Depois de Carlos III se mostrar “pronto para apoiar” uma investigação ao irmão, naquela que foi a primeira reação oficial do Palácio de Buckingham às centenas de menções ao nome de André Mountbatten-Windsor nos ficheiros Epstein, os recentes documentos tornados públicos pelo Departamento de Justiça norte-americano revelam que o ex-príncipe e o criminoso sexual planearam abrir um negócio juntos na China, enquanto Epstein ainda estava a cumprir pena de prisão domiciliária. Na passada segunda-feira a polícia de Thames Valley confirmou que está a analisar as alegações de que André passou informações confidenciais a Epstein entre 2001 e 2011, período em que o na altura duque de Iorque servia como enviado comercial do Reino Unido.
As conversas sobre um possível negócio na China começaram em julho de 2010, enquanto Jeffrey Epstein ainda cumpria a pena de prisão domiciliária, na sequência do acordo de 2008 quando foi condenado por solicitar a prostituição de uma menor. Quem intermediou a discussão foi David Stern, um investidor alemão que ocupou entre 2017 e 2019 o cargo de diretor da Pitch@Palace, uma espécie de “Shark Tank” sem fins lucrativos que conectava startups a investidores através de eventos organizados dentro de palácios — uma iniciativa criada por André em 2014. Além disso, entre 2016 e 2022, Stern foi diretor do St. George’s House Trust, uma instituição de caridade estabelecida dentro do Castelo de Windsor, o que revela a sua proximidade com a realeza britânica. Os ficheiros recentemente divulgados revelam que David Stern correspondeu-se com Epstein, no mínimo, entre 2009 e 2017.
A “aura e acesso” de André com as decisões de investimentos de Epstein
“Uma ideia totalmente remota para a sua consideração, baseada no seu interesse em gestão de património privado. Criamos um pequeno escritório de investimentos altamente privado em Londres, com uma pequena filial em Pequim, para indivíduos de alto património líquido — com foco em chineses (mas não exclusivamente), que funciona como um escritório familiar ampliado. Incluímos discretamente PA e usamos a sua ‘aura e acesso’. Você faz ou decide sobre os investimentos e eu gerencio as operações diárias, o relacionamento com clientes chineses e a aquisição de clientes”, escreve Stern a Esptein a 24 de julho de 2010. ‘PA’ é uma sigla usada nas comunicações por email para falar do príncipe André.
▲ Email em que David Stern sugere a empresa de investimentos na China, a usar a "aura e o acesso" de André
Cerca de um mês depois, Epstein pede a Stern que lhe envie um CV. O investidor alemão envia então um breve texto com destaque para a sua experiência no mercado chinês, incluindo a fundação da Asia Gateway Limited em 2002, “uma empresa de consultoria com escritórios em Pequim e Londres”, as experiências no Deutsche Bank de Shanghai e na Siemens de Pequim, e as formações em Direito chinês e mandarim. Na mesma altura, Stern e Epstein organizam um encontro em Pequim, com a presença de Jes Staley, antigo CEO do banco Barclays, e que na altura era um dos principais executivos do JP Morgan.
Num email com o assunto “PA”, Epstein sugere a Jes Staley dia e local da reunião: 2 de setembro no hotel St. Regis, em Pequim. O executivo da JP Morgan responde então com uma sugestão de horário: 17h30. “Confirme com André”, escreveu Epstein a David Stern. “17h30 no dia 2 de setembro no hotel St. Regis funciona. Confirmado”, respondeu Stern. A reunião, de acordo com o Telegraph, decorreu durante uma visita oficial do ex-príncipe à China como enviado comercial do Reino Unido, entre 2 e 11 de setembro, o que significa que foi paga pelo Governo britânico.
▲ Epstein e Stern trocaram emails para organizar um encontro entre André e Jes Stanley em Pequim
Meses depois, em dezembro, André esteve em Nova Iorque para a visita em que mais tarde, numa entrevista à BBC em 2019, afirmou ter sido feita para “terminar a amizade” com Epstein. Contudo, o historiador e jornalista Andrew Lownie escreve na sua biografia não autorizada dos duques de Iorque lançada em 2025 que a viagem teve, entre outras coisas, como objetivo os negócios. “Descobriu-se que, no primeiro dia, André estava a tentar obter um financiamento de 200 milhões de dólares para uma misteriosa empresa petrolífera, a Aria Petroleum. Epstein encaminhou a solicitação ao seu banqueiro particular, Jes Staley, do JP Morgan, acrescentando que André queria representar os interesses de uma organização que ele chamava de “Casanov”, provavelmente uma referência ao JP Morgan Cazenove, na China”, escreve no livro.
Operação “discreta” e rede global “incomparável”
Contudo, a 20 de fevereiro de 2011, o News of the World publicou a imagem de paparazzi que mostrava André e Epstein juntos a caminhar no Central Park. Dias depois foi a vez do Mail on Sunday publicar a infame fotografia do ex-príncipe abraçado em Virginia Giuffre, a mulher que o acusou de abuso sexual e com quem fez um acordo milionário em 2022. A 7 de março, David Stern comunica-se com Epstein, a mostrar preocupação com o escrutínio da imprensa, usando as siglas JE para Epstein e S para Sarah Ferguson. “Parece que a estratégia dos media é agora dividir o foco em dois debates: 1.º O PA é um bom enviado comercial ou não? Os líderes empresariais afirmam publicamente que sim, enquanto há pouca ou nenhuma menção a JE. 2.º Outro erro terrível de S. ao aceitar dinheiro de um abusador de crianças condenado, e está muito arrependida por envolver PA nisso.”
▲ A fotografia em que André aparece ao lado de Virginia Giuffre foi publicada pelo Mail on Sunday a 1 de março de 2011
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No meio do furacão de novas notícias que ligavam André a Epstein, o ex-príncipe demitiu-se da função de representante do Governo britânico em julho. Contudo, a negociação para a empresa na China continuou. Em fevereiro de 2011 Stern sugere o nome Witan. “O que achas? PA gosta e já que não sabia o que era quando lhe falei, acho que é seguro”. Na sequência o investidor alemão descreve o significado da palavra. “Witan, também chamado Witenagemot entre os séculos VII a XI, era o conselho dos reis anglo-saxónicos em Inglaterra. A sua função essencial era aconselhar o rei sobre todos os assuntos sobre os quais desejasse consultar. Atestava as suas concessões de terras a igrejas ou leigos, consentia a promulgação de novas leis ou novas declarações de costumes antigos e ajudava-o a lidar com rebeldes e pessoas suspeitas de desafeição. A sua composição e horário de reunião eram determinados pelo desejo do rei. Geralmente frequentado pelos nobres mais importantes e pelos bispos, o Witan não era, de todo, uma assembleia popular.”
Noutro email de abril, que tem o remetente rasurado pelo Departamento de Justiça norte-americano, mas que será de David Stern, lê-se: “Mudei o nome da minha empresa no Reino Unido hoje de “Asia Gateway Ltd” para “Witan Group Ltd”. Ok?” Já em maio, Stern envia novas informações sobre a empresa. “Para o escritório da Witan em Pequim, irei contratar analistas. Necessito de preparar uma descrição da empresa que também poderá ser utilizada posteriormente. O que pensa deste rascunho (precisa de ajustes…)?”, escreve o investidor alemão, que a seguir envia sugestões que definem o negócio como “uma empresa de investimento independente e privada que oferece gestão de investimentos e consultoria corporativa em todo o mundo”, destacando que “a empresa opera discretamente e possui uma rede global incomparável”. Epstein passou a receber emails oficiais de uma conta da Witan Group em julho de 2011 — entretanto, os registos financeiros apontam para o estabelecimento oficial da empresa apenas em agosto de 2012. Nem Epstein nem André aparecem em documentos financeiros relacionados com a empresa, que foi dissolvida em outubro de 2019.
De recordar que nesta altura André trabalhava ativamente na Pitch@Palace — em 2017 o ex-príncipe estabeleceu a rede na China, e nomeou como responsável Yang Tengbo, que foi expulso do território britânico por ser considerado um “espião” chinês. A organização foi estabelecida como sendo “sem fins lucrativos”, contudo, com o afastamento de André das atividades oficiais da realeza em 2019, a iniciativa perdeu a relevância. Num depoimento de 2023 no âmbito da investigação a Yang Tengbo, o cidadão chinês fala sobre “ressuscitar a Pitch@Palace com uma nova marca e nome, Innovate Global. Discussões estão em curso com potenciais parceiros para eventos em países como Japão, Malásia, Thailândia, Emirados Árabes e China. Não há planos de eventos no Reino Unido”. Durante este período, André também partilhou com Epstein detalhes das suas viagens oficiais como enviado comercial do Reino Unido. Em novembro de 2010, os registos mostram que demorou apenas 5 minutos para encaminhar ao criminoso sexual um relatório enviado pelo seu assistente especial, Amit Patel, acerca das discussões realizadas durante visitas a Hong Kong, Singapura, Vietname e China.
▲ David Stern, Sarah Ferguson e André Mountbatten-Windsor numa fotografia enviada por Stern a Epstein de um jantar em Paris em 2014
Reprodução dos Ficheiros Epstein divulgados pelo DOJ
Depois da relação de André e Epstein ser escrutinada pela imprensa no início de 2011, as comunicações entre ambos parecem ter tido a ajuda de David Stern. Em 2013, Esptein envia um email ao investidor alemão: “Tenho uma amiga muito bonita que vai a Londres na terça. André pode querer levá-la para jantar”. Já em abril de 2017, Stern convida Epstein para um jantar no Castelo de Windsor. “50 chineses de topo, incluindo Pony Ma (Tencent), Yang Huiyan (a mulher mais rica da Ásia aos 36 anos), etc. Mais outros convidados de topo britânicos. Devo convidar Ariane? Quem mais?”, quis saber Stern, fazendo referência a Ariane de Rothschild, CEO do banco suíço Edmond de Rothschild. O criminoso sexual responde então que lhe vai perguntar e sugere convidar “o sultão”, falando de Ahmed bin Sulayem, CEO da DP World. Há ainda várias trocas de mensagens entre em que Stern menciona os antigos duques de Iorque, como em 2014, quando enviou uma fotografia ao lado de André e Sarah Ferguson, e enviou “desejos de feliz aniversário e amor” em nome de “PA”. O irmão de Carlos III alegou, numa entrevista à BBC em 2019 que cortou relações com Epstein em dezembro de 2010, e nega o envolvimento em qualquer atividade criminosa.
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