Quando caí no chão, pensei: como é que já estou em terra firme? Será que estou a sonhar?” Ainda teve forças para correr dois quilómetros, a distância a que ficava o hotel onde estavam alojados. Já eram quase 18h quando teve acesso ao telefone da mãe no hotel e ligou para os serviços de emergência. “Eu disse: ‘Preciso de helicópteros, preciso de aviões, preciso de barcos. A minha família está no mar’. Acho que foi um choque muito grande”, relatou, já exausto e sem ter comido durante o dia todo. Pouco depois, desmaiou e acabou por ser levado para um centro de saúde.
Assim que o alerta foi dado, acionaram uma operação de busca e salvamento com várias entidades, incluindo a Polícia Marítima da Austrália Ocidental, voluntários locais de resgate costeiro e o helicóptero de emergência do Estado. O testemunho do jovem revelou-se crucial para orientar as buscas: a descrição detalhada das cores do caiaque e das pranchas permitiu às equipas delimitar a área de procura e localizar o material à deriva no espaço de uma hora.
“As ações do menino de 13 anos são extremamente admiráveis — a sua determinação e coragem acabaram a salvar a vida da mãe e irmãos”, declarou o comandante. Mas a mãe teve também um papel fundamental, conseguindo manter os irmãos do jovem perto da prancha. “Ela também é uma verdadeira heroína. Manter aquelas duas crianças juntas e não desistir é absolutamente incrível”, disse ainda Bresland à radiodifusão pública australiana.
Austin só soube que a família estava a salvo ao recuperar no hospital. “Pensei que estivessem mortos”, disse. “Eu não sabia onde eles estavam nem como estavam, e pensei que estivessem mortos. Senti muita culpa porque achei que não tinha sido rápido o suficiente.” Minutos depois, por voltas das 20h30, recebeu a notícia de que a mãe e os irmãos tinham sido resgatados, depois de serem encontrados pelo helicóptero de resgate ainda agarrados a uma prancha.
Austin Applebee
His family stranded at sea
To death threatening those 3
Said “You’ll have to come though me”What an absolute fucking tough unit is Austin Applebee who swam 4km ashore to raise the alarm for his family who were stranded at sea!!!https://t.co/QbCBbBrpf2
— The Spence (@adambspencer) February 3, 2026
Já em recuperação, e depois de trocar a cadeira de rodas hospitalar por muletas, Austin regressou à escola e recebeu entretanto um convite especial para conhecer a sua equipa favorita de futebol australiano, os West Coast Eagles.
“Eu não me achei um herói — eu apenas fiz o que fiz.”
Apesar de Austin não se rever nesse rótulo e de preferir falar apenas numa “batalha difícil”, o primeiro-ministro da Austrália Ocidental, Roger Cook, tem outra leitura: “É este o aspeto de um autêntico herói da Austrália Ocidental”.