Há ainda empresas na região de Leiria sem eletricidade. Algumas conseguem ir vivendo à custa de geradores, que são grandes consumidores de combustíveis, resultando em “custos de energia enormes”. A intermitência ou a falta do fornecimento de eletricidade é ainda uma realidade para muitas das companhias, revelou ao Observador Henrique Carvalho, diretor executivo da Nerlei – Associação Empresarial da Região de Leiria, assumindo que ainda se vivem muitas dificuldades. De 28 de janeiro a 1 de fevereiro houve uma paragem quase total numa região que leva às costas um importante tecido empresarial, integrado, muito dele, em cadeias de valor mais vastas, além-fronteiras.
Esta semana foi-se retomando alguma capacidade, mas muito gradualmente, e a recuperação poderá ser arrastada no tempo. Aponta-se para uma paragem média de 30 dias, mas a situação pode arrastar-se de 3 a 6 meses.
Neste momento, revela ao Observador Henrique Carvalho, há clientes destas empresas a aceitar o adiamento das entregas, mas também isso depende do relacionamento entre as partes, e também não conseguirão eternizar as encomendas. Também os clientes não podem parar até que o fornecimento lhe chegue. Procurarão alternativas, alguns já o fizeram.
Numa das reportagens feitas pelo Observador, a TJ Moldes explicava que um molde da Porsche estava preso numa máquina e que a marca iria à fábrica para verificar os danos. “Isto pode mexer com a produção na Alemanha, porque o cliente não consegue produzir sem aquele molde”, explicava Nério Jesus, sócio da companhia, que ainda mantinha o cliente.
Como a TJ Moldes, na Marinha Grande, a região de Leiria tem muitas empresas exportadoras. Henrique Carvalho diz que a Nerlei ainda não tem dados sobre impactos económico-financeiros das empresas associadas, mas recorda os números de Manuel Castro Almeida, que já indicou que o custo poderá atingir os 4 mil milhões de euros, não apenas nas empresas.
Em cada dia que passa, um equipamento posto a funcionar é uma conquista. Henrique Carvalho conta como uma empresa de cerâmica conseguiu esta sexta-feira por uma máquina chave a trabalhar, para que a cadeia de valor não se perca.
Henrique Carvalho não discute os critérios técnicos da E-Redes para as prioridades de ligações, mas fala do impacto que a falta de rede elétrica pode ter no campo empresarial, arrastando riqueza e postos de trabalho. Por estes dias chegaram equipas especializadas da Eletricidade de França para ajudar e é por isso que o diretor executivo da Nerlei questiona porque não foi pedido auxílio mais cedo, para “responder o quanto antes”. As telecomunicações também têm sido intermitentes, assume.
A Nerlei assume que vai haver “muita procura pelo lay off simplificado”, cujo diploma foi publicado esta semana. Mas Henrique Carvalho diz que o importante, agora, é que “possam ser efetivados o quanto antes e que os mecanismos administrativos sejam lançados para que estejam disponíveis nos próximos dias”. O processamento de vencimentos de fevereiro tem de acontecer até final do mês e por isso “é essencial que nos próximos dias, na próxima semana, os mecanismos estejam em vigor. De outra forma haverá atrasos, porque as empresas não têm meios para pagar”. E, acrescenta, há muitos trabalhadores a faltarem porque têm de recuperar os seus bens pessoais. Mas quem paga isso? “Tem de se ver”, diz.
No que respeita às linhas de crédito, o diretor executivo da Nerlei assume haver um elevado número de empresas a querer acorrer, mas diz que há ainda “detalhes” que “vão ter de ser resolvidos”, não especificando.
Henrique Carvalho diz que os 10% que as linhas de crédito têm previsto para poder ser a fundo perdido “vão ser insuficientes”. “Vai ter de haver outro mecanismo para haver dinheiro que não seja dívida. Porque se não produzem, não terão condições de pagar dívidas. “Tem de haver uma componente adicional e estrutural a fundo perdido para recuperar empresas”.
Outra dificuldade já falada várias vezes é a capacidade de construção para voltar a erguer estruturas físicas que algumas empresas viram ficar no chão ou voar com a Kristin. Admite que há preços a subir, mas Henrique Carvalho realça a medida anunciada esta semana por Luís Montenegro de colocar a ASAE no terreno para fiscalizar eventuais açambarcamentos e preços especulativos. Mas, para as empresas, o problema é haver construtoras com capacidade para acudir a recuperações. Henrique Carvalho fala, por isso, da necessidade de haver mais recursos disponíveis e rápido.
Nesta situação de calamidade, o diretor executivo da Nerlei realça o papel que as autarquias têm vindo a desempenhar, que “tem sido na generalidade muito bom. As câmaras e juntas têm sido muito proativas”, apesar da dificuldade nas comunicações por falta de redes. “Tenho visto um grande esforço e bem feito”.
Quanto ao Estado central, Henrique Carvalho diz que “teremos mais para observar, nomeadamente na própria pressão sobre a E-Redes e operadores de telecomunicações”, tendo visto “desarticulações, nomeadamente na comunicação sobretudo no princípio”. Depois de ter havido mais consciencialização do que se estava a passar, “o ritmo acabou por ser bastante intenso na procura de soluções”.
A associação levou 67 empresas à Feira Ambiente em Frankfurt, que começou esta sexta-feira e decorre durante o fim de semana. São as empresas, diz, a mostrar resiliência. A vida tem de continuar e os negócios também.
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